Brasília, 8.4.09 – Não foi com discurso para a plateia que o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco marcou sua presença no 22º Fórum da Liberdade ontem, em Porto Alegre. Contrariando posições de convidados que o antecederam, que criticaram de diferentes pontos de vista a atuação do Estado na economia deflagrada pela crise, avisou logo que “conserto, sem dúvida, é intervenção das mesmas autoridades que produziram a confusão”. Depois da palestra, ele concedeu a seguinte entrevista exclusiva ao DC.
Diário Catarinense – Se a intervenção do Estado é a solução para a crise, a do governo brasileiro está no rumo e do tamanho certos?
Gustavo Franco – Sempre vai ser matéria de julgamento se a intervenção foi demais ou de menos. Seja no plano cambial, monetário, no compulsório. É da natureza da intervenção que seja sempre matéria de julgamento. Aqui, tem gente que acha que foi demais, tem gente que acha que foi de menos. Pessoalmente, achei que foi de menos no plano cambial, também no plano do compulsório, mas a direção é correta. Isso é o fundamental.
DC – O que seria essencial e ainda não foi feito?
Franco – Há muita coisa faltando, que são as reformas. O que está na ordem do dia, que é a grande modificação, é a taxa de juro. Abriu-se uma janela de possibilidade, do lado da política monetária, que é maravilhosa. A taxa de juro pode cair a um dígito, pode cair mais para perto de 5% do que de 10%, o que é encantador do ponto de vista de suas possibilidades para o crescimento do país. Essa é a grande oportunidade, não vejo nenhuma outra no curto prazo.
DC – Existe um limite para a redução do juro?
Franco – É difícil dizer qual é o limite agora, porque no Hemisfério Norte as taxas de juros estão em zero. Mas sempre se fez uma conta assim, muito fácil, sobre o limite de baixa, que era olhar como estão as taxas nos Estados Unidos (hoje entre zero e 0,25% ao ano), mais o prêmio do risco soberano, que hoje deve estar em torno dos 3% a 4%, mais alguma coisa pelo risco cambial, em torno de 1,5%. Somando-se tudo, dificilmente chega a 6%. Esse é um limite teórico de baixa, tem de ver como está o panorama inflacionário, que está extremamente benigno agora. Creio que quando chegarmos a essa taxa de juro, que é normal para um país do nosso nível de desenvolvimento, vai ser muito mais difícil retornar para onde estamos hoje ou para onde já estivemos no passado. As condições que exigiam que o Brasil fosse o campeão mundial de juros ficaram para trás, felizmente.
DC – No seu tempo de BC era diferente?
Franco – Eu sofri esse período e fui um dos que praticou taxas de juro elevadas, entre todos os que antecederam o doutor Henrique Meirelles. Mas as condições mudaram. Ele é muito feliz porque será de nós o que vai conseguir a menor taxa desde a fundação do Banco Central. Tenho certeza de que o sindicato dos ex-presidentes do BC está muito feliz pelo doutor Meirelles (risos).
DC – Dá um pouquinho de inveja?
Franco – Não, somente aplausos, tomara que chegue lá.
DC – O Brasil foi provocado a assumir a liderança na defesa do livre comércio contra o protecionismo. Há condições para que isso ocorra?
Franco – Sim, mas a liderança tem um pré-requisito que é ter alguma coisa a dizer. O Brasil tem uma posição privilegiada pela força de sua economia, mas é preciso que a liderança brasileira se apresente nos fóruns internacionais com alguma coisa muito original, interessante e útil, e não sei se é o nosso caso.
Fonte: Diário Catarinense