São Paulo, 23.5.07 – A profissionalização dos transportes no Brasil tem esbarrado num problema. Falta mão-de-obra especializada para dirigir os novos veÃculos pesados, máquinas cada vez mais caras e complexas pela tecnologia embarcada. Estimativas do setor apontam déficit de pelo menos 90 mil motoristas atualmente no mercado – 15% da frota de 600 mil das transportadoras. A conseqüência é que empresas têm perda de receita com veÃculos que ficam ociosos, principalmente, num instante em que o setor está aquecido. Caminhão parado é como avião no solo; não dá dinheiro.
O presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas do ABC, Antonio Caetano Pinto, disse que a falta de mão-de-obra qualificada pode representar um “apagão” para o setor. Para ele, a escassez atinge mais os grandes centros urbanos. “Atualmente, a atividade envolve riscos, como assaltos nas estradas, afugentando potenciais novos motoristas”.
“Candidatos não faltam para preencher as vagas”, afirma Claudio Adamucho, do G10, grupo que reúne em Maringá (PR) sete transportadoras com frota total de 500 conjuntos cavalo-mecânico e carreta. “Acontece que as empresas organizadas não absorvem mais pessoas que não demonstram aptidão para a estrada, como ocorria anos atrás neste setor”, diz o empresário.
O grau de exigência das empresas aumentou. Um conjunto cavalo-carreta chega a custar em torno de R$ 600 mil. Além do alto valor do patrimônio, os veÃculos ampliaram a capacidade de transporte – rodotrens, por exemplo, atingem 73 toneladas brutas (e levam cerca de 50 toneladas de carga) – numa malha rodoviária, na maior parte do PaÃs, obsoleta.
O departamento de recursos humanos das grandes transportadoras barram candidatos desprovidos de concentração, coordenação motora e desorganização. Pessoas que apresentam disposição para o risco – gosto pela velocidade – e para o álcool são vetados logo nos primeiros testes psicológicos nas grandes companhias.
“Acabou aquele sentimento de liberdade que o caminhoneiro tinha, de pegar a carreta e ficar 20 dias na estrada sem dar satisfação a ninguém”, afirma Adamucho. “Atualmente, o setor é cada vez mais vigiado, mais organizado. Chips e rastreadores por satélite controlam toda viagem, em todo o território nacional. Em alguns casos, é exigido relatório diário do motorista”. As transportadoras também não deixam mais mulheres e filhos acompanharem os motoristas. “Isso é coisa do passado. Agora a profissionalização chegou”. diz o empresário. “O risco de admitir um profissional problemático me leva pessoalmente a procurar o dono da empresa onde o candidato trabalhou anteriormente. Quero ter o mÃnimo de risco”, diz Leandro Bortoncello, diretor da gaúcha Transportadora Transmiro, dona de 50 cavalos-carretas.
A G10 criou e vende para o mercado cursos de aperfeiçoamento para novos profissionais e também motoristas em atividade. Como o Centro de Treinamento e Qualificação no Transporte (CTQT), existem outras escolas pelo PaÃs para melhor treinar a mão-de-obra. Há também a Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte (Fabet ), cuja matriz fica em Concórdia (RS), que em seu site informa ter qualificado cerca de 20 mil motoristas dos mais diversos estados brasileiros. Com o sucesso do programa, a Fabet lançou versões do Programa Caminhão Escola na capital paulista. Nos programas mais extensos, de até dois anos, os alunos aprendem inglês, espanhol, mecânica e direção defensiva. Em Vacaria (RS) há pista de testes.
Por ser um setor bastante disperso e com milhares de profissionais não há estimativa oficial de quanto as empresas deixam de faturar pela falta de mão-de-obra. A ociosidade fica mais evidente durante perÃodos de entressafra, quando as empresas têm dificuldade para substituir profissionais que entram em férias ou mesmo os que saem em licenças médicas.
Os cursos de qualificação costumam ser bancados pelas empresas. No CTQT, dois meses de aulas teóricas e práticas custam cerca de R$ 1,8 mil. A Perdigão foi uma das empresas que contratou cursos para profissionais que transportam seus produtos.
Para Eriodes Battistella, conselheiro do Grupo Battistella, que controla as revendas Scania Cotrasa e Ediba, no Paraná e Rio Grande do Sul, algumas empresas estão remunerando seus profissionais com base na participação dos resultados.
“Quando cumprem o horário ou, por exemplo, diminuem o gasto do combustÃvel, o profissional costuma ser recompensado”, afirmou Eriodes. Com isso, motoristas mais experientes têm alcançado renda mensal de até R$ 5 mil.
Para Eriodes, a baixa remuneração é resultado do excesso de oferta de caminhões, que deprecia o valor do frete. “Como não há programa contÃnuo de renovação de frota, caminhões muito velhos continuam disputando e deprimindo o mercado”.
Para o empresário, o setor vai cada vez mais selecionar os motoristas. Ele lembra que o Brasil vive o mesmo problema da Europa, mas por motivos diferentes. Alguns paÃses europeus, segundo dados de montadoras, têm falta de 15% a 18% de motoristas em relação à frota. Fonte: Gazeta Mercantil