São Paulo, 21.7.08 – O ritmo forte da economia nos últimos trimestres, aliado à alta dependência do transporte rodoviário, traz à tona novas fragilidades da logÃstica brasileira. Com demanda extremamente aquecida por causa do consumo interno e das exportações, as empresas de transporte rodoviário chegaram ao ponto de recusar cliente por falta de capacidade instalada. Algumas se dão ao luxo até de escolher o cliente, setor ou região que possa dar melhor rentabilidade no serviço.
Pesquisa inédita do Centro de LogÃstica da Coppead da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) mostra que, nos últimos 12 meses, 82% das 65 transportadoras entrevistadas já recusaram clientes por falta de capacidade ou porque a rentabilidade do serviço não era atrativa. Além disso, 51% afirmam que a oferta de transporte rodoviário de cargas, responsável por 60% de tudo que é movimentado no PaÃs, está no limite da capacidade.
Estima-se que o avanço do setor este ano esteja 15% acima do verificado em 2007. Para os próximos meses, a expectativa é de demanda ainda maior, já que tradicionalmente a atividade econômica é mais aquecida no segundo semestre. “A demanda está crescendo bem mais que a oferta”, avalia o professor da Coppead/UFRJ, Paulo Fleury, responsável pela pesquisa. Para completar o quadro, diz ele, a expansão da capacidade das empresas tem sido dificultada por filas na entrega de caminhões, que vão de três a nove meses.
“Em tempos de desespero, pegamos o que vem pela frente. Mas, num cenário de demanda forte como a atual, é normal darmos preferência a serviços e clientes mais rentáveis”, afirma Djalma Miranda, diretor de planejamento da Transportadora Binotto, a quarta maior do PaÃs. Segundo ele, um exemplo de logÃstica de baixa eficiência é o transporte para o Nordeste.
Como a região importa mais produtos do que exporta, os caminhões vão cheios e muitos voltam vazios. “De cada dez veÃculos que sobem, apenas cinco retornam com cargas. Isso depois de esperarem em média dois dias pelo carregamento, o que significa uma grande perda”, diz o executivo. “É muito mais rentável fazer o transporte de uma carga dedicada, em que recebo para ir e para voltar.”
Todos esses meandros do setor, que podem até provocar a quebra de uma empresa, se não forem bem dimensionados, incentivaram a Transportadora Americana (TA), do interior de São Paulo, a fazer ampla revisão na estratégia de prestação de serviços. Agora, a empresa – cuja frota é de 400 veÃculos próprios e 900 de terceiros – está mais focada no transporte de mercadorias de alto valor agregado, como eletroeletrônicos, produtos farmacêuticos, cosméticos e artigos relacionados à indústria têxtil, diz o diretor da TA, Celso Luchiari.
Ele explica que a companhia tem recusado, por exemplo, clientes que vendem para supermercados. “Trata-se de um transporte muito oneroso. Às vezes, o caminhão chega ao local e tem de esperar o dia inteiro para descarregar. Em outros casos é preciso agendar a entrega. Não posso ficar o dia inteiro com um veÃculo e motorista parados.”
Por outro lado, diz ele, essa recusa tem criado um novo nicho de mercado para outros transportadores, que decidiram atender os fornecedores de redes de supermercados. É claro que o custo por todos os entraves está embutido no preço do frete.
Fonte: O Estado de S. Paulo