Florianópolis, 2.3.15 – Durou cerca de duas horas a reunião entre o governador Raimundo Colombo (PSD) e caminhoneiros que participaram dos bloqueios na região do Concórdia. Também estavam presentes outras autoridades, a maior parte delas ligadas à região.
O encontro chegou a ser interrompido para que os caminhoneiros pudessem se comunicar com outros manifestantes por telefone. O maior avanço prático foi a disposição de Colombo de articular uma frente com os governadores do Rio Grande do Sul e do Paraná para participar das negociações entre os manifestantes e o Palácio do Planalto.
— O Sul é a região onde o movimento está mais forte. Então, os governadores entrariam na linha de frente das negociações — afirma o deputado Neodi Saretta (PT), um dos presentes no encontro.
A possibilidade de que o Estado diminuísse o percentual do ICMS sobre o diesel chegou a ser citada pelos caminhoneiros, mas o governo não deu nenhuma sinalização nesse sentido. Mesmo assim, o sentimento foi de que o encontro foi positivo. O governo deve manter a disposição de conversar com os caminhoneiros das regiões em que pararem os bloqueios de rodovias.
— Esse diálogo já permitiu uma trégua na região de Concórdia que pode se estender a outras — afirmou Saretta.
Também participaram do encontro o vice-governador Eduardo Pinho Moreira (PMDB), o secretário Moacir Sopelsa (PMDB), da Agricultura, o deputado federal Celso Maldaner (PMDB), e o prefeito de Concórdia, João Girardi (PT). A reunião começou por volta das 14h. Fonte: Bloco de Notas/Upiara Bochi
Representantes do Setcom acompanham as negociações
O assessor jurídico do Sindicato das Empresas de Transporte de Carga do Oeste e Meio-oeste Catarinense (Setcom), Ederson Vendrame, participou da audiência com o governador. E na tarde de domingo, o vice-presidente do Sindicato, Tarcísio Vizzotto, participou, em Chapecó, da videoconferência com o ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, Miguel Rossetto, que reuniu representantes de alguns caminhoneiros que estão parados desde o dia 18 de fevereiro. Fonte: Imprensa Fetrancesc.
Menos bloqueio, mais diálogo
Após um fim de semana marcado pela diminuição dos bloqueios nas estradas de Santa Catarina, pelos comboios de caminhões escoltados pela Polícia Militar e uma carreata a Brasília, o movimento dos caminhoneiros entra em seu 13º dia com o primeiro encontro entre manifestantes e o governador Raimundo Colombo (PSD). O grupo de Concórdia pediu a audiência ao secretário de Agricultura Moacir Sopelsa (PMDB) na sexta-feira.
Ontem, em uma videoconferência articulada pelo Partido dos Trabalhadores de SC, caminhoneiros do Oeste conversaram com o ministro -chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Miguel Rossetto, e ouviram dele os compromissos do governo federal com a classe.
Para hoje, a expectativa é de que os manifestantes e governos estreitem os discursos em SC e em Brasília. Por aqui, a proposta do governador é de se colocar como intermediário junto ao Palácio do Planalto.
Em troca, o movimento seria mais maleável. Embora o grupo de caminhoneiros que se encontrará com Colombo seja todo de Concórdia, eles estão em contato com manifestantes de outros pontos do Estado. Deputados do PT também estão articulados para intermediar as negociações nas esferas nacional e estadual.
Liberação com comboios
Até as 21h de ontem, havia apenas sete rodovias federais bloqueadas no Estado. Todas as estradas estaduais foram liberadas. Para o governo do Estado, a redução das barreiras é considerada um reflexo das ações realizadas pelas forças de segurança nos pontos de interdição das rodovias nas últimas 24h e das operações de escolta a comboios de caminhões. De sexta-feira até ontem, pelo menos seis grupos de caminhoneiros foram escoltados em rodovias do Estado.
Nos dois primeiros dias, o governo divulgou os trajetos e o tipos de carga transportados. Somente no sábado foram acompanhados 47 caminhões com frango e suínos. Ontem, o gabinete de crise montado pelo governo informou que não divulgaria mais detalhes dos comboios.
Fonte: Upiara Boschi – Diário Catarinense
Comboios ainda não garantem produção
Nos portos do Litoral Norte do Estado, a expectativa do final de semana era pela chegada dos comboios escoltados. Até as 21h de ontem nenhum caminhão havia chegado ao porto de Itajaí e manifestantes continuavam impedindo a entrada de caminhões no local. Em Navegantes, os acessos à Portonave foram liberados ontem após negociação com a Polícia Rodoviária Federal (PRF).
Além do pedido da PRF, o caminhoneiro Alex Machado explicou que o grupo decidiu liberar os acessos à Portonave em função do baixo movimento no terminal. No entanto, os manifestantes planejavam retornar ao local na madrugada de hoje.
– Em Itajaí o protesto continua – enfatiza Machado.
Ontem, trechos da BR-470 em Indaial, Timbó e Pomerode foram interrompidos mais de uma vez por caminhões.
Os bloqueios que ainda resistem no Estado deixam em alerta os frigoríficos. Mesmo com a liberação de comboios de pelo menos 76 caminhões que estavam bloqueados nas unidades frigoríficas do Oeste, a medida não deve ser suficiente para retomar o abate. A assessoria de imprensa da Aurora Alimentos, que parou o abate nas 10 unidades no Estado, informou que é difícil a volta dos trabalhos hoje. O diretor de agropecuária da JBS, José Ribas, avaliou que a medida libera espaço nos estoques, mas a retomada de abates, se ocorrer, será em pequeno volume:
– Temos outras travas como falta de combustível e ração racionada. Se não tiver fluxo, não dá para retomar o abate.
O diretor-executivo da Associação Catarinense de Avicultura (Acav), Ricardo Gouvêa, disse que a liberação das cargas permite atender os supermercados, distribuidores e também alguns mercados externos.
“Solução é baixar o diesel”
Maurício Vendrame – Presidente Coocatrans
Em busca de negociação em Brasília, um comboio com 11 caminhões saiu no sábado de Maravilha, no Oeste, para um possível encontro com o governo federal hoje. Os caminhoneiros esperam chegar a um acordo sobre o preço do combustível. Maurício Vendrame, presidente da Cooperativa Catarinense dos Transportadores de Cargas (Coocatrans), é um dos integrantes do comboio, e falou ontem com o Diário Catarinense durante uma parada em São José do Rio Preto (SP).
Como está a mobilização rumo a Brasília?
Maurício Vendrame – Estamos indo nos encontrar com o pessoal de outros Estados como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Tem mais um pessoal do Paraná e do Rio Grande do Sul. De Santa Catarina sei que tem pelo menos mais uns sete ou oito de Joaçaba. Não tenho ideia de quantos vão ao todo. Chegando lá devemos nos reunir para entrar num consenso sobre a pauta e falar uma língua só.
De que forma se deu a articulação para a formação deste comboio?
Vendrame – Nós conversamos com algumas pessoas do Paraná e do Mato Grosso e resolvemos ir até Brasília de caminhão, que é o nosso instrumento de trabalho. O pessoal que esteve negociando não representa o movimento nem conversaram com a gente. Não é isso que a gente esperava e nem o povo que está indo para as ruas e rodovias para nos apoiar. Durante a viagem, por onde a gente passa é aplaudido e as pessoas até se ajoelham. É o desespero. Nunca imaginava fazer isso, mas quando vejo que o resultado de 34 anos de trabalho do meu pai, que é caminhoneiro, pode “ir a pique”, é hora de fazer alguma coisa.
Vocês fizeram uma planilha de custos do frete, de quanto teria que aumentar?
Vendrame – Hoje um caminhão que faz a rota Chapecó-Dourados (MS), com grãos, tem uma receita bruta de R$ 25,6 mil por mês, com 10 viagens, contando o retorno vazio, que é o que normalmente acontece. Se for pagar tudo em dia, como seguro, cumprir o horário de 10 horas por dia, o prejuízo seria de R$ 16 mil por mês com o novo valor do combustível. O que acontece é que o pessoal não faz o seguro, ou estoura o horário e tem gente que sonega. Nós queremos garantir para o motorista todos os direitos. Mas para isso o frete teria quase que dobrar. E isso nós também não queremos pois, vai estourar no consumidor. A solução é baixar o diesel.
Ministro abre conversa pela internet
Cerca de 50 representantes dos caminhoneiros e agricultores que estão mobilizados nas rodovias catarinenses desde o dia 18 de fevereiro tiveram uma videoconferência com o ministro da Secretaria Geral da República, Miguel Rossetto, ontem à tarde. A mobilização continua, mas os manifestantes conseguiram abrir um canal de negociação direto com o governo. O ministro deve receber representantes catarinenses amanhã.
– Foi a primeira vez que houve um diálogo com as lideranças do movimento de Santa Catarina – resumiu a deputada Luciane Carminatti (PT), que faz parte da Comissão de Transportes da Assembleia Legislativa.
O deputado federal Pedro Uczai (PT), que fez o contato entre o ministro e as lideranças, o deputado estadual Dirceu Dresch (PT) e o presidente do PT em Santa Catarina, Cláudio Vignatti, também acompanharam a conversa virtual.
– Eles nos procuraram – disse o motorista Vilmar Bonora, que esteve no encontro e é um dos líderes catarinenses.
Negociações no País e no Estado
Bonora afirmou que o aceno para um audiência amanhã representa um avanço. No entanto, há alguns impasses como a reivindicação de baixar o preço do combustível. Rossetto reiterou que o governo manteve os preços baixos durante seis anos e que a equipe econômica não quer rever esse ponto.
Luciane explicou três frentes de negociações: avaliar o que cabe ao Governo Federal, com a discussão dos valores dos fretes; discutir a redução do ICMS sobre os combustíveis em uma agenda hoje com o governador Raimundo Colombo; e discutir a divisão dos lucros das empresas de transporte com os transportadores e motoristas que são contratados e subcontratados. Ela admite, no entanto, que haverá dificuldade nas discussões.
Fonte: Darci Debona – Diário Catarinense
Artigo – E começam os ajustes
A política macroeconômica mais restritiva prevista já vem ocorrendo nos últimos dias com as novas medidas anunciadas pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Entre elas estão os cortes de despesas com as mudanças de benefícios previdenciários, bem como da redução do subsídio à Conta de Desenvolvimento Energético que o mercado tem estimado uma economia de aproximadamente R$ 27 bilhões para o Tesouro Nacional se somados os dois cortes.
Outras medidas que vão contra o corte de despesas são os aumentos de tributos. Juntando tais medidas para esse ano são estimados uma arrecadação de R$20 bilhões por parte do governo. Ao todo são estimados R$47 bilhões de economia para o Tesouro Nacional com essas medidas que incidirão para conversão de equilíbrio fiscal. Tudo prometido por Levy, que quer chegar ao fim do ano com 1,2% de superávit primário.
Também se espera que a política monetária seja restritiva em 2015. Após a reunião do Copom de 20 de janeiro, a taxa de juros Selic ficou no patamar de 12,25% ao ano, confirmando o que o mercado já vinha cogitando, mas ao mesmo tempo deixando o Brasil com uma das taxas de juros mais altas do mundo.
Na avaliação da Facisc, isso é o começo de um ano que promete ser difícil. Apesar da condução da política econômica estar sendo mais clara e transparente, não deixam de ser medidas que inibem investimentos e o crescimento econômico de curto prazo. Ao mesmo tempo tendem a controlar a inflação e trazem credibilidade sobre as contas públicas, essas tão criticadas no governo anterior da presidente Dilma Rousseff. Outro ponto que é de salientar é que essas medidas podem chegar a uma certa instabilidade política. Já se nota o quão criticado tem sido o início desse governo e que não vai deixar de ser fácil para a presidente. Muito provável que ocorram novas manifestações e grandes críticas da sociedade em tempo, e que complicarão qualquer medida que venha a ser tomada pelo governo tanto na esfera econômica como na esfera política.
Ernesto João Reck – presidente da Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina (Facisc)
Domingo 1º.3.15
Avanço em marcha lenta
A primeira greve geral dos caminhoneiros, em 1999, se assemelha ao movimento atual nas reivindicações. Neste período, a qualidade da infraestrutura para o transporte rodoviário pouco evoluiu e a dependência do caminhão para a circulação de mercadorias segue predominante, deixando evidente a crônica falta de investimento nos sistemas ferroviários e hidroviários
A sensação de filme já visto foi intensa para quem acompanhou os transtornos causados pela mobilização dos caminhoneiros no país. Os motoristas autônomos paralisaram atividades e bloquearam estradas em pelo menos 11 Estados para exigir melhores condições de trabalho. Por dois motivos, o episódio lembra a greve geral que parou as rodovias 15 anos atrás: as reivindicações continuam basicamente as mesmas – preço menor do diesel e a tarifa do frete mais em conta – e a caminhão-dependência, que o país já tinha em 1999 e segue forte.
Com estradas bloqueadas em diversos Estados, a produção e venda de mercadorias ficou no caminho, causando atraso nas entregas, aumento no preço de alimentos, perda de produtos e prejuízos irreparáveis. O efeito poderia ser um pouco menos perverso se o país ainda não tivesse uma matriz de transportes muito concentrada no modal rodoviário.
Conforme dados do Conselho Nacional de Trânsito, cerca de 61% das cargas que circulam no país trafega sobre rodas. É um número menor do que em 1999 e 2000, quando ocorreram as grandes paralisações de caminhoneiros. Mas ainda é distante do sonho projetado pelo Ministério dos Transportes para o futuro. A ideia, em 1999, era que em 2015, apenas 21% do volume de carga no país fosse levado pelas rodovias.
– É o reflexo da total falta de planejamento estratégico. Ninguém pensa a longo prazo. Isso é o que nos diferencia de Estados Unidos, Europa e Ásia. Por aqui, o pouco que se faz é por meio de emendas parlamentares. Cada deputado preocupado em melhorar a sua própria região e ninguém pensa no todo – critica Paulo Menzel, presidente da Câmara Brasileira de Logística e Infraestrutura.
Plano para ferrovias não saiu da estação
As razões para o avanço lento na ampliação de ferrovias e na pouca utilização de hidrovias são muitas. A principal delas, afirmam especialistas em logística, é a falta de investimento, tanto público quanto privado.
Um exemplo emblemático é o Programa de Investimento em Logística para ferrovias. Lançado em agosto de 2012 pelo Planalto, até hoje não saiu do papel. Quando anunciado, previa investimento de R$ 99,6 bilhões na construção de novos trilhos no país. Até o momento, não há previsão de quando será o primeiro leilão. A estimativa é que o programa fique parado neste ano.
Estruturado em um modelo de parceria público-privada (PPP), o investimento em ferrovias exigiria aportes do governo federal em um momento em que contenção de despesas passa a ser a palavra de ordem. O setor privado tende a ficar mais encolhido em um ano de projeção negativa de crescimento para a economia. Há também desconfiança a respeito do sucesso do leilão já que o preço oferecido é abaixo do que esperavam investidores. O avanço no setor hidroviário também é pequeno.
– Faltam projetos prontos para serem executados. O setor esteve praticamente abandonado nos últimos anos – avalia Adão Proença, diretor de Infraestrutura Aquaviária do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).
A pouca utilização do transporte hidroviário brasileiro pode ser verificada quando comparada aos EUA. O número de rios americanos navegáveis é menor do que o do Brasil, no entanto, por lá, o volume movimentado por esse modal é seis vezes maior, segundo dados da Federação Rodoviária Internacional (IRF, na sigla em inglês), com sede na Suíça.
Para o secretário de Política Nacional de Transportes do Ministério dos Transportes, o pequeno avanço da movimentação de mercadorias, pelas bacias hidrográficas brasileiras, é resultado da falta de investimento crônica por décadas.
– Entre 2010 e o ano passado, o setor hidroviário recebeu injeção de R$ 31,5 bilhões. Há 10 anos, esse valor era de R$ 6,1 bilhões – afirma.
Apesar da dependência do transporte rodoviário, o Brasil é carente de estradas de qualidade. Boa parte da malha nacional ainda não é pavimentada.
– Hoje, é normal percorrer mais de mil quilômetros em estradas asfaltadas e de terra para recolher e entregar mercadorias. Do ponto de vista econômico, o ideal era transferir parte disso para as ferrovias e hidrovias – afirma Antonio Wrobleski, analista da Awro Logística.
Fonte: Cadu Caldas – Diário Catarinense
Novos líderes para antigas reivindicações
Diferente mesmo em relação aos protestos de 15 anos atrás são os líderes à frente do movimento e a forma de comunicação entre os caminhoneiros. No lugar de telefonemas, agora as informações chegam por Whatsapp.
Dois protagonistas de paralisações passadas ficaram à margem do bloqueio este ano: Nélio Botelho e Eder DalLago. Presidente da Federação dos Caminhoneiros Autônomos do Rio Grande do Sul e Santa Catarina (Fecam), DalLago ressalta que apesar da paralisação de 2015 ter tido grande adesão dos caminhoneiros nos dois Estados, é totalmente independente, sem apoio da entidade. Representante de nove sindicatos, a federação viveu um racha nas duas últimas semanas.
– Estou evitando falar sobre este assunto. Ninguém veio nos consultar a respeito de bloqueios ou coisa alguma – afirma DalLago, que não esconde uma ponta de mágoa na voz, mas nega qualquer ressentimento quanto à mobilização.
Presidente do Movimento União Brasil Caminhoneiro, Botelho, principal líder da paralisação que parou o país em 1999, também revela uma ponta de desgosto com o novo comando. O mineiro afirma que a paralisação partiu de produtores agrícolas e não dos motoristas.
– Essas manifestações foram organizadas por produtores rurais. Eles pediram o apoio de diversos sindicatos, já que algumas reivindicações são similares às nossas, como o preço do diesel. Mas os caminhoneiros estão sendo usados como cobaia nessa operação toda – afirma.
Dessa vez, no lugar de sindicalistas, a liderança está nas mãos de Ivar Schmidt, líder do recém criado Comando Nacional dos Transportes, que não tem vínculos com sindicato ou confederação de trabalhadores. Para o governo que buscava uma solução parcial, a negociação foi mais dura. O catarinense Schmidt não abre mão do chamado frete mínimo, uma tabela-base para cobrança do transporte.
Referências do movimento em SC
Em Santa Catarina, algumas referências começam a despontar. Vilmar Bonora é uma delas. Caminhoneiro particular, foi escolhido pelos manifestantes de São Miguel do Oeste como porta-voz. Reside na cidade e é tido como um dos responsáveis pela organização do movimento dos transportadores na região.
Os demais protestantes evitam até mesmo falar com a imprensa, delegando a ele o posto de interlocutor. É ele quem dialoga com autoridades políticas para obter informações sobre o que é decidido em Brasília. É inclusive uma das pessoas já definidas que irá compor a possível comitiva de lideranças do Oeste para a capital federal.
Na região de Chapecó, Xanxerê, Xaxim e Faxinal dos Guedes, um advogado tornou-se muito conhecido após protagonizar o único confronto policial de manifestantes com a polícia em SC. Avelino Bortolon é filho de um caminhoneiro que trabalhou para a Seara durante 36 anos. Apesar de ser reconhecido em todos os locais que visita, recusa o título de líder e diz não ter intenção de praticar qualquer atividade política.
Parados sobre rodas
O reajuste do diesel revelou a extensão de um problema que já estrangula o país: a dependência do transporte rodoviário e o baixo investimento em infraestrutura no Brasil
O recente aumento do preço do combustível foi apenas o estopim para um problema estrutural que já se arrasta há anos e atrasa a estrutura logística do país. Do alimento que chega à mesa do brasileiro até a commodity exportada ou usada como ração para produção local de carnes, mais de 60% da mercadoria que transita no Brasil passa por 1,2 milhão de quilômetros de rodovias. No entanto, com apenas 200 mil quilômetros de estradas pavimentadas, a infraestrutura se torna em um dos maiores vilões do custo do transporte de carga do país.
De acordo com relatório publicado pela Agência Nacional de Transporte de Carga (ANTC), os últimos reajustes, principalmente o do diesel, provocaram uma defasagem de 14,11% do custo do frete de carga. Para Ramon Alcaraz, diretor de uma transportadora com mais de 850 veículos e conselheiro da Associação Brasileira de Logística (Abralog), além dos problemas tributários, transportadoras e caminhoneiros autônomos deveriam focar na produtividade, tradicionalmente baixa no país:
– Há questões que o governo não tem como resolver do dia pra noite, então é preciso procurar soluções, e uma delas está na eficiência. Um caminhão no Brasil chega a ficar parado até três dias para ser carregado.
Alcaraz destaca também que, apesar do baixo investimento em outros modais de transporte de carga, as rodovias não podem ser descartadas.
– O caminhão é o único meio de transporte que pode chegar até a porta do consumidor final, mas isso não significa que o governo não deve investir em ferrovias e portos. O problema é que no Brasil só se investe 0,5% do PIB em infraestrutura de transporte por ano, um valor 48 vezes menor do que na China, por exemplo – diz Alcaraz.
Apesar de reclamarem do alto custo, grandes transportadoras não encabeçam os protestos. Caminhoneiros autônomos são as principais personagens dessa história, e o motivo é bem simples: eles são os mais prejudicados.
– O custo médio do caminhão para um autônomo representa 90% do frete, e esse número é 75% para uma transportadora – diz Carlos Augusto Silveira, professor de Logística da Univali e especialista em Engenharia Econômica.
Fonte: Hyury Potter – Diário Catarinense
Ninguém quer pagar a conta do reajuste
O aumento de combustível gerou uma conta que ninguém quer pagar. Os caminhoneiros afirmam que o preço do diesel inviabiliza a atividade sem o aumento do frete e prometem ir a Brasília na próxima semana. O motorista Vilmar Bonora, que iniciou o movimento em São Miguel do Oeste, disse que a remuneração ficou inferior a um real por quilômetro e tem uma prestação de R$ 1 mil por mês para pagar do caminhão.
O presidente da Cooperativa Catarinense dos Transportes de Cargas (Coocatrans), Maurício Vendrame, afirmou que seu pai tem 36 anos de estrada e pela primeira vez teve que pegar um empréstimo para pagar as prestações do caminhão.
– Nós financiamos os caminhões num cenário e agora é totalmente diferente – afirmou.
Em alguns setores, o reajuste teria que ser de 50%. Vendrame projetou que, com esses custos, o consumidor é quem vai pagar a conta. Além disso, o aumento do Custo Brasil, pode atingir um dos principais produtos de exportação, a soja.
– Com esse reajuste, a soja vai chegar com um custo muito alto nos portos e o Brasil vai perder competitividade – avalia Vendrame.
O presidente da Cooperativa de Comercialização do Extremo-Oeste Catarinense (Cooperoeste), Celestino Persch, afirmou que o aumento dos custos com o transporte, aliado à queda no preço do leite, causa prejuízo para atender alguns mercados. A companhia movimenta cerca de R$ 18 milhões por mês e gasta R$ 2,4 milhões com o transporte.
– Numa carga de 12,9 mil litros para Curitiba, temos um prejuízo de R$ 2 mil – disse Persch.
Apenas com combustível, o quilômetro rodado de um caminhão grande chega a custar R$ 1,40. Se ele for refrigerado, o gasto é ainda maior, pois o sistema de controle de temperatura também é movido a diesel. Para driblar esses contratempos, o gerente de logística da distribuidora joinvilense Sardagna, Anderson Cardoso, afirma que a opção é aumentar o valor agregado da carga.
– Dificuldade de carregamento e descarregamento todos têm, então preferimos transportar apenas quando o caminhão está completamente cheio. Isso aumenta a produtividade do escoamento e o valor da carga – diz o gerente da empresa que transporta mais de 4 mil toneladas de carga por mês.
A Sardagna tem pelo menos 100 toneladas de alimentos, que deveriam ser entregues no Extremo-Oeste, estão parados por causa dos recentes bloqueios no Estado.
Agronegócio paralisa produção e traça planos para honrar os pagamentos aos fornecedores
Cooperoeste já perdeu mais de R$ 1 milhão em produtos no campo e deixou de coletar 1,4 milhão de litros de leite. Cooperativa faz contas para pagar R$ 12 milhões que deve a 1,8 mil agricultores diretos e 1,2 mil indiretos na região
O prejuízo com suspensões de abate de suínos e aves e leite descartado ainda não foi contabilizado pelas agroindústrias, mas as cifras atingem as dezenas de milhões. Somente a Cooperativa Regional de Comercialização do Extremo- Oeste (Cooperoeste) perdeu mais de R$ 1 milhão em produtos no campo, com os 1,4 milhões de litros que não foram recolhidos nesta semana.
– É um dinheiro que vai faltar na economia da região – disse o presidente da Cooperativa, Celestino Persch.
A Cooperoeste tem R$ 12 milhões para pagar aos 1,8 mil agricultores diretos e 1,2 mil indiretos. Mas, provavelmente, não terá caixa para isso e precisará renegociar com os fornecedores.
– Estamos há duas semanas sem vender – afirmou o diretor financeiro da empresa, Aldo Postal.
A empresa não tem mais nem pallet, que é a base de madeira para colocar as caixas de leite em cima. A Cooperoeste suspendeu a coleta de leite porque os três galpões com capacidade para seis milhões de litros estão lotados e mais um milhão de litros estão armazenados a céu aberto, cobertos por lona.
O agricultor Laudemir Daltoé, da linha Cruzinha, em Descanso, está dando leite para os porcos. Ele fornece o produto para a Tirol, que também não consegue chegar ao campo pelos bloqueios dos caminhoneiros. Ele já descartou cerca de 200 litros e, outros 600 litros, transformou em queijo. Ele a mulher e a nora ficaram três dias fazendo queijo.
Daltoé disse que apesar de perder cerca de R$ 700 nessa semana, apoia a manifestação.
Ele reclamou que viu o preço do leite cair de um real para R$ 0,73 em menos de seis meses. A perda foi de R$ 2 mil por mês.
– A gente até desanima – diz.
Fonte: Darci Debona – Diário Catarinense
Prejuízos de dezenas de milhões
De acordo com o diretor executivo do Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados (Sindicarne) e da Associação Catarinense de Avicultura (Acav), Ricardo Gouveia, diariamente deixam de ser abatidos 4,8 milhões de frangos e 30 mil suínos, o que representa 80% da produção.
– O agravante é que está faltando ração no campo – diz ele.
Por causa dos bloqueios, somente parte da ração está chegando e faltam nutrientes para a composição do alimento dos animais, como nutrientes e farelo de soja. Com isso os frangos e suínos acabam sendo alimentados com milho puro.
Há notícias de morte de animais, como em Maravilha. O produtor Nelson Grando teve que enterrar 500 frangos que morreram de fome na sexta-feira, de um lote de 13 mil animais.
Além disso estão sendo descartados ovos que seriam utilizados para a produção de pintinhos. O vice-presidente da Aurora, Neivor Canton, estima que levaria uma semana para normalizar a produção após o fim da greve.
Os prejuízos com suspensões de abate de suínos e aves e leite descartado não estão sendo totalizados pelas agroindústrias, mas as cifras atingem as dezenas de milhões. A Fecomércio já estima um prejuízo diário de R$ 400 milhões no Estado.
Nas agroindústrias a situação é crítica. A maioria dos frigoríficos parou, pois não tem mais capacidade de estocagem, nem embalagem, nem condimentos. Somente a Aurora tem 120 mil toneladas estocadas em câmaras frias e caminhões refrigerados. São 10 unidades em SC e duas no RS. A JBS também parou quatro unidades no Oeste.
Brasil virou barril de pólvora
A greve dos caminhoneiros revelou para o Brasil um clima de insatisfação que não se registrava durante muitos anos. É superior até às manifestações de junho de 2013. Nos dois eventos uma características em comum: a liderança pulverizada, a falta de comando e a pauta ampla sem prioridades.
Fatos novos no veemente protesto dos motoristas devem ser considerados. Um deles foi e continua sendo a adesão das comunidades de vários municípios do Oeste. Uma solidariedade até meio paradoxal, uma vez que aquelas populações foram as mais prejudicadas. Indício claro que o movimento tinha legitimidade e representa muito mais do que uma reivindicação corporativa.
Outro registro relevante foi a ação do governo. Além de totalmente desinformado, o Palácio do Planalto levou uma semana para reagir, o que revelou desinformação sobre a realidade ou isolamento governamental.
A determinação com que caminhoneiros e aliados partiram para a luta aberta mostrou para o Brasil um sintoma ameaçador. O descontentamento com a presidente Dilma (PT) e com o governo está atingindo níveis insuportáveis. Não são mais os eleitores do senador Aécio Neves (PSDB) que se rebelam contra a presidente, nem os brasileiros honestos que se revoltam com a roubalheira da Petrobras e de órgãos federais. O aumento do custo de vida, os tarifaços que se repetem em vários setores, os escândalos do Congresso e, sobretudo, o estelionato eleitoral cada vez mais notório provocam ira em setores populares que até então silenciavam ou apoiavam o governo.
O ambiente em vários setores já é perigoso e até explosivo.
Fonte: Moacir Pereira – Diário Catarinense
Canibalismo
Começam a se registrar em vários municípios do Oeste uma dramática decisão dos avicultores: abrem valas para enterro de milhares de aves que morrem de fome. O setor produtivo não esconde grande preocupação com a ocorrência de canibalismo. Se acontecer levará imagens terríveis de Santa Catarina para o resto do mundo, com consequências imprevisíveis na economia.
Fonte: Moacir Pereira – Diário Catarinense