Blumenau, 9.4.14 – Em menos de duas horas restavam pelo acostamento algumas centenas das 30 mil garrafas de refrigerante que tombaram em acidente na BR-470 segunda-feira. Houve quem buscasse refrigerantes de carrinho de mão, enchesse Fiorino e até um carro de prefeitura com litros de bebida. Das embalagens que custam pouco mais de R$ 3 nos supermercados, ficaram no chão somente as garrafas que arrebentaram na colisão frontal entre um caminhão e um Sandero. O motorista do carro, Laércio Bompani, 46 anos, morreu e ainda estava preso às ferragens quando moradores do entorno e pessoas que passavam pela rodovia começaram a tomar para si as embalagens do chão.
A imagem chocante é uma amostra do que acontece ao menos uma vez por mês na rodovia, segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF). Dezenas de pessoas cometem furtos coletivos sem se dar conta do crime ou do desrespeito às vítimas. A professora do Departamento de Psicologia da Furb e doutora em Psicologia Social Catarina Gewehr, explica que este comportamento é resultado da imitação de ações, ignorando a consequência:
– É o Maria vai com as outras. E como o texto da lei não consegue inibir, escorregamos para a situação não permitida pela lei, porque não punição.
Foi essa reação quase impensada de imitar que motivou cerca de cem pessoas no saque à carga do caminhão segunda-feira em Gaspar. Uma senhora de 56 anos, moradora próxima do local do acidente chegou a dizer que sentia muito pela vítima, depois de já ter levado algumas garrafas de refrigerante que estavam no caminhão tombado para casa. Outra dona de casa de 41 anos que vinha de São João Batista para Blumenau chegou ao ponto de pedir ajuda para recolher o material. Depois de acumular cerca de 30 garrafas ela ligou para o marido vir de Blumenau buscar de carro mais garrafas. Outros carregaram de carrinho de mão os refrigerantes.
Acionado para remover o veículo tombado, o proprietário do caminhão guincho Robson Tomazini, 49, chegou ao km 40 da rodovia cerca de meia hora depois do acidente. Encontrou a carreta com os rodados para o alto, atravessada nas duas pistas e dois agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) pedindo a quem recolhia refrigerante aos fardos sob a carroceria que saísse da pista para que o caminhão fosse retirado.
– As pessoas perderam o respeito. Ninguém mais pensa em ninguém – avalia Tomazini.
O agente da PRF Daniel Veloso calcula que mais de 100 pessoas pararam, pegaram as garrafas da pista e seguiam. O proprietário da mercadoria explica que acidentes com tombamentos e saques (ou tentativas) ocorrem pelo menos uma vez ao mês na área do Posto de Blumenau da PRF na BR-470.
Saque pode dar oito anos de cadeia
O chefe da Central de Polícia de Blumenau, Bruno Effori, explica que as pessoas só podem levar cargas do local com consentimento prévio e sem uso de violência.
– É furto se não houver autorização e a penalidade aplicada pode ser de até dois a oito anos de reclusão, pela característica de multidão do saque.
O inspetor da PRF Claudir Beninca explica que os agentes registram um boletim de ocorrência e encaminham vídeos e imagens do saques para a Polícia Civil.
Carro oficial é flagrado carregando garrafas
Circularam pela internet ontem imagens de um veículo da Secretaria de Saúde de Camboriú com produtos saqueados do caminhão envolvido no acidente de segunda-feira.
Na gravação, feita com celular, um senhor aparece abrindo o porta-malas e se preparando para colocar dentro dele um fardo de refrigerantes. Quando percebe que está sendo filmado, ele vai para a lateral do carro e guarda o material no banco de trás do veículo. O motorista do carro aparentemente percebe o que está ocorrendo, mas mesmo assim entra no automóvel sem impedir a ação. Depois esse mesmo motorista é filmado também abrindo o porta-malas, mas as imagens não deixam claro se ele retira ou apenas mexe nos produtos que estavam no local. Segundo a secretária de Saúde de Camboriú, Márcia Regina Oliveira Freitag, teriam participado do saque ao caminhão os pacientes que estavam no carro e fazem tratamento médico em outras cidades encaminhados pela prefeitura.
Motorista diz que não carregou bebida
O motorista teria parado o veículo para prestar socorro às vítimas do acidente e, nesse meio tempo, os passageiros recolheram as bebidas na BR-470 sem a permissão dele. Conforme Márcia, ele exigiu que o material fosse devolvido.
– Vi o acidente e fui socorrer os feridos. Quando voltei o paciente estava colocando a carga no carro, imediatamente eu disse que o material deveria ser retirado. Seguimos viagem sem qualquer produto que estava no caminhão – disse o motorista do carro oficial, Hainor Petri da Silva.
Seguro que cobre danos à carga das carretas é obrigatório
Mercadorias transportadas por empresas especializadas precisam ter seguro de Responsabilidade Civil do Transportador Rodoviário de Carga (RCTR/C). De acordo com o especialista em Transporte Rodoviário de Cargas e professor do curso de Logística da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), Jeferson Bernardi, este seguro cobre danos que a carga pode sofrer durante o transporte, incluindo saques em caso de acidente:
– Em casos como este de Gaspar, o furto é uma consequência do acidente e este seguro feito pelas transportadoras cobrem, exceto quando há alguma cláusula excludente.
Caso o transporte seja feito por um caminhoneiro autônomo, a responsabilidade é da pessoa que embarca a carga. O presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Carga e Logística no Estado de Santa Catarina (Setcesc), Osmar Ricardo Labes, reforça a importância do RNTR/C, no entanto concorda com a dificuldade de evitar o saque em situações como a que ocorreu na segunda-feira.
– O procedimento correto seria o policiamento conter a população e evitar o saque até que o agente da seguradora chegue ao local. Mas sabemos que nem um dos dois consegue chegar instantaneamente ao local e nem tem força suficiente para conter – pondera Labes.
OPINIÃO: Pense nisso enquanto arrota
Não basta manifestar indignação com a pilhagem dos cofres públicos, com a corrupção que assola este país; é preciso também não pilhar. Pilhagem é pilhagem, irmãos. De uma garrafa de refrigerante ou milhões de reais da grana pública. Ambos desobedecem a um ensinamento fundamental: não se deve pegar o que não nos pertence. Ah, dizem, mas se a gente não pegar vai estragar mesmo. Até vai. No entanto, a desculpa é esfarrapada, usada mais para aplacar alguma pitadinha de dor de consciência que para justificar o ato. Somos um país de moral relativa, só a pilhagem alheia nos irrita. E, fica claro, este modo de pensar – e agir – atinge todas as camadas sociais, do cidadão a pé ao motorista do carrinho ou do carrão.
Mudar este país exige mudança de atitudes. Esta de olhar com naturalidade a pilhagem de sinistrados é uma delas. Não é difícil, enobrece a consciência, melhora o sono e dá moral para apontar os corruptos nacionais e exigir justiça. Pense nisso enquanto arrota. VALTHER OSTERMANN, COLUNISTA
OPINIÃO: A lógica do cada um por si
O comportamento de uma pessoa se produz por decisões que, concretizadas na conduta de uma pessoa ou grupo de pessoas tem, a marca do contexto social em que as mesmas vivem. Ser capaz de reconhecer os limites do que as leis dizem é algo que só se forma na conduta humana quando os parâmetros para o reconhecimento são experimentados na vida cotidiana das pessoas. Em um mundo cada vez mais agressivo, em que a competitividade é mais valorizada do que a solidariedade, o comportamento das pessoas tenderá a uma lógica do tipo cada um por si. Quando as pessoas puderem experimentar que mais vale ser solidário do que competitivo, não só o cumprimento das leis será possível. O possível será que a vida vale a pena! E deste modo, casos como o ocorrido em Gaspar não poderão ser noticiados porque não ocorrerão. CATARINA GEWEHR, PROFESSORA DE DEPARTAMENTO DE PSICOLOGIA DA FURB E DOUTORA EM PSICOLOGIA SOCIAL (PUC-SP)
Fonte: Jornal de Santa Catarina