A confirmação da BMW só veio depois de 530 dias

A confirmação da BMW só veio depois de 530 dias

Florianópolis, 8.4.13 – As longas negociações entre os secretários de Estado e o governador Raimundo Colombo com executivos da BMW, cheias de altos e baixos, começaram com a leitura de uma reportagem em jornal. Daquele dia e até a confirmação do investimento da montadora alemã em SC, em outubro do ano passado, passaram-se 530 dias de muitas conversas, trabalho e o cumprimento de mais de mil exigências.
Algo ficou claro no fim deste longo processo: o governador Raimundo Colombo sabe guardar segredo. Exatos 60 dias antes da BMW confirmar o investimento no Brasil, Colombo foi informado de que a BMW se instalaria em SC. E ele não contou sobre este fato para ninguém, nem para a neta. O governador atendeu a um pedido do portador da mensagem, o vice-presidente executivo da empresa alemã, que confidenciou a informação em uma visita que fez para Colombo em Florianópolis, mas pediu sigilo absoluto.
O anúncio do local escolhido foi feito no dia 22 de outubro, encerrando uma espera de 530 dias. Este foi o tempo transcorrido desde 12 de maio de 2011, quando o jornal Valor Econômico publicou que a montadora planejava uma unidade no Brasil. A leitura da reportagem foi o marco inicial do projeto BMW. Em viagem à Europa, Colombo enviou o vice-governador, Eduardo Pinho Moreira, e o secretário do Desenvolvimento Econômico Sustentável, Paulo Bornhausen, para conversar com o presidente da empresa no Brasil.
Ao falar com o então presidente da BMW no Brasil, o secretário de Estado de Desenvolvimento, Paulo Bornhausen, foi enfático:
– Viemos aqui porque escolhemos a BMW para ser a montadora que vai se instalar em Santa Catarina.
A partir daquele momento, a montadora e o governo de SC iniciaram as negociações. A visita dos representantes do governo Colombo foi retribuída em junho pela direção mundial da BMW. O governador repetiu as palavras do secretário e cada lado montou seu time. SC escalou Bornhausen e o secretário de Assuntos Internacionais, Alexandre Fernandes.
O mês nem havia acabado quando eles embarcaram para a Alemanha. Conversaram com os três executivos da montadora que lideraram as negociações. Os alemães queriam decidir até novembro. Tudo caminhava bem até as montadoras brasileiras se queixarem da invasão dos veículos chineses no mercado e Brasília aumentar o IPI para carros importados. A medida saiu em setembro de 2011 e atingiu em cheio os planos da BMW.
O prometido novo regime automotivo, que visava incentivar investimentos de montadoras estrangeiras no Brasil, o que iria equilibrar novamente o jogo, saiu somente em outubro de 2012. No final do mês, finalmente, a BMW confirmou SC como o local de sua primeira fábrica na América do Sul.

Projeto adiado por um ano cria expectativa

Modelos cotados para SC

X1

Utilitário esportivo com dianteira que exibe a tradicional grade utilizada pela marca, mas em tamanho maior do que os outros modelos da montadora. A lateral lembra o X3, especialmente no formato da janela traseira. Um vinco na parte inferior das portas segue o formato dos paralamas, que têm molduras na cor preta.

SÉRIE 3

O Série 3 tem quatro opções de motorização: duas a gasolina e duas a diesel. Todas as versões têm tração traseira. A lista de equipamentos de série inclui suspensão adaptativa, piloto automático ativo, assistente de estacionamento, informações de trânsito em tempo real e sistemas de alerta ao motorista.

Impacto contagiante
Efeitos econômicos e sociais muito além de Araquari

A chegada da grife BMW em SC com o investimento da montadora na primeira fábrica da América do Sul em Araquari vai revolucionar o Estado. A expectativa do governo catarinense e da administração municipal da pequena cidade no Norte do Estado é que ocorra aqui o mesmo dinamismo econômico e social vivido por Spartanburg, onde está a fábrica americana da montadora alemã, e nas suas vizinhas Greer e Greenville.
O investimento projetado para Araquari, para o início do projeto, é de 200 milhões de euros (cerca de R$ 514 milhões), podendo chegar a R$ 1 bilhão na segunda fase da unidade. Nos EUA, desde a estreia da montadora em Spartanburg, em 1994 e até agora, o total de investimentos alcançou US$ 6 bilhões e a produção ganhou o mercado mundial.
Em visita à região da fábrica nos EUA, a comitiva catarinense liderada pelo secretário de Estado do Desenvolvimento Sustentável, Paulo Bornhausen, buscou identificar os impactos que poderão ocorrer no Norte catarinense e em outras regiões do Estado. Integraram o grupo o prefeito de Araquari, João Pedro Voitexem; o vice-prefeito, Clenilton Pereira; o diretor regional do Senai-SC, Sérgio Arruda; o diretor Técnico do Sebrae-SC, Anacleto Angelo Ortigara; e o empresário do setor de tecnologia, Guido Dellagnelo.
Os catarinenses constataram que os efeitos positivos incluíram crescimento da economia regional, aumento da população (o número de moradores triplicou), avanço tecnológico, aprimoramento da mão de obra da região, crescimento da renda média dos trabalhadores, salto no nível de educação, mais investimentos sociais, urbanos e ambientais.
Conforme Bornhausen, quando a fábrica foi instalada, foram abertos 2 mil empregos diretos e, hoje, são quase 8 mil funcionários. No início, a cidade contava com apenas 34 empresas do exterior e, atualmente, são 108. A companhia paga salários mais elevados do que a média e é grande a disputa de universidades para colocar o maior número de profissionais, especialmente engenheiros, no quadro da montadora. Os trabalhadores da BMW são colaboradores e o turnover (rotatividade) é baixíssimo.
– Como a unidade dos EUA saiu do zero, dá para termos a projeção do que é o potencial da fábrica brasileira para o futuro. Estamos diante de uma janela de oportunidades. Talvez as pessoas não tenham entendimento do que isso significa, mas no futuro vai representar uma diferenciação para Santa Catarina dentro e fora do Brasil. A empresa vai melhorar a relação entre o setor produtivo e a sociedade – prevê Bornhausen.

Um selo de qualidade*

A vinda da BMW configura um marco histórico para a nossa economia. Deve ser vista como prenúncio de uma nova era, focada na inovação e da sustentabilidade.
Sem demérito de qualquer outra região que tenha se candidatado a receber a primeira fábrica da BMW na América Latina, devemos nos orgulhar deste êxito.
A Resolução 13, da “guerra dos portos”, acabou reforçando a determinação de trazermos uma empresa mais preocupada com as condições estruturais do Estado, do que propriamente com incentivos fiscais e econômicos – claro, sem deixá-los de fora.
Nossas qualidades comparativas foram reconhecidas: o forte espírito empreendedor do catarinense; a excepcional qualidade de vida; qualificação profissional exemplar; cultura e educação acima da média; logística.
Criamos nosso próprio regime automotivo. Mas estabelecemos, como limite, não sacrificar o equilíbrio orçamentário do Estado, cujos recursos são prioritariamente dirigidos para as necessidades do povo catarinense.
Construímos um modelo baseado no desenvolvimento que queremos, com indústrias que trafegam na fronteira do conhecimento. Estamos gerando emprego e formação profissional de alta qualificação.
É importante frisar que, mesmo com os benefícios que estará recebendo, esta empresa, e outras que virão, não deixarão de recolher impostos ao Estado em momento algum. E tudo que lhes é oferecido, as empresas catarinenses têm direito ou já usufruem, como é o caso do Pró-Emprego e do Prodec.
Desde o começo do governo investimos forte na indústria aqui instalada com o plano SC@2022, em parceria com o Sebrae SC. Fortalecemos a microeconomia, investindo nos microempreendedores individuais com o Juro Zero. Apoiamos as micro e pequenas empresas com o Nova Economia, com consultoria de gestão e de inovação. Investimos nos setores fundamentais, como metalmecânica e outros, criando uma rede de fornecedores e prestadores de serviços que atuarão no entorno das grandes que aqui se instalarem.
O fato de a alemã ser a primeira fábrica de automóveis a vir para o Estado dá a Santa Catarina um selo de qualidade, um certificado de ISO 9000. E ao Brasil também, haja vista a manifestação imediata de outras grandes empresas no sentido de virem para o nosso país.
* Paulo Bornhausen, Secretário do Desenvolvimento Econômico Sustentável


Uma porta de abre para novas conquistas
O governador Raimundo Colombo (foto) entra para a história como o governante que atraiu a desejada montadora. Se diz um “homem de sorte” diante do fato, mas se mostra mais animado com os impactos positivos que a marca vai gerar na economia catarinense.

A conquista da primeira fábrica da BMW da América Latina por SC foi um lance de sorte ou competência no atendimento dos pleitos da montadora?

Raimundo Colombo – Eu acho que as características de SC ajudaram muito. A primeira abordagem foi da nossa equipe, que fez um trabalho dedicado na interação com executivos da empresa. Mas havia vontade deles também de fazer o investimento aqui. Foi um conjunto de fatores.

Qual é o impacto esperado com a instalação da montadora?

Colombo – O histórico do impacto de uma fábrica com essas características, com esse conceito, é muito grande. Hoje, quase 20% do PIB brasileiro está no setor automotivo. A cadeia produtiva em torno de uma montadora é muito grande. Ela atrairá fornecedores com tecnologia de ponta.

Os benefícios oferecidos estão dentro do que outros estados adotam?

Colombo – Sim. Considerando o impacto de um investimento como este, os benefícios são importantes. Quando fui prefeito de Lages, fizemos um grande esforço para levar a unidade da Ambev para o município. Na época, houve compreensão da maioria, mas alguns criticaram. Hoje, um terço do movimento econômico da cidade depende do faturamento da Ambev, que recolhe um volume extraordinário de impostos para o Estado.

O programa criado pelo Estado beneficiará outras empresas e setores?

Colombo – Conforme a lei aprovada, incluímos os setores automotivo, aeroviário e de segurança. No caso da BMW, ela também vai importar por SC, o que gera uma receita nova ao Estado. O programa vai favorecer outras empresas que confirmaram instalação aqui ou virão depois. Entre elas estão a Sinotruck, fabricante chinesa de caminhões que vai para Lages, a Geely (dona da Volvo) e uma outra cujo nome está em sigilo.

Quais são as expectativas sobre ganhos tecnológicos?

Colombo – O ganho tecnológico é extraordinário. A BMW funciona, para nós, como um polo de atração. Todas as empresas que vêm conversar sobre investimentos conosco, quando a gente fala que a montadora está vindo, ficam mais interessadas. Isso facilita as abordagens. A marca da BMW, que é de valor extraordinário, faz a diferença, projeta os atrativos catarinenses. É uma porta que se abre para novas conquistas.

Há décadas SC tentava atrair uma montadora. Com se sente como o governador que trouxe a montadora ao Estado?

Colombo – Como um homem de sorte. Eu tenho afirmado que, agora, a BMW vai ser mais uma marca global feita em SC, a exemplo da Embraco, Consul, Weg, Sadia e Perdigão, que são empresas nossas.

Na sua avaliação, o consumidor catarinense vai preferir os carros da marca?

Colombo – Acho que é muito natural isso. Nós temos uma origem germânica muito forte, a marca tem tudo a ver com essa origem e ela já vende bem aqui.

O senhor confirma que o carro oficial do governador será uma BMW?

Colombo – Vamos comprar só quando a fábrica produzir. Será o modelo feito no Estado. Só tem sentido ter uma BMW se for montada aqui. Senão, seria exibicionismo da minha parte.

Uma revolução no Norte de SC*
A BMW vai dinamizar a formação de mão de obra de Joinville e o mercado de trabalho da região

A dinâmica economia do Norte Catarinense, que avançou a partir de empresas próprias fundadas por imigrantes, especialmente alemães, entra numa fase de crescimento mais acelerado com a chegada da BMW, também da Alemanha, principal montadora global de carros de luxo feitos em série. Nas duas últimas décadas, os catarinenses acalentaram o sonho de sediar uma montadora pelo impulso econômico que o setor proporciona.
Negociaram com diversos grupos, mas as escolhas deles foram por outros estados. A maioria das cidades contempladas registrou crescimento de PIB superior a 300% no período. Em 2004, industriais ligados à Fiesc fundaram a montadora de carro 4×4 TAC Motors que, no ano passado, migrou para o Ceará em função dos incentivos ao Nordeste. Em setembro, a fabricante de ônibus Busscar, de Joinville, faliu por problemas de gestão.
Ao gerar mil empregos e atrair fornecedores, a BMW vai dinamizar a formação de mão de obra de Joinville e o mercado de trabalho da região. Muitos vão querer deixar o emprego atual para atuar na montadora, onde participarão da produção de carros que são o sonho de consumo de milhares de ricos pelo mundo. A empresa atrairá fornecedores e, também, vai aquecer ainda mais o mercado imobiliário da região.
Araquari teve a sorte de ser vizinho de Joinville, a maior cidade catarinense e, além disso, de contar com ampla área territorial, bem servida de rodovias. Os setores imobiliário e de serviços de Joinville, como saúde, educação, comércio, logística e outros serão beneficiados diretamente com a nova empresa. Como muitas pessoas gostam de morar na praia ou de ter casa no litoral, municípios como Barra Velha, Piçarras, São Francisco e Balneário Barra do Sul, também vão receber investimentos imobiliários em função da BMW.
E para Araquari não ter uma área empresarial isolada, a prefeitura poderia incentivar empresas do setor imobiliário a instalar bairros residenciais, com toda a infraestrutura de serviços. Além de facilitar a mobilidade porque as pessoas poderão morar perto do local de trabalho, vai gerar mais riqueza local. Daqui a 10 anos, o município poderá contabilizar crescimento de PIB superior a 300%, considerando que é a bola da vez numa região que vai crescer acima da média brasileira até 2025. Além da BMW, outros grupos miram os campos planos de Araquari. Ao lado está Joinville, que oferece todos os principais serviços de um grande centro urbano.
* Estela Benetti

Nova lei oferece terreno

A Secretaria de Desenvolvimento Sustentável, com o propósito de colaborar para atrair a BMW, criou novos incentivos para setores dinâmicos da economia, como o automotivo, aeronáutico, aeroespacial e de defesa.
A oferta envolve a concessão de terreno e infraestrutura, mas com retorno tributário em oito anos e planos de inovação e sustentabilidade.
A lista de projetos que podem vir para SC inclui a montadora Sinotruck, a fabricante de aviões Novaer e uma montadora de helicópteros, todas para Lages. Se escolher SC, a montadora chinesa Geely, dona da Volvo e da fabricante dos Black Cabs de Londres, também será beneficiada.

Benefícios

A nova lei permite ao Estado doar ou conceder o uso de imóveis; subvenção econômica para aquisição de terrenos; locação durante a fase pré-operacional e realização de obras de infraestrutura; construir ou ampliar condomínios e distritos industriais; executar obras de infraestrutura para diversificação de atividades pela empresa beneficiária.

Novo regime no Estado

• As regras valem não só para a BMW, nem só para o setor automotivo.

• Não usa incentivos fiscais.

• Tem mecanismos que protegem o Estado no caso de insucesso do empreendimento beneficiário.

• Aumenta competitividade de Santa Catarina.

• É mais uma vantagem comparativa adotada pelo Estado.

• É uma resposta à Resolução 13 (que definiu 4% de ICMS para importação a partir de janeiro).

Por que a montadora vem para cá*

A confirmação da vinda da BMW para Araquari é divisor de águas no contexto do processo de industrialização catarinense: antes e depois da montadora alemã. Parece exagero? Não é.
Explico-me: a partir do dia em que a multinacional cravar estacas no terreno, ou quando passar a utilizar o Perini Business Park como centro de treinamento de profissionais, toda a região sairá ganhando. A BMW vai, em Araquari, empregar 1,5 mil trabalhadores porque é a região Norte que oferece vantagens competitivas indiscutíveis em relação a outros locais prospectados no Brasil.
A assinatura de contrato com empresa de recrutamento de mão de obra para a seleção dos colaboradores é esperada para logo. Araquari será outra cidade após a instalação da BMW. A seguir, os motivos da escolha da montadora e algumas consequências que a marca provocará no Estado.
* Claudio Loetz

Namoro incluiu grupo inglês

O governo fez tentativas publicamente conhecidas para conquistar uma fábrica de automóveis para o Estado. A luta vem desde o governo de Esperidião Amin. À época, o diálogo foi com executivos de um grupo inglês na perspectiva de instalar a TVR, e produzir um carro superesportivo e de luxo. O projeto não vingou. Foram meses de idas e vindas. Com mais imobilismo e recuo do que avanços.

BMW sonda SC desde 1997

Em 1997, secretários do governo tiveram os primeiros contatos com executivos da BMW. Eles foram a Florianópolis em sigilo. O diretor de projetos internacionais e compras, André Carioba, era um deles. Os outros, o vice-presidente de administração e finanças Eberhard Schrempf; o advogado Andreas Hoffmann e o responsável por motores, Johannes Eidenböck. Foram apresentados ao governo pelo presidente da Tupy, Mário Egerland.

Visita a três cidades em SC

O secretário de Desenvolvimento Econômico quando a BMW fez o primeiro contato com SC, Henrique Weber, confirma: estiveram reunidos com o governo no dia 8 de abril de 1997. Depois, seguiram para Curitiba, passando por Itajaí, Araquari e Joinville, onde olharam áreas. Retornaram à Capital dia 10, quando foram recebidos pelo governador.

Joinville foi finalista

Naquele período, técnicos e diretores da Mercedes Benz estiveram em Joinville. Os executivos conheceram terrenos na região e o mais interessante ficava em Pirabeiraba. Abandonaram a ideia para apostar em Juiz de Fora (MG). O então presidente do Ippuj de Joinville, Murilo Carvalho, chegou a viajar a MG para conhecer suas vantagens.
Fonte: Diário Catarinense

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