Florianópolis, 15.10.12 – Era para ser um domingo de lazer na Base Aérea de Florianópolis, mas a falta de comunicação transformou um momento prazeroso num tormento: horas de fila, crianças indóceis dentro de carros por horas e turistas perdendo voos no Aeroporto Hercílio Luz.
Foi o que aconteceu ontem à tarde, em sete quilômetros de filas, provocados pelo dia dos portões abertos na Base Aérea. O congestionamento, que causou frustração e transtorno, não contou com a orientação da Polícia Militar Rodoviária (PMRv). A corporação alega não ter sido comunicada do evento.
O caminho que leva à Base é o mesmo do aeroporto, a Rodovia Diomício Freitas, com apenas uma faixa em cada sentido. O congestionamento começou por volta das 11h e terminou por volta das 20h. O major Fábio Martins, da PMRv, explica que nenhum comunicado oficial chegou ao comando estadual e que, por isso, não houve planejamento para organizar o trânsito, como costuma ser feito em grandes eventos da Capital. O major cita como exemplo dias de jogos do Avaí na Ressacada. Nesses casos, mesmo em jogos que enchem o estádio, com mais de 17 mil pessoas, não é registrada fila tão longa.
Para organizar o trânsito em dias de jogos, que são comunicados com uma semana de antecedência, a PMRv faz escala extra de policiais e entra em contato com a Infraero para obter o horário dos voos. A partir daí, define por quanto tempo fechará uma faixa, para que a outra vire duas.
– Fechamos em intervalos de 10 e cinco minutos. Isso era o que o poderia ser feito hoje. O pessoal reclama deste esquema, mas hoje provou que quando ele não é feito, pode ser ainda pior – analisa.
Base garante que houve comunicação
O major Martins também cita o esquema organizado para o show do cantor Paul McCartney, também realizado na Ressacada. Para montar o esquema do trânsito, que contou com bolsões de estacionamento, foram feitas mais de 10 reuniões entre organização do evento e PMRv.
O capitão Paulo Gustavo Boehn, da Base Aérea, afirma que a PMRv foi comunicada.
– Avisamos que haveria o evento e que traria um grande número de pessoas – diz.
Ele, porém, explica que o número de visitantes surpreendeu a todos. De acordo com o capitão, a expectativa era receber de 10 mil a 15 mil pessoas, como em todos os anos, mas passaram pelo local 35 mil pessoas, conforme a organização do evento.
Para ele, além do tempo ter ajudado, o dia de portões abertos foi feito em um feriadão – o de Nossa Senhora Aparecida, celebrado na última sexta-feira – e havia a apresentação da Esquadrilha da Fumaça, fatores que atraíram ainda mais pessoas.
Feliz de quem conseguiu chegar
Quem conseguiu chegar à Base Aérea a tempo conferiu mais de uma hora de apresentação da Esquadrilha da Fumaça e sobrevoos de aviões, além da exposição de 15 aeronaves das várias regiões do país, de carros militares antigos, saltos de paraquedas e até a exibição de cães adestrados. Para o capitão Paulo Gustavo Boehm, o evento agradou e atingiu uma quantidade de público muito acima do esperado.
– O povo brasileiro é muito apaixonado pela aviação. Ela exerce um fascínio muito grande, principalmente nas crianças – afirmou o militar.
Ainda na hora do almoço, quando ouviram na rádio a movimentação no trânsito, Aline Alves e a família se apressaram em seguir para a Base. Chegaram por volta das 15h e conseguiram conferir a parte mais esperada da programação: a Esquadrilha da Fumaça.
As pequenas Luma e Lara, filhas de Aline, aprovaram as piruetas no ar.
– Levei um sustão, com tanto barulho – disse Luma, de apenas quatro anos.
O irmão mais velho, Everson Júnior, 12 anos, também gostou do que viu.
– É mais legal do que os aviões do videogame – ressaltou.
O capitão Boehm afirmou que a base tem restrições de espaço, o que impediu todos os interessados de acompanharem o evento. Segundo ele, a estrutura montada exige disponibilidade de calendário nas diferentes bases, inviabilizando mais eventos como o deste domingo ao longo do ano. Mas expôs que, ano que vem, o dia de portões abertos deve se repetir.
Turistas levam a pior imagem
Enquanto acrobacias no céu enchiam os olhos de crianças e adultos na Base Aérea de Florianópolis, ontem à tarde, uma multidão enfrentava carros a perder de vista. Em função do evento Portões Abertos, com uma programação especial para expor o trabalho da Força Aérea Brasileira, o trânsito parado atingiu quem seguia rumo ao sul da Ilha. Nos quilômetros de filas, concentravam-se famílias ansiosas para não perder a apresentação da Esquadrilha da Fumaça e passageiros com medo de perder o voo.
O casal paulista Lúcia e Carlos Sossolote visualizava, ao longe, as piruetas das sete aeronaves T-27 Tucano, da Esquadrilha da Fumaça, quando perceberam que poderiam perder o avião de volta para a casa. Sair da Lagoa da Conceição às 14h30min não seria o suficiente para chegar de carro a tempo do voo, marcado para as 16h50min. Na esperança de não perder a passagem, seguiram a pé, com as malas nas costas, nos quilômetros finais. O desfecho do primeiro feriado na cidade desagradou. Levaram de Florianópolis uma péssima impressão.
– Como eles fazem um evento desse tamanho na porta do aeroporto? E não tem um táxi ou mototáxi para pegarmos mais para a frente! – reclamou Lúcia.
Com a fila, muitos turistas fizeram o mesmo e saíram correndo, deixando o carro e até as malas para trás. Faltando meia hora para pegar o avião, as moradoras do Bairro Coqueiros Ivoni Gruttle e Gláucia Scheffel, que viajariam para Paris, abandonaram o veículo e as malas com familiares. Muitos metros à frente, conseguiram carona com um desconhecido.
– Vai dar, não vamos perder (o avião). As malas, se for o caso, podem ser despachadas no voo seguinte – calculavam.
O problema no trânsito se refletiu no Aeroporto Hercílio Luz, que lotou com pessoas querendo remarcar passagens. Débora Silveira não conseguiu chegar a tempo para o voo das 17h55min, com destino a Porto Alegre. Atrasada, retornou ao Centro para comprar passagem rodoviária para hoje, pois não havia mais vagas nas companhias aéreas.
A agonia também se espalhou entre aqueles que queriam chegar a tempo de ver a esquadrilha. Passava das 17h20min quando a família de Eloir Santos ainda estava nas filas, na entrada da Base Aérea.
– Minhas netas estão decepcionadas e impacientes de ficar paradas no trânsito – conta a dona de casa de São José, na Grande Florianópolis.
Ronaldo Heinz também saiu de São José com a família. Foram duas horas no trânsito de ida para ver os 15 minutos fi nais de apresentação. Para ele, Esquadrilha da Fumaça, ano que vem, só se for com uma condição:
– Sair bem cedo de casa – ressalta.
Fonte: Gabrielle Bittelbrun e Júlia Antunes Lorenço/ Diário Catarinense