Florianópolis, 10.8.12 – Uma das maiores paralisações enfrentadas pelo governo federal desde 1993 afeta os serviços de mais de uma dezena de órgãos e prejudica a população de diferentes formas, da emissão de passaportes até o extremo de estradas fechadas por policiais.
Bloqueios de rodovias, longas filas, crimes sem apuração e atendimentos apenas se forem urgentes atingem a população na mobilização de policiais rodoviários federais e policiais federais em Santa Catarina. Na próxima semana, a situação tende a se agravar, pois um dos movimentos não descarta radicalizar as ações como forma de protesto ao não atendimento das reivindicações.
Os sete quilômetros de congestionamento na BR-101, na manhã de ontem, em Biguaçu, na Grande Florianópolis em direção ao Norte, foram apenas uma prévia de uma cena que deverá se repetir e se alastrar para outras regiões do Estado. Os policiais ligados ao sindicato da categoria fizeram uma operação pente-fino, fiscalizando principalmente os veículos de carga, o que gerou o engarrafamento que durou toda a manhã.
– Vamos repetir em outros postos por SC e, dependendo, até na Via Expressa (entrada de Florianópolis) – disse um policial rodoviário, antecipando que a ordem por enquanto é aguardar a decisão do sindicato.
Investigações da PF estão paradas
A paralisação da entrada e saída da Ilha de SC corre nos bastidores dos movimentos, mas ao menos até segunda-feira não estaria nos planos dos sindicalistas. Por enquanto, eles afirmam que há mobilização e que a greve geral será decidida numa assembleia às 14h30min de segunda-feira, na Capital.
Na Polícia Federal, a greve entra hoje no quarto dia. Oficialmente, abrange agentes, escrivães e papiloscopistas, mas delegados também apoiam o movimento. Na superintendência regional, na Avenida Beira-Mar Norte, em Florianópolis, a investigação de crimes está completamente parada, assim como a fiscalização da costa marítima e o atendimento do setor de armas.
– A gente está procurando fazer o atendimento mínimo e os casos emergenciais e essenciais. Mas não há impedimento do servidor público em fazer greve – argumenta o escrivão Luiz Carlos Mayora Aita, presidente do Sindicato dos Policiais Federais de Santa Catarina.
A punição para policiais que fazem greve costuma acontecer apenas em relação aos militares, onde as corporações têm códigos próprios que preveem penalidades, o que não é o caso da Polícia Federal.
Um experiente delegado da PF na Capital avaliou a greve como preocupante por ser nacional e pelo fato de já se estender a outras categorias de servidores federais.
– O quadro que se instala é inédito internamente porque há um contexto de uniformidade e que abrange também ao mesmo tempo outras categorias de servidores federais, o que pode impactar o país – alertou o delegado.
A paralisação dos policiais é a última de uma série que, segundo sindicalistas, já mobilizaria 380 mil servidores no país de diferentes categorias.
“Estamos prontos para radicalizar”
Entrevista: Hamilton Rodrigues, Presidente do sindicato dos policiais rodoviários federais de SC
O inspetor Hamilton Rodrigues, 59 anos, sendo 38 anos na Polícia Rodoviária Federal, afirmou que o movimento pode se radicalizar na semana que vem no Estado. Confira os principais trechos da entrevista:
Diário Catarinense – A greve vai continuar nos próximos dias?
Hamilton Rodrigues – Não. E não é greve, é uma mobilização pré-greve. Vamos definir a greve na segunda-feira. No fim de semana, ficará tudo normal em SC. O que houve até agora foram mobilizações.
DC – Surgiu informação de que farão manifestação na Via Expressa, na entrada da Ilha, com intenção de trancar as pontes…
Rodrigues – Não procede.
DC – Como o senhor avalia a adesão em Santa Catarina?
Hamilton – Os policiais estão convencidos da necessidade de manifestação. Ontem, definimos que iriam apenas alguns companheiros (na BR-101, em Biguaçu, na operação pente-fino). Se não houver, por parte do governo, o retorno às negociações… de repente vamos radicalizar mesmo, com movimento mais forte.
DC – Isso a partir da semana que vem então?
Hamilton – É. Para a gente fazer greve precisamos de respaldo jurídico e um deles é a assembleia. Não descartamos radicalizar e estamos nos preparando para isso.
DC – Quais as reivindicações principais da categoria?
Hamilton – São três reivindicações: passar o cargo para nível superior, aumentar o efetivo, que é pequeno, e melhorar a condição salarial. Há postos no Oeste em que trabalha apenas um policial por turno.
DC – A mobilização com bloqueios de estradas afeta a vida das pessoas. Como o senhor vê isso?
Hamilton – É o que acaba acontecendo, e também não acho legal. Às vezes, a gente também sofre isso, com greve de ônibus. Entendemos que as reivindicações quando não são atendidas… Me parece que ele (governo) precisa disso para que comece a decidir alguma coisa. Mas entendo que é desagradável. A gente até pede desculpas pelo transtorno.
PF só atende emergências
Com a greve dos policiais federais, a emissão de passaportes continua suspensa. Com apenas 30% do quadro de funcionários trabalhando, só os casos urgentes serão atendidos. Paulo Peano, vice-presidente do Sindicato dos Policiais Federais do Estado (Sinpofesc), afirma que a greve segue até quarta-feira, quando se espera que o Ministério da Justiça apresente propostas.
A emissão dos passaportes continuará cancelada até lá. Segundo o funcionário plantonista da Superintendência da Polícia Federal, em Florianópolis, apenas seis passaportes foram emitidos ontem, enquanto o número normal fica em torno de 250 ao dia.
– Os policiais estão processando somente os pedidos urgentes. Se a passagem estiver marcada para os próximos dias, se a pessoa tiver um compromisso de trabalho, ou emergências na família, faremos o passaporte. Mas é importante essa justificativa – disse Peano.
Fábricas vão parar segunda
Os efeitos da greve nacional dos servidores públicos afetam também a agroindústria de SC. Em consequência da paralisação dos auditores da Receita Federal, que fiscalizam os produtos para exportação, cerca de 24 toneladas de frangos e suínos ficaram presos, ontem, no Porto de Itajaí. O setor estima prejuízos diários de US$ 5 milhões enquanto durar a greve, e prevê o fechamento de fábricas na segunda-feira.
O diretor executivo da Associação Catarinense de Avicultura (Acav), Ricardo Gouvêa, esteve no porto e afirmou que nenhum contêiner tem sido liberado para exportação. O problema é que a indústria catarinense de carnes exporta, ao dia, 1,5 mil contêineres.
E, enquanto as carnes esperam no pátio do porto, é preciso conservá-las. O diretor executivo da Acav explica que as cargas precisam ficar 24 horas ao dia refrigeradas, e, por isso, conectadas à rede elétrica, o que acarreta custos.
Falta de armazéns afetará produção
As carnes represadas freariam também, segundo Gouvêa, a produção nas fábricas e nas granjas integradas do Estado. O produto finalizado passaria do ponto, pela falta de locais para armazenar todo o estoque, e os animais esperariam demais até o abate, comprometendo o padrão dos cortes.
O presidente do Sindicato das Indústrias de Carnes de Santa Catarina (Sindicarne), Clever Pirola Ávila, afirmou que várias plantas industrias fecharão na próxima segunda-feira, devido à falta de armazéns para estocagem.
Segundo Ávila, as paradas deverão envolver mais de 10 mil trabalhadores. Ricardo Gouvêa completa que os funcionários deverão ser direcionados para cursos e treinamentos nesse tempo.
– Se o governo não está se sentindo pressionado pela greve dos servidores, nós estamos. Nosso setor está no caos – reforçou o presidente da Sindicarne.
Para realçar a importância das vendas externas no faturamento das empresas, Ávila assinalou que 30% da produção avícola e 48% da produção suinícola catarinenses são exportadas.
Fonte: Diogo Vargas e Janaina Cavalli/ Diário Catarinense
