Dionísio Cerqueira, 27.2.12 – As medidas protecionistas da Argentina adotadas a partir deste mês reduziram em cerca de 40% o movimento das exportações na Aduana de Dionísio Cerqueira, no Oeste do Estado. Em fevereiro do ano passado, 511 caminhões passaram pelo local rumo à Argentina e Chile. Neste mês, o número não deve chegar a 300, segundo o Inspetor Chefe da Receita Federal em Dionísio Cerqueira, Arnaldo Borteze. Até quinta-feira, apenas 247 cargas tinham saído do país por Santa Catarina.
Isso traz prejuízo para os exportadores e para o país. Em fevereiro do ano passado, as vendas externas que passaram pela Aduana chegaram a US$ 25 milhões. Neste mês, somaram US$ 17 milhões até agora e devem atingir apenas R$ 19 milhões. São US$ 6 milhões a menos do que no ano anterior. E o inspetor chefe da Receita Federal acredita que esse prejuízo é ainda maior, pois havia uma expectativa de venda de bater US$ 40 milhões, que foi a média do último trimestre do ano passado. Esse acréscimo esperado se dá a um crescimento na venda de carne bovina para o Chile e a um ganho natural que a aduana vinha tendo nos últimos anos. Desde outubro de 2009, quando 251 caminhões saíram do país, a aduana não tinha um movimento tão baixo.
Borteze lembra que até janeiro, a liberação das cargas era feita entre um e dois dias. Bastava uma conferência da carga, o despacho aduaneiro no Brasil e depois o despacho aduaneiro no lado argentino. A partir deste mês, os exportadores necessitam da nova licença, que tem demora cerca de 10 dias. Depois disso, o caminhão vai para a aduana. Ontem a fila estava em 70 caminhões no lado brasileiro. O diretor da Tropical Exportação e Importação Ltda, Luciano Wendramin, deveria exportar 45 cargas de frutas neste mês e, até agora, encaminhou apenas 17. Além disso, ele trabalha com um produto perecível, que é banana.
Protecionismo
A política protecionista da Argentina, uma maneira de diminuir o déficit da balança comercial, não é de hoje. Os empresários brasileiros, que depois das dificuldades impostas pelo governo de Cristina Kirchner no ano passado, esperavam tomar fôlego, em 2012, estão perdendo as esperanças com a nova medida, que começou a valer em 1° de fevereiro.
As restrições começaram com a intervenção da Secretaria de Comércio Interior, desta vez, no sistema oficial de índices de inflação e a pressão sobre importadores. No ano passado, a secretaria impôs aos empresários proibições informais de importar. A indústria multinacional de eletrodomésticos Whirlpool, que tem uma unidade fabril em Joinville, exemplifica os entraves à importação colocados pelo governo argentino.
Para o vice-presidente de Relações Institucionais da Whirlpool Latin America, Armando Valle Jr., a nova medida apenas oficializa a postura do país vizinho durante 2011. Ele ressalta que o problema não começa agora, na obrigação de atender às exigências oficiais do governo, mas depois, quando todos os documentos encaminhados continuariam não garantindo a liberação.
Valle explica que, em 2011, a Whirlpool atendeu a todas as condições burocráticas do governo argentino, mas não conseguiu que os seus pedidos fossem liberados. Segundo ele, 450 contêineres ficaram retidos e só recentemente liberados. Ele afirma que há muita mercadoria presa na alfândega, resultado das proibições do ano passado, e que a nova medida ainda nem é foco da empresa.
– Houve uma instrução interna do governo argentino à alfândega dizendo “não libere o produto”, sem qualquer justificativa. Apesar de a medida protecionista estar agora oficializada, ela não nos dá garantia nenhuma de que o nosso produto, mesmo com atraso, entrará no país.
O mesmo problema ameaça a agroindústria catarinense. O presidente da Cidasc, Enori Barbieri, diz que as medidas protecionistas podem culminar na abertura de unidades de produção de frango e suínos – hoje importados – na Argentina. Segundo ele, a sucessão de barreiras protecionistas podem chegar a um ponto, em que será imperativo às indústrias catarinenses começarem a produzir no país vizinho.
Fonte: Darci Debona/ Diário Catarinense (edição de sábado 25/02)