Um ‘banco’ com 180 mil donos

Um ‘banco’ com 180 mil donos

Florianópolis, 22.11.11 – Os altos custos de serviços bancários levam milhares de pessoas a procurar a alternativa das cooperativas de crédito, onde podem ser donas da instituição e ter acesso a serviços bancários mais baratos, especialmente empréstimos. É por isso que a Viacredi, ex-Credihering, que era a cooperativa de crédito dos trabalhadores da Cia Hering, de Blumenau, atrai de 3 mil a 4 mil novos associados por mês no Vale do Itajaí, e se tornou a maior cooperativa de crédito do Brasil em número de sócios, com 180 mil cooperados. Segundo o presidente da Viacredi, o economista Moacir Krambeck, a organização, que fará 60 anos dia 26, precisa ser dividida para atender melhor seus associados. Krambeck também preside a central de cooperativas Cecred, que reúne 13 organizações, entre as quais a Viacredi, Transpocred, Credifiesc e Credelesc. Em nome dessa central, ele recebeu sexta-feira, em Cancun, no México, o prêmio mundial para excelência cooperativa, concedido pela organização americana DotCooperation LLC (DotCoop).

Moacir Krambeck

Presidente da Viacredi (ex-Credihering) e da Cooperativa Central de Crédito Urbano Cecred. Moacir Krambeck, 67 anos, descendente de alemães, é natural de Blumenau. Desenvolveu sua carreira na área de controladoria da Cia Hering. Paralelamente, passou a atuar na gestão da Cooper, cooperativa de consumo da empresa, e, em 1995, assumiu a presidência da Credihering, da qual era sócio. Técnico em Contabilidade e economista pela Furb, também atuou como professor. É casado com Mary Krambeck e tem três filhos, dois engenheiros e um médico.

Como nasceu a Viacredi?
Moacir Krambeck – Foi constituída em 1961 por um grupo de 21 trabalhadores da Cia Hering, liderado pelo então presidente da empesa, Ingo Hering, pai de Ivo Hering, atual presidente do conselho. Ele se preocupava muito com a qualidade de vida dos trabalhadores. Conhecia o modelo alemão, mas foi copiar o da Renner, no RS. A Cooperhering foi fundada como as cooperativas Luzatti, da Itália, que associavam todas as pessoas, independentemente da atividade profissional, apesar de o Banco Central ter reconhecido isso somente em 2003, com a permissão da livre admissão. Em 1990, começou a permitir outras pessoas porque os funcionários da empresa começaram a se aposentar e queriam continuar na cooperativa. Nessa época ela tinha cerca de 8 mil cooperados. Em 2001, ela mudou o nome para Viacredi porque fez 50 anos e precisava sair do “casulo”.

Como vocês chegaram a 180 mil sócios, o maior número do Brasil?
Krambeck – A Viacredi é a maior do Brasil em número de cooperados. Em ativos, as do setor agropecuário são maiores. Alcançamos 180 mil sócios em 2004. As pessoas foram se associando em função da propaganda boca a boca. Elas tentam encontrar soluções para si, familiares e amigos.

Os ativos somam quanto?
Krambeck – A Viacredi tem R$ 1,040 bilhão em ativos. Vale explicar que ativos são o dinheiro aplicado pelos cooperados na cooperativa, mais os imobilizados dela, depósitos em conta corrente, poupança e aplicações de curto e médio prazos. Se dividirmos os ativos pelo total de associados, dá R$ 5 mil ou R$ 6 mil para cada um.

Quem pode ser sócio?
Krambeck – Todas as pessoas que têm domicílio na região. As empresas podem operar pela cooperativa, mas os sócios são as pessoas. O ingresso requer a integralização de R$ 240. Esse dinheiro é sempre do sócio e, se decide sair, leva o valor atualizado. O resultado da cooperativa, nos últimos anos, tem sido maior do que o da caderneta de poupança. Se você olhar a rentabilidade do patrimônio, vai chegar a 16% ou 17%. Se comparar com a taxa Selic, que está em 11,50%, o resultado é extraordinário.

Quais as vantagens dos sócio?
Krameck – A pessoa tem a segurança de qualquer sistema financeiro brasileiro porque a cooperativa, como os bancos, participa de um fundo garantidor. A remuneração é um pouco melhor do que a do sistema financeiro convencional. Já as operações de empréstimos são feitas com juros muito menores, chegam a menos de 50% do que o mercado cobra, em média. Além disso, a pessoa praticamente não tem tarifa. Enquanto os bancos cobram tarifa para manutenção de conta, as cooperativas não cobram praticamente nada. Só com isso dá para fazer uma poupança razoável.Entre os objetivos das cooperativas de crédito está motivar as pessoas a poupar. Eu sempre digo que a melhor previdência é ter capital na cooperativa. Quando se aposentar, vai lá, tira o seu capital devidamente atualizado e vai viver como um rei e como uma rainha. Não paga taxa de carregamento e taxa administrativa para a gestão dos recursos.

E o futuro da Viacredi?
Krambeck – Ela está crescendo de forma muito acelerada, com 3 mil a 4 mil novos sócios todos os meses. Como oferecemos atendimento personalizado, um sólido trabalho de educação sobre os objetivos do sistema cooperativista, é preciso pensar em melhorar a gestão. Entramos com projeto no Banco Central para criar uma cooperativa regional no Alto Vale com uma parte das 58 agências da Viacredi.

Como está constituída a central de cooperativas Cecred?
Krambeck – O sistema Cecred compreende, hoje, 13 cooperativas singulares, entre elas a Viacredi. Foi criado em 2002, com três organizações de Blumenau, a Viacredi, a Concredi e Credicoop. Entre as nosssas associadas estão a Transpocred, da Federação dos Transportes do Estado, a Credifiesc, da Federação das Indústrias, e a Cedelesc, dos eletricitários do Estado. Uma das nossas associadas é a Rodocred, do Paraná.

Cooperativa

O sistema cooperativo tem foco socialista. Segundo Moacir Krambeck, não tem nada a ver com banco.
– Fazemos os serviço do sistema financeiro, mas as cooperativas são diferentes. São formadas por uma sociedade de pessoas que buscam solucionar seus problemas, obter operação financeira mais barata, uma remuneração melhor porque o objetivo não é ter lucro. Se não é ter lucro, tudo o que sobrar vai voltar para o cooperado, diferente do sistema financeiro tradicional – explica Krambeck.

Brasil

O sistema cooperativo geral nasceu na Inglaterra, mas o cooperativismo de crédito nasceu na Alemanha. Hoje, é forte nos países desenvolvidos e é o que mais cresce no Brasil, observa Moacir Krambeck. A fiscalização geral do sistema, no país, é feita pelo Banco Central, que acompanha 162 bancos e mais de 1,3 mil cooperativas de crédito. O modelo passou a ser mais procurado por pequenos empresários após a crise financeira de 2008, quando os bancos convencionais limitaram a oferta de crédito. As cooperativas também são alternativa para aumentar a concorrência bancária.

Educação

Entre as ações desenvolvidas pelas lideranças das cooperativas está a educação dos associados. Todos são convidados a participar das assembleias. Os sócios são os donos da organização e tomam decisões em conjunto. As escolhas feitas por 50% dos votos mais um prevalecem nas assembleias, informa Moacir Krambeck.
Fonte: Estela Benetti

Compartilhe este post