São José, 10.5.10 – São 4h. Getúlio Bueno, 44 anos, desperta no banco do caminhão, estacionado em um posto de gasolina às margens da BR-101, em São José. Esfrega os olhos, toma um café e sai. No baú do veículo, 12 toneladas de alimento devem ser entregues em supermercados da Grande Florianópolis.
É assim nas quartas e quintas-feiras de todas as semanas. Mas já foi diferente. Há três anos, quando começou a trazer mercadoria de Curitiba, no Paraná, onde mora, para a Grande Florianópolis, começava o trabalho às 7h.
– Agora, se eu acordar mais tarde não consigo circular na rodovia. Fica tudo trancado. Qualquer obra para essa região é muito bem-vinda – diz o caminhoneiro.
Bem-vinda e atrasada. São 12 anos de espera pelo Contorno de Florianópolis, anel viário que tem a missão de destravar as pistas da BR-101 na região metropolitana da Capital. O projeto foi realizado em 1998 pelo antigo Departamento Nacional de Estradas e Rodagem (DNER), hoje Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit). Na época, era para ser executado ao fim das obras de duplicação do trecho Norte, em 2001. Acabou sendo adiado e debitado na conta da empresa que ganhou a concessão da rodovia, em 2008. O contrato de concessão é claro: a empresa tem até o quarto ano para concluir a obra, ou seja, 2012.
Mas o prazo não será respeitado. O sonho de ter um desvio por onde circule o tráfego pesado e de longa distância está adiado para 2014, com os últimos capítulos protagonizados pela concessionária Autopista Litoral Sul, sob o aval da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
O projeto executivo, aprovado pelos órgãos ambientais e que fez parte do edital de concorrência em 2008, foi descartado, porque é muito antigo e precisou ser revisto. Com isso, a Autopista informou que realizou o projeto funcional, aprovado pela ANTT, e, agora, faz os estudos de impacto ambiental da obra. Seguem-se o projeto básico e o projeto executivo do Contorno. A previsão é de começar em 2011 e entregar quatro anos depois.
Mas qual a diferença de um para o outro e que projetos são esses? Com a palavra, a concessionária:
– O projeto funcional consiste no estudo preliminar, onde se define o traçado da obra. Já o básico, reúne todos os primeiros estudos. O plano executivo é o referente à execução. Todos são encaminhados para análise e aprovação da ANTT, e cada etapa só tem sequência a partir da aprovação do projeto anterior.
Especialistas em trânsito ouvidos pelo DC não engolem a substituição da proposta original:
– É aceitável que o projeto original é antigo. Mas que se façam adequações, não um projeto novo. Eu sou engenheiro desde os anos 1960 e nunca ouvi falar no projeto funcional – questiona Ricardo Saporiti, engenheiro civil, responsável pelo estudo da Fiesc sobre a duplicação do trecho Sul da rodovia BR-101.
São 15h de quinta-feira. Getúlio terminou as entregas. Mas o pouso no posto ainda é necessário. Ele espera baixar o fluxo na BR para encarar a rodovia mais limpa, rumo ao desejado descanso em casa, em Curitiba, o que deve acontecer por volta das 23h.
| Contraponto |
| A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) disse que houve uma alteração no prazo inicial em decorrência da necessidade de se elaborar novos estudos. |
| Outro motivo foi em relação às diversas ocorrências ao longo da rodovia, provocadas pelas intensas chuvas, o que motivaram situações de emergências, com repercussão em atrasos nas obras e serviços, conforme justificativas da concessionária. |
| A ANTT informou ainda que determinou à concessionária a realização de estudos relativos à necessidade de ampliar a extensão do contorno no sentido Norte, sem prejuízo na efetivação do cronograma do projeto já aprovado. |
| A concessionária Autopista Litoral Sul explicou que o traçado entre o km 196 e 220 foi determinado pelo Programa de Exploração da Rodovia (PER) e que o trecho pode ter alterações em função dos estudos de impacto ambiental. |
| ANTT e concessionária se recusaram a fornecer o novo projeto, pois afirmaram que eles estão em estudos e ainda podem sofrer alteração. |
Contorno é menor no novo projeto
Além de atraso na obra, os novos projetos alteram o traçado original. Na proposta inicial, o contorno começa no km 175 da BR-101, no Rio Inferninho, limite entre Biguaçu e Tijucas. Agora, o anel viário começa no km 196, já dentro de Biguaçu, próximo à SC-408, que dá acesso à cidade de Antônio Carlos. A ANTT não confirma a mudança. Diz que só pode mostrar o projeto quando estiverem vencidos todos os estudos.
A concessionária já divulgou o início do contorno a partir do km 196. Mas também não fornece mais detalhes.
O prefeito de Biguaçu, José Castelo Deschamps, e Tito Alfredo Schmidtt, presidente da Associação Empresarial da Região Metropolitana da Grande Florianópolis (Aemflo) e da CDL/São José participaram de reuniões na ANTT há cerca de um mês e confirmam a alteração de projeto.
– O projeto novo é pior que o original. Estivemos lá para mostrar que ele não deve ser aprovado. Estamos esperando e temos nova reunião com eles daqui a duas semanas – diz Tito.
Dechamps afirmou que “não vai deixar” construir o contorno a partir do km 196.
– Assim o desvio não vai funcionar. Qual é o motorista que, ao estar no meio de Biguaçu, vai subir nove quilômetros para pegar um contorno? Nenhum. Ele vai preferir continuar no eixo da 101 – argumenta, completando que no novo projeto, o anel viário perde 18 quilômetros.
A alça de Contorno de Florianópolis é considerada a obra mais importante do trecho. Um levantamento da Aemflo junto a lojas de automóveis da Grande Florianópolis aponta que entre 1,5 mil e 2 mil carros são vendidos por mês na região, o que faz a entidade afirmar que em três anos o trânsito na região vai parar.
| O contorno |
| – Projeto original tem 47,33 km de extensão, entre o km 175 da BR-101 (Rio Inferninho) até o km 220, pouco antes da praça de pedágio em Palhoça. Se a alteração se confirmar, o início é no km 196 (Rio Biguaçu). Pistas com duas faixas nos dois sentidos. O trecho final permanece igual. |
| – Corta as cidades de Biguaçu, Palhoça e São José e se aproxima das cidades de Santo Amaro da Imperatriz, Antônio Carlos e São Pedro de Alcântara. |
| – Orçamento inicial é de R$ 200 milhões, mas pode mudar se o projeto for alterado. |
| – Previsão de quatro anos de obra, com conclusão em 2014. |
| MAIS DOIS EM SC |
| – Em Santa Catarina tem ainda dois contornos a serem construídos, com o mesmo objetivo de tirar o trânsito pesado de dentro das cidades. Ambos são bem menores do que o anel viário de Florianópolis. |
| – Em Araranguá, o contorno tem 6,73 quilômetro, entre os km 409,2 e km 415,5. A previsão é de três anos de obra, com início em 2011. |
| – Entre Jaraguá do Sul e Guaramirim, na BR-280, anel viário com 23,76 quilômetros de extensão, entre os kms 50,79 e km 74,55. A previsão é de até cinco anos de obra, com início ainda em 2010. |
| EM CURITIBA, É PARECIDO |
| – O Paraná já tem um contorno para a sua Capital, que se assemelha ao proposto para Florianópolis. É o Contorno Leste de Curitiba. |
| – São 45 quilômetro de extensão. |
| – Corta as cidades de Quatro Barras, Borda do Campo, Piraquara e São José dos Pinhais. |
| – A obra começou em 1996 e foi inaugurada em 2002. Foi executada pelo Dnit. Mas hoje a concessionária responsável é a Autopista Litoral Sul a mesma de Santa Catarina. |
| – O impacto foi positivo. Ao separar e organizar o tráfego de longa distância do tráfego local, os ganhos são em agilidade e segurança para os usuários. As cidades que receberam o anel viário não tiveram impacto de intensidade de fluxo, porque o traçado passa longe da área urbana (com exceção de São José do Pinhais). |
| Fonte: Dnit do Paraná e de Santa Catarina, Antt, Autopista Litoral Su |
Quem entende não concorda…
– Qualquer projeto licitado tem que prever a demanda de pelo menos cinco anos à frente, assim como precisa passar pelas licenças ambientais. Ao licitar em 2008, o projeto teve esses estudos, portanto, é andar para trás e realizar tudo novamente. O fluxo de veículos cresce entre 7,5 e 8% ao ano. Esse é um projeto que não pode atrasar mais, senão, ficará obsoleto.
José Leles de Souza, mestre em Engenharia de Trânsito.
– Quando a empresa foi contratada, era uma alça de contorno com aproximadamente 50 quilômetros. Em cima disso e dos outros serviços de melhorias na rodovia, foi projetado o valor do pedágio. Considerando que essa é a obra mais importante da concessão, e se ela está atrasada e teve redução no tamanho, é justo que se comece a questionar a cobrança antecipada do pedágio. Uma obra deste tamanho leva pelo menos quatro anos para ficar pronta, após o início dos trabalhos. Só que nem as desapropriações começaram.
Ricardo Saporiti, engenheiro civil, responsável pelo estudo da Fiesc sobre a duplicação do trecho Sul da BR-101.
– As cidade do interior, Santo Amaro da Imperatriz, São Pedro de Alcântara e Antônio Carlos, vão se desenvolver economicamente. Podem ganhar polos industriais e novas empresas. O crescimento tem que se direcionar ao interior, porque o litoral está saturado. Já o escoamento da produção das cidades litorâneas ganharia mais uma alternativa.
Tito Alfredo Schmidtt, presidente da Associação Empresarial da Região Metropolitana da Grande Florianópolis (Aemflo) e CDL/São José.
– Como é que se abre concorrência, várias empresas participam, fazem orçamento para realizar um projeto, depois, uma delas ganha e, na hora de execução, a obra é alterada? Parecem-me subterfúgios para atrasar os trabalhos. Em Biguaçu, será instalado o estaleiro de Eike Batista. Em Governador Celso Ramos, tem um grande empreendimento espanhol e turístico para sair. A redução no contorno implica não atender uma região que está crescendo muito.
Mauricio Haroldo Duarte, pós-graduado em Gestão de Trânsito.
– A BR-101 se tornou uma via urbana na Grande Florianópolis. A projeção é que o contorno reduzirá o trânsito em 50%. Também diminuiria bastante os acidentes. A BR-101, entre Biguaçu e Palhoça, é o segundo ponto mais crítico do país. São muitos atropelamentos, acidentes com motos, o que cairia bastante ao tirar o trânsito pesado e de longa distância do trecho. É, sem dúvida, a obra mais importante da região.
Luiz Ademar Paes, superintendente da Polícia Rodoviária Federal, em Santa Catarina.
Fonte: Diário Catarinense