Em um futuro próximo, os motoristas brasileiros deverão treinar em simuladores de trânsito antes de pegar a estrada de verdade pela primeira vez. Em maio, entrarão em fase de testes três tipos de equipamento, com diferentes graus de sofisticação, por meio de um convênio entre o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Um relatório sobre a eficácia de cada modelo deverá ser apresentado ao governo até julho para orientar a implantação da novidade nas autoescolas do país.
Desde 1998, a legislação de trânsito brasileira prevê a utilização de simuladores em Centros de Formação de Condutores (CFCs) para facilitar a formação dos futuros motoristas. Agora, a iniciativa começa a acelerar. No começo do ano, o governo encomendou à UFSC um estudo a fim de estabelecer parâmetros para a instalação do serviço nos CFCs.
– Estamos estudando a legislação, entrando em contato com fabricantes e montando os equipamentos para iniciarmos a fase de testes – afirma Carlos Alberto Schneider, diretor do Centro de Mecatrônica da Fundação Certi, órgão de pesquisas em novas tecnologias ligado à UFSC.
A intenção desse estudo é comparar os benefícios de simuladores mais simples (semelhantes a um jogo de computador) até os modelos mais complexos, em que cabines móveis reproduzem os movimentos de um veículo – a exemplo de simuladores de voo utilizados para treinar pilotos de avião. Uma das vantagens do uso da realidade virtual seria submeter o futuro motorista a situações desafiadoras como chuva intensa, pista escorregadia ou pouca luminosidade.
Resultados vão apontar padrão para as autoescolas
A intenção do Denatran é aprimorar a formação dos condutores utilizando uma tela que reproduziria as condições de trânsito em uma cidade ou rodovia, permitindo ao motorista acelerar, frear e fazer curvas como se estivesse jogando um videogame – substituindo ou acrescentando horas de formação ao curso atual. Com isso, o aluno poderia se familiarizar com as regras de circulação e os comandos de um automóvel antes de entrar em um carro de verdade.
O estudo da UFSC deverá comparar custos e benefícios dos diferentes tipos de equipamentos, como o grau de aprendizado que cada um garante, para o governo determinar qual o melhor padrão a ser adotado pelas autoescolas. O presidente do Sindicato dos CFCs de Santa Catarina, Murilo dos Santos, aprova a iniciativa, desde que não fique apenas no videogame. Para ele, o simulador precisa vir com pedais, marchas e freio.
– É preciso representar a realidade, como os usados para formação de pilotos de avião – sugere.
Santos observa que simuladores já são estão em atividade em países como Portugal, Espanha, França e Suécia, e que as experiências foram bem-sucedidas.
– Aqui no Brasil até então não existia e importar era inviável economicamente – completa.
O Denatran e a UFSC preferem não falar em valores por enquanto. Estimativas indicam que os modelos mais simples poderiam custar algumas centenas de reais, enquanto simuladores complexos chegariam a mais de R$ 20 mil.
Algumas empresas brasileiras já produzem softwares para educação de trânsito. Segundo Cristinna Araújo, diretora da Technology & Training Institute, do Rio de Janeiro, a realidade virtual favorece o aprendizado dos futuros condutores.
– A imersão é altíssima nesse tipo de jogo. A pessoa fica concentrada de uma maneira que não se vê em nenhuma outra plataforma. Graças a isso, absorve bem qualquer informação – avalia.
O futuro na formação de condutores
Categoria 1
Simulador de PC
l Trata-se de uma espécie de jogo para computador,
capaz de ser executado em qualquer
PC, o que facilitaria a expansão da tecnologia
e o treinamento. Seria o modelo mais simples
e barato, e ofereceria uma experiência mais
limitada ao usuário por não simular fielmente
os comandos e as reações de um veículo
em movimento. Seu principal benefício seria
orientar o aprendiz sobre as regras e sinalizações
de trânsito – como obedecer a placas
e a sinaleiras, limites de velocidade e outras
normas.
Categoria 2
Cabine estática
l Apresenta nível intermediário em termos
de custo e realismo. O condutor fica sentado
em uma espécie de cabine que simula um
painel de automóvel, com direção, câmbio e
pedais. A cabine não se move. No máximo,
a direção pode simular a reação a determinados
estímulos, como derrapagens ou trepidação
na pista. Além de esclarecer o aluno
sobre as regras de trânsito, permite que ele
se familiarize com os comandos de um automóvel
antes de ir para a rua – como trocar
as marchas, tempo de aceleração e freada,
entre outros.
Categoria 3
Cabine móvel
l Além de apresentar o trajeto virtual percorrido
pelo motorista em uma tela e reproduzir
o painel de um veículo, a cabine também é
capaz de se mover para o alto, para baixo e
para os lados, como um simulador de aviação,
conforme a ondulação da pista e os comandos
do motorista. Bem mais caro, podendo custar
mais de R$ 20 mil, esse modelo é que o permite
o maior grau de realismo. Além de facilitar
a aprendizagem das normas de trânsito e familiarizar
o condutor com o comando do veículo,
facilita o treinamento ao enfrentar condições
adversas, como pista escorregadia.
Fonte: Diário Catarinense