Florianópolis, 19.12.05 – Pista esburacada e ondulada, trevos pouco sinalizados, acostamento defeituoso ou inexistente, pessoas caminhando ao lado da rodovia, trânsito lento, cruzamentos perigosos, imprudência, abuso de velocidade, tráfego pesado de caminhões, obras de duplicação, pouco patrulhamento rodoviário. Este será o cenário que o motorista vai encontrar quando estiver viajando pelo trecho Sul da BR-101.
Quem viaja para curtir as férias no Litoral catarinense e passa pela rodovia, que vai de Passo de Torres, Sul do Estado, a Palhoça, na Grande Florianópolis, não pode chamar o percurso de passeio. Nestes 249 quilômetros, qualquer descuido pode ser fatal. Na temporada passada, a PolÃcia Rodoviária Federal registrou 27 mortes em 554 acidentes no trecho Sul da BR-101.
A ponte que cruza o Canal das Laranjeiras, conhecida como Ponte de Cabeçudas, em Laguna, é um dos pontos mais perigosos. Morando há duas décadas em frente à cabeceira da ponte, Alexsandra Silva, 31 anos, disse que saÃda de pista é comum no local.
?O que colabora para os acidentes são direção embriagada e ultrapassagem na ponte?, disse Alexsandra.
Com a estimativa do setor turÃstico de aumento de 10% de turistas em relação à temporada passada, a PRF prevê também mais veÃculos nas estradas. A média anual, que é de 20 mil carros por dia, deve duplicar, chegando a um tráfego de 40 mil carros a cada 24 horas.
Em comparação ao trecho norte, a parte de pista simples registrou menos acidentes. O trecho Sul, no entanto, registrou mais violência. No primeiro semestre de 2005, o trecho não-duplicado da BR-101 já ceifou 72 vidas.
Para as obras de duplicação, as placas avisam que a velocidade para segurança em locais com homens trabalhando é de 60 km/h. Mas motoristas costumam ignorar o aviso e aumentam o risco de colisão com algum caminhão carregado cruzando a pista.
Osvaldo já viu mais de 15 acidentes fatais
Osvaldo Alipio de Oliveira, de 65 anos, mora há 33 anos à s margens da BR-101, na localidade de Laranjeiras, em Laguna. Ao longo de mais três décadas perdeu as contas de quantos acidentes viu da porta da sua casa. – Acho que foram mais de 15 só com mortes, sem contar os acidentes mais leves – contabiliza o aposentado.
Ter como vista da varanda de casa um cenário ruidoso e ameaçador é motivo de preocupação para a famÃlia e vizinhos.
– Teve um acidente em que o corpo do motorista ficou dentro do carro, mas a cabeça nós encontramos jogada no mato. Já morreu muita gente por aqui – recorda.
As más lembranças de Osvaldo, no entanto, são vencidas pela esperança da duplicação do trecho Sul da BR-101. A visão das primeiras máquinas, no canteiro de obras, faz o aposentado pensar no futuro e alegrar-se com a expectativa de ver a BR-101 duplicada, sinalizada e, se os motoristas praticarem a direção defensiva, com uma queda significativa no número de mortes.
Os trechos da rodovia que cortam os municÃpios oferecem riscos para pedestres e motoristas. Exemplo disso é a estudante LetÃcia Augusto Bif, de 20 anos, que reside no Bairro Cidade Alta, em Araranguá, no Sul do Estado, e precisou atravessar a BR-101, na manhã da última quinta-feira, para levar o filho, Diogo, de 11 meses, ao consultório do médico localizado no Centro do municÃpio.
Com o filho no carrinho, LetÃcia demorou a encontrar uma brecha no tráfego de veÃculos para atravessar a rodovia sem maiores riscos.
– Na hora do pique, ao meio-dia, é possÃvel ver cada coisa que é de ficar de boca aberta – relata LetÃcia, sobre as imprudências cometidas pelos motoristas.
Assim como Araranguá, que possui outras comunidades em situação de risco (Barranca, Sanga da Areia), outros municÃpios sofrem com o problema como Santa Rosa do Sul, Sombrio, Tubarão e Capivari de Baixo.
Redutor de velocidade está estragado
Os redutores eletrônicos de velocidade têm sido importantes para diminuir o número de acidentes entre os quilômetros 413 e 420 da BR-101, conforme a PolÃcia Rodoviária Federal. Mas de acordo com o pintor Zaffer Steckert, 24 anos, que reside à s margens da rodovia, o redutor eletrônico do Km 413 que controla a velocidade dos veÃculos no sentido Sul-Norte está estragado há três meses:
– A turma já percebeu que não está funcionando e passa ligeiro. Mas os acidentes que mais acontecem ainda por aqui são com motos, porque o redutor não pega – afirma.
Além das filas, ocasionadas pela redução de velocidade, o motorista precisa ter atenção com o trânsito intenso de veÃculos, ciclistas, pedestres e até carroças, que aguardam uma pausa no tráfego para atravessar a rodovia.
PrejuÃzos
Caminhoneiro de Canoinhas, cidades do Norte do Estado, Ilmar da Silva, 24 anos, conheceu a BR-101 Sul, na quarta-feira, e já ganhou um cartão de visitas. Próximo à localidade de Penha, em Paulo Lopes, um buraco estourou o pneu de seu caminhão.
– Aqui o trecho todo é horrÃvel – reclama.
Fonte: Diário Catarinense