São Paulo, 1º.2.06 – A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) deu o primeiro passo para reduzir as mortes nas estradas por causa do sono e fadiga. Está na mesa dos conselheiros do Denatran (Departamento Nacional de Trânsito) uma proposta para instituir o exame de polissonografia a todos os motoristas profissionais que dirigem veÃculos das categorias C, D e E, os chamados veÃculos pesados. A sugestão é do médico Marco Túlio de Mello, que participa do conselho do Denatran. O exame monitora o sono noturno dos motoristas para verificar, entre outras coisas, se há algum distúrbio que pode aumentar o risco de cochilos ao volante. ?Nossa preocupação básica é a quantidade excessiva de acidentes e mortes em decorrência de todo este fato?, argumenta.
?A fadiga é responsável por 27% a 32% dos acidentes de trânsito. Das mortes, chega a um percentual perto de 20%?, explica Marco Túlio. ?Observamos que 16% dos motoristas de ônibus interestaduais assumem que dormem no volante em torno de oito vezes por viagem, quando eles são questionados se seus amigos dormem no volante, a resposta sobe para 52 por cento.?
Na hora de exigir atenção, os motoristas não passaram no teste. Pesquisa feita na Unifesp com cerca 50 motoristas de uma empresa de transportes, identificou que 48% deles não estavam aptos para dirigir. ?O estado de vigÃlia estava alterado porque eles estavam cansados?, explica.
O motorista de um caminhão cegonha Claudenir Alves, de 42 anos, saiu de Mogi Guaçu (SP) há duas semanas. Passou por Franca (SP) para carregar o veÃculo e veio para BrasÃlia para descarregar. Da capital, ele foi para o Rio de Janeiro. Voltou para BrasÃlia. Ontem, preparava-se para seguir rumo a Fortaleza, passando por Belo Horizonte. ?Não sei quando volto para casa. Como minha filha está de férias, trouxa a famÃlia toda porque é a chance dela ver o mar?, relata o caminhoneiro.
Claudenir, Josefa Alves, sua mulher, e a filha Claudielle, de 12 anos, dormem na própria boléia do caminhão. ?Os bancos da cegonha se transformam em uma espécie de sofá cama e a gente se arruma?, explica o motorista. Para cumprir os prazos, Claudenir dirige 12 horas por dia. Começa à s 6h da manhã e só pára ao anoitecer. ?Poderia até guiar mais, mas como dirijo um veÃculo longo, a lei não me permite guiar à noite?, esclarece. Ele garante que não toma remédios, mas admite que o fato de estar com a famÃlia o mantém mais acordado.
Exame
Pela proposta da Unifesp, o exame seria custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). A idéia é incluir o teste em uma nova proposta de resolução que poderá substituir a de número 80, que dispõe sobre os exames para obter a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). ?Na hora que os motoristas procurarem obter, renovar ou trocar a carteira para C, D ou E, deverão fazer uma avaliação prévia com o médico ou perito. Caso o médico perceba que este condutor tem algum problema relacionado ao sono, mesmo que por excesso de trabalho, o motorista será encaminhado para a avaliação de um especialista em sono?, explica Marco Túlio.
Em caso de descoberta de distúrbio do sono, o motorista não corre o risco de perder a carteira de habilitação, mas a validade seria temporária. Em vez dos cinco anos até o vencimento, a validade seria de um ano. ?Após esse perÃodo, o motorista deverá se apresentar novamente para uma nova avaliação. Caso esteja sendo tratado, pode receber a carteira com cinco anos de validade. Mas, se ele não procurou ajuda e continuar com o distúrbio, ele teria a carteira bloqueada até buscar o tratamento adequado?, ressalta.
Vale destacar que no primeiro momento, a avaliação somente será exigida nas cidades onde são oferecidos estes exames. ?Não podemos exigir que o motorista tenha gastos em procedimentos que não são oferecidos em sua cidade de origem?. O SUS pediu, de acordo com o médico, a criação de oito centros do sono em todo o paÃs para que seja viável a obrigatoriedade de se fazer polissonografia computadorizada nos motoristas.
Fonte: Correio Braziliense