BrasÃlia, 2.4.08 – As centrais sindicais vão receber um reforço de caixa anual de cerca de R$ 100 milhões da contribuição sindical obrigatória – correspondente a um dia de salário por ano do trabalhador, descontado na folha de pagamento -, mas estarão livres de prestar contas ao Tribunal de Contas da União (TCU). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou ontem a lei de reconhecimento das centrais dos trabalhadores, mas vetou o artigo aprovado pelo Congresso que obrigava a detalhar os gastos do também chamado imposto sindical ao TCU.
O governo alegou que a medida era inconstitucional, uma intervenção indevida do poder público na organização sindical. ?Passei 30 anos lutando por liberdade e autonomia sindical e não poderia compactuar em tirar do Ministério do Trabalho e transferir para o TCU a responsabilidade de fiscalizar as centrais?, justificou o presidente, na reunião de ontem do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES).
Lula lembrou que a emenda da Câmara só instituÃa a fiscalização dos sindicatos de trabalhadores, mas no Senado a medida foi ampliada aos patronais. Mesmo assim, decidiu vetá-la. Agora, o controle dos recursos caberá unicamente aos trabalhadores e empresários, que podem exigir a prestação de contas em assembléias.
O Ministério do Trabalho vai apenas monitorar os dados e qualquer denúncia de irregularidade deverá ser feita ao Ministério Público do Trabalho. ?Deus queira que tanto os empresários quanto os trabalhadores fiscalizem os seus sindicatos?, completou Lula.
Partilha – Pela lei, as centrais receberão 10% do total arrecadado com o imposto sindical – metade do bolo que é hoje repassado ao Ministério do Trabalho. Os cofres das entidades devem ser engordados em R$ 100 milhões ao ano. O restante da contribuição é dividido com sindicatos (60%), federações (5%) e confederações (15%).
A oposição não aceita o repasse sem fiscalização. O lÃder do DEM na Câmara, Antonio Carlos Magalhães Neto (BA), qualificou o veto de ?imoralidade? e acusou Lula de ?subtrair o único instituto de fiscalização da sociedade?: ?O presidente mais uma vez mostra desprezo para com o Congresso.?
O deputado Antonio Carlos Pannunzio (PSDB-SP), autor da emenda que foi derrubada, classificou o veto de ?imoral?. ?Qualquer prefeitura que recebe recursos públicos federais tem de prestar contas ao TCU, por que os sindicalistas devem ficar imunes?? O lÃder do PSDB, José AnÃbal (SP), que em debate na TV Estadão, anteontem, havia elogiado o novo instrumento de fiscalização, lamentou a decisão de Lula. ?Por que essa resistência? O grave é que o presidente Lula compactua com isso.?
Polêmica – O controle dos repasses é o último capÃtulo de uma polêmica iniciada em outubro. Na época, durante a votação do projeto que regulamenta as centrais, uma emenda do deputado Augusto Carvalho (PPS-DF) tentou acabar com a obrigatoriedade do imposto sindical. A medida foi aprovada na Câmara, mas acabou sendo revertida – não só pelo texto, que gerou divergências, mas sobretudo por pressão de sindicalistas.
Foi também sob forte pressão das centrais e com apoio do Palácio do Planalto que o plenário da Câmara aprovou em caráter final, no último dia 11, o projeto de lei que regularizou as entidades e manteve a cobrança obrigatória na folha dos trabalhadores. Uma ação do PPS no Supremo Tribunal Federal (STF), porém, ainda tenta derrubar a obrigatoriedade.
Fonte: O Estado de S. Paulo