Florianópolis, 24.8.10 – O pedreiro Gilberto Antunes, 21 anos, saiu de casa de moto, no domingo, para pegar um filme e acabou no hospital. E apesar da fratura exposta na perna, do nariz quebrado e olhos roxos, ele se considera um sortudo por ter sobrevivido ao fim de semana mais violento no trânsito de Santa Catarina em 2010 e não ter entrado para a estatística de 18 mortes. Mas qual o motivo para tal carnificina, que já tirou a vida de 521 pessoas em SC este ano, até o último final de semana?
Especialistas apontam uma soma de fatores, quase todos aliados à imprudência dos motoristas. Gilberto diz que houve imprudência do outro motoqueiro envolvido no acidente. Segundo o pedreiro, ele trafegava por uma rua de Ingleses, em Florianópolis, quando bateu de frente em outra moto.
– O cara veio na contramão e nós batemos. Ainda considero que tive sorte, porque ele acabou morrendo. Mas nunca mais quero saber de moto – relatou.
O número recorde de mortes no último final de semana foi uma surpresa, já que a quantidade de vítimas vinha caindo este ano, na comparação com 2009.
Os dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do Batalhão de Polícia Militar Rodoviária (BPMRv) apontam que o número de mortes caiu de janeiro a julho de 2010 em relação ao ano passado – 485 contra 469 (soma dos acidentes nas rodovias federais e estaduais). Mas o número total de acidentes e feridos aumentou (veja infográfico).
– Podemos dizer que 90% dos acidentes são causados por imprudência. Cada vez mais as pessoas estão com pressa, aumentam a velocidade de seus veículos e muitos estão embriagados ao volante – explicou o superintendente da PRF em Santa Catarina, Luiz Ademar Paes.
O chefe de operações do BPMRv, Marcelo Pontes, concorda com a avaliação. De acordo com o major, a maior parte de acidentes nas rodovias estaduais em 2009 foi em batidas laterais (33%), geradas, quase sempre, por ultrapassagens forçadas.
Próximas gerações podem mudar quadro
Para Pontes, só a médio e longo prazos a história vai mudar em Santa Catarina.
– Hoje temos o Programa Cidadão no Trânsito, com educação para as crianças. As próximas gerações podem mudar o cenário triste que temos atualmente – avaliou.
Roberto Bentes de Sá, Presidente do Movimento Nacional de Educação no Trânsito (Monatran) também acha que não há uma solução a curto prazo para reduzir os acidentes.
– É a velha história de sempre. E infelizmente não vemos solução no horizonte nesta loucura e carnificina que vivemos no trânsito. É uma poderosa bomba que estamos sentados em cima – disse.
Para o especialista, não há apenas uma explicação para o alto número de mortes. Passa pelo mau preparo dos motoristas, impunidade e falta de fiscalização.
– Enquanto não for tomada uma decisão política que priorize o trânsito, será difícil mudar a realidade. Nem o dinheiro das multas são usadas para campanhas de conscientização dos motoristas.
Sem estas mudanças, sobrevive quem pode, como o sortudo Gilberto
Velocidade máxima vai a 110km/h
Os motoristas que trafegam pela BR-101 Norte devem observar novidades nos próximos meses. A maior delas é em relação à velocidade máxima. A concessionária Autopista Litoral Sul está finalizando o estudo para passar dos 100 km/h atuais para 110 km/h. Para entrar em vigor, o projeto tem que ser aprovado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Depois as placas de sinalização são substituídas.
Segundo o superintendente da Polícia Rodoviária Federal, Luiz Ademar Paes, a previsão é de que o novo limite passe a valer em dezembro, no início da Operação Verão. Se confirmado, o trecho contemplado será o duplicado, que fica entre Palhoça e Garuva, na divisa com o Paraná.
– Fizemos um estudo que comprovou a viabilidade da mudança. Temos exemplos de rodovias duplicadas onde a velocidade aumentou e o número de mortes caiu. A causa de tantos acidentes é a imprudência. O pessoal abusa e não respeita as sinalizações. Com um limite de 110 km/h, não tem por que infringir a lei. Isso vai facilitar para os nossos turistas que vêm de outros estados estão acostumados com rodovias com essa velocidade – destaca.
O superintendente cita como exemplo a Via Expressa, na Capital, onde foi registrada uma morte neste final de semana. Ele informa que o número de acidentes caiu em torno de 10% desde que a velocidade máxima passou de 80km/h para 100 km/h. De acordo com a Polícia Rodoviária Federal, em 2005, antes da alteração, foram 663 acidentes na rodovia, com nove mortes. No ano seguinte, já com o limite de 100 Km/h, ocorreram 650 acidentes, com oito mortos.
No Sul, mudança só depois da duplicação finalizada
A medida será válida apenas para veículos leves e dará maior vazão ao fluxo de automóveis. Para coibir os infratores, até o final do ano serão instalados radares e câmeras de monitoramento nos pontos mais críticos da BR-101. No trecho Norte também estão sendo implantadas sete passarelas para pedestres.
Em 2010, ainda vão ser construídas as vias marginais, em Itajaí e Camboriú, e feita a ampliação de acesso nas regiões de Garuva e Joinville. De acordo com a assessoria de comunicação do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), o aumento na velocidade de 80 km/h para 100 km/h no trecho Sul será analisado depois que as obras de duplicação estiverem finalizadas. O prazo de conclusão total é para 2013.
Morte e destino se cruzam na BR
No último domingo à tarde, Luis Henrique Costa, 18 anos, estava estranho. Insistia em falar de morte e chegou a comentar com a namorada que se fosse para morrer, queria que fosse de acidente, para não sofrer.
Poucas horas depois, o pensamento se concretizou: o jovem colidiu sua moto de frente em um caminhão, na via marginal (de via dupla) da BR-101, em Maracajá, Sul do Estado. Ele estava a uma quadra da casa da avó, com quem morava.
Ontem, no velório em Araranguá, os parentes lamentavam a morte prematura e a coincidência. A namorada, Sabrina Ferrari, 20 anos, afirma que Costa tinha fascinação por caminhões, pois o pai é caminhoneiro há cerca de 10 anos. E dessa forma, “estranha”, desejou como morreria:
– Ele estava estranho, ficou falando sobre como gostaria de morrer, que era de acidente para não sofrer. Se despediu de mim várias vezes.
A tia Rosilane Barbosa, 42 anos, e a avó, Irma da Silva Costa, 61 anos, dizem que o estudante não tinha carteira de habilitação, mas sabia dirigir.
– Ele fará falta. Era educado, não bebia, não fumava, não era arruaceiro. Era brincalhão – descreve a tia.
Os pais do jovem, Noeli da Rosa Torres, 41 anos, e Luciano da Silva Costa, 35 anos, estão inconformados com a perda do filho. A mãe sempre pedia para que o filho não usasse a BR-101 em razão do perigo.
– A gente nunca espera a morte. Viver sem ele será difícil – diz o pai.
Cruzamentos são os locais de maior risco na rodovia
Até ontem, no mês de agosto, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) posto de Araranguá, registrou duas mortes (ambas no domingo) e 20 feridos decorrentes de acidentes no trecho Sul da rodovia federal.
De acordo com a policial Alessandra Perraro, os cruzamentos de pista são os maiores causadores de acidentes na região, principalmente no KM 415 (na altura da Aravest) e 413 (rótula do Bairro Mato Alto), ambos em Araranguá, onde as obras de duplicação ainda não chegaram.
– As principais causas dos acidentes são a imprudência, a falta de atenção, o excesso de confiança, a pressa e o excesso de velocidade – afirma.
Ela considera que o misto de pista simples, pista duplicada liberada e pista em obra de duplicação é um perigo e confunde o motorista. Mas acredita que a duplicação levará à redução das colisões frontais, que resultam em mortes e lesões graves. Fonte: Diário Catarinense