Bento Gonçalves (RS), 21.3.11 – As deficiências da infraestrutura rodoviária no Brasil marcaram o inicio dos debates do V Fórum Empresarial de Transporte e Logística do Rio Grande do Sul, aberto na manhã da quinta-feira, 17 de março, em Bento Gonçalves. Participantes do encontro argumentaram que o governo teria que investir R$ 180 bilhões para tornar as rodovias mais seguras.
Organizado de forma inédita, como se fosse um julgamento, o evento colocou no banco dos réus o caminhão, apontado como agente responsável por problemas como a poluição, os acidentes nas estradas e os engarrafamentos nos grandes centros urbanos. Mas as principais críticas recaíram sobre a carência de investimentos públicos na melhoria das estradas brasileiras.
Anfitrião do encontro, o presidente da Federação das Empresas de Logística e Transporte de Cargas do Rio Grande do Sul (Fetransul), Paulo Caleffi, destacou a oportunidade de discutir os problemas do setor de forma transparente e democrática. Para o dirigente, é necessário “abrir o livro do transporte e colocar o dedo na ferida”, de modo a diagnosticar entraves e discutir soluções.
A fórmula encontrada para ampliar a dinâmica dos debates propostos pela Fetransul e pelos sindicatos a ela filiados foi analisar a responsabilidade de três atores nas questões que envolvem o transporte de cargas: o caminhão, o transportador e o governo.
A primeira sessão de julgamento absolveu o veículo, mas levantou questionamentos sobre o papel do governo e do próprio empresário. Constituída de juiz, promotores e advogados de defesa, a simulação tratou também da idade avançada da frota de veículos pesados (18,8 anos); do uso de drogas em razão do excessivo número de horas de trabalho e da carência de qualificação do caminhoneiro no Brasil.
“Na realidade, nós temos um dilema muito grande, que é a infraestrutura do país. De uns anos para cá, aumentou muito o número de ônibus, automóveis e caminhões nas rodovias, e as nossas estradas são de 50 anos atrás”, disse o presidente da Federação dos Caminhoneiros Autônomos dos Estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina (Fecam), Eder DalLago. Representante do caminhão no julgamento, DalLago criticou a autorização do governo para o tráfego de caminhões bitrem, que transportam até 100 toneladas e contribuem para danificar as rodovias.
Flávio Henrique Santos, da Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Nordeste (Fetracan), que atuou como advogado de defesa, também citou a carência de infraestrutura adequada. Santos admitiu que o caminhão tem sua dose de responsabilidade nos problemas levantados em relação a trânsito e meio ambiente, mas frisou que “entre responsabilidade e culpabilidade tem uma diferença muito grande.”
O advogado lembrou o esforço do setor de transporte para a adequação da frota às exigências ambientais, por meio dos programas EconomizAr e Despoluir, criados pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), entidade presidida pelo senador Clésio Andrade (PR-MG), com o objetivo de medir os níveis de emissões de poluentes na frota rodoviária e urbana de carga e de passageiros no país.
As discussões do fórum de transporte e logística continuaram à tarde de quinta-feira, com mais uma sessão que vai simular o julgamento do empresário do setor.
As acusações levadas a julgamento apontavam o caminhão como o principal responsável pela poluição, por acidentes nas estradas e pelos problemas de mobilidade nos grandes centros urbanos.
Sobre o empresário, pairavam as acusações de amadorismo na gestão do negócio, por falta de formação superior; inércia diante da carga tributária; falta de questionamento sobre a precariedade das rodovias nas quais transportam mercadorias; ausência de preocupação com a qualificação profissional dos empregados, além de submetê-los a condições desgastantes de trabalho; e promoção de concorrência predatória na cobrança do frete.
Fonte: Sueli Montenegro/Redação CNT