Bento Gonçalves (RS), 22.3.11 – O Tribunal do Júri simulado, que marcou uma nova forma de promover um debate usado no V Fórum de Transporte e Logística do Rio Grande do Sul, realizado entre os dias 17 e 18 de março, em Bento Gonçalves, é um embrião de um formato que será aprimorado, afirmou o presidente da Federação das Empresas de Transporte de Carga do Rio Grande do Sul (Fetransul), Paulo Caleffi, organizadora do evento. Segundo ele, é um começo diferenciado que motiva a participação de todos, inclusive da plateia. Para ele, as novas edições devem ter ajustes como a participação de jurados de fora do setor, para assim apresentar um julgamento isento. Nesta edição, os jurados, acusação e defesa eram pessoas envolvidas com o transporte rodoviário de carga. Mas o formato desse congresso é muito contundente, quando tu disser, tu és culpado por tua omissão, por tua negligência, por teu ato errado. Caleffi falou ao site da Fetrancesc logo após o evento. Veja a entrevista completa
Site Fetrancesc – O V Fórum de Transporte e Logística do Rio Grande do Sul deste ano optou por um novo modelo de debate, um Tribunal do Júri. Por que essa inovação para tratar do tema transporte e logística?
Paulo Caleffi – As quatro edições anteriores do Fórum foram num sistema convencional de congresso, com palestrante, com até dois palestrantes e o povo como assistente. Nós percebemos que a frequência, o público, até por ser o mesmo que são os empresários, acabou cansando do modelo. Então, estudamos um novo modelo com amplitude de debate, de forma a atrair novamente as pessoas que estão envolvidas com o transporte rodoviário de carga. A forma de júri, ou seja, com o contraditório, foi escolhida, porque os protagonistas passam a ser todos os que estão no palco, sete jurados, juiz de Direito, um escrivão, um oficial de justiça, três advogados da acusação, três advogados da defesa e três réus, todos eles com participação ativa no debate. E por fim, o povo, a plateia tinha condição de dar seu parecer, embora não votasse. Essa forma dinâmica do Tribunal do Júri fez com que a participação fosse mais motivada, o nível de atenção das pessoas nos surpreendeu e os debates não foram sempre conclusivos, apesar de ter definido os réus como culpado ou inocente. Mas a ideia agora é, como tudo foi gravado, reproduzir isso e enviar às federações e elas repassar aos seus sindicatos e estes remeter às empresas para que tanto o modelo possa ser estudado e melhorado como o que aqui foi tratado ser levado ao conhecimento de todos e estudadas as melhores conclusões.O que nos queríamos com esse sistema do Tribunal do Júri era analisar com profundidade as nossas doenças e poder estabelecer melhores diagnósticos.
SF – Foram colocados três segmentos sob julgamento, o caminhão, o empresário do transporte e o governo?
Paulo Caleffi – Por que colocamos o caminhão e o empresário? Primeiramente esses dois. O caminhão é tido como o grande vilão das rodovias brasileiras, o grande vilão das ruas das cidades, por ser poluidor, causador de acidentes, aquele que tranca o tráfego. Então nós quisemos julgar o caminhão para saber se era de fato responsável por aquilo que estava sendo acusado. E o empresário, uma decorrência do caminhão. Nós queríamos saber, sendo o caminhão culpado, se o empresário era o responsável por essa culpa, por ele não treinar seus motoristas, por ele ser negligente com sua manutenção ou com a renovação de frota. Por fim, o governo. Por quê? Caminhão circula em estradas e em ruas que são mantidas pelo governo. É uma questão de sinalização de provoca o acidente, é uma questão de mau dimensionamento dos veículos? Nós deixamos o governo por fim, porque achamos que seria o complemento do que estávamos procurando na culpa do caminhão e dos empresários.
SF – Quais as conclusões a que chegaram? Foram inocentados ou julgados culpados?
Paulo Caleffi – Pela modelo que nós fizemos e pelas críticas que nós tivemos pela nova forma, nós ainda temos dúvidas se as conclusões a que chegaram foram as mais corretas. Chegou-se a conclusão da inocência do caminhão, mas quem votou nisso (o júri) são pessoas comprometidas com o caminhão. Chegou-se à inocência do empresário, porque as pessoas que votaram no tribunal do júri foram empresários. Chegou-se a culpa do governo porque os empresários estão revoltados com o governo. Esse foi o melhor modelo? Não. Nós precisaríamos ter no corpo de jurados pessoas isentas. A acusação foi muito, muito boa. A defesa foi muito, muito boa. E o corpo de jurado já estava comprometido, isso não acontece num Tribunal do Júri. Esse foi um modelo, é um embrião de um formato que nós pretendemos que seja aprimorado e quem sabe um dia, quando nós tivermos um corpo de jurados isento nós vamos chegar a conclusões diferentes de agora. Então, não acredito que tenhamos chegado às melhores conclusões, mas durante os debates nós abrimos as páginas do nosso livro e nós tivemos a oportunidade de chegar mais a fundo, de forma diferente, os nossos problemas.
SF – No Tribunal do Júri simulado surgiram discussões sobre várias questões referentes à atividade do transporte. O senhor que atuou na defesa do governo, defendeu maior participação da sociedade nas decisões do governo. De certa forma, o transportador precisa participar mais? E esse debate precisa ser levado aos sindicatos e aos empresários?
Paulo Caleffi – De nossa parte do empresário do transporte, onde eu me situo, é muito fácil criticarmos um político por sua conduta. Mas nós demos a nossa cara para bater, nós já aceitamos concorrer a um cargo político, pensamos em aceitar um cargo que hoje é ocupado por um político, os políticos não são maus. São maus os políticos corruptos e nós classificamos toda a categoria dentro de um nível baixo. Não é assim. Quando nós defendemos o governo, defendemos o bom governo, mas nós não defendemos a corrupção. Acontece que o empresário precisa se conscientizar que só criticar não adianta. É preciso atuar junto com os que foram eleitos, escrever, participar, agregar-se nas suas entidades e ao mesmo tempo, ocupar o espaço político. Essa é uma das conclusões do tribunal do júri do governo.
SF – O debate é recorrente sobre a questão das rodovias, da alta carga tributária, peso dos tributos nos transportes. De que forma esse tribunal contribui para chegar às diferentes esferas do governo?
Paulo Caleffi – Participo do setor do transporte rodoviário de carga gaúcho há 40 anos. Já participei de tudo, congressos, seminários, fórum onde foi possível na minha vida e como me manifestei no tribunal eu já conheço esse problema de um livro de 1937, a má administração da máquina pública é um vício da democracia brasileira. Nós encontramos nesse nosso seminário, os mesmos problemas do seminário anterior, do congresso do ano passado e do seminário de 2005. Não adianta batermos na mesma tecla e voltarmos no ano que vem e termos os mesmos temas e as mesmas queixas. Então, nós estamos com a fórmula errada, não temos eco os nossos pronunciamentos, alguém não nos querem ouvir. O formato desse congresso é muito contundente, quando tu dissertu és culpado por tua omissão, por tua negligência, por teu ato errado. Nós pretendemos que a sociedade enxergue isso como uma direção exata de quem tem a responsabilidade. Nesse momento nós não podemos inocentar ou culpar como já disse o júri estava comprometido, mas o objetivo, o formato nosso de um novo júri é poder que a sociedade diga você governo é culpado, você empresário é culpado, o caminhão é culpado, a tua pena é arrumar a tua casa, porque está errado aqui, ali e acolá. Esse o grande objetivo desse novo modelo de debate. Fonte: Imprensa Fetrancesc – Fotos: divulgação: presidente Paulo Caleffi durante atuação no juri simulado


