São Paulo, 8.4.10 – As mesmas falhas no asfalto que oferecem riscos diariamente aos motoristas em uma rodovia também são comprovadamente uma ameaça ao meio ambiente. Um estudo da pesquisadora Daniela Bacchi Bartholomeu e do professor José Vicente Caixeta Filho, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba, mostrou que as más condições das estradas provocam um maior desgaste dos veículos e o consequente aumento no consumo de combustíveis fósseis, resultando em uma maior emissão de dióxido de carbono (CO2), o principal agente do efeito estufa na atmosfera.
Cerca de 90% das emissões de dióxido de carbono do setor energético brasileiro atualmente vêm do modal rodoviário. Rodovias melhores contribuem para a conservação do meio ambiente e ainda geram ganhos de produtividade”, afirma Daniela, nesta terceira reportagem da série sobre as rodovias paulistas produzida pela Agência Anhanguera, que o Correio Popular publica desde domingo. Durante seis dias, foram percorridos 4 mil quilômetros de estradas, nos quatro cantos de São Paulo, partindo de Campinas, Piracicaba e Ribeirão Preto. A conclusão é que no mesmo Estado onde estão as melhores rodovias do País, há também um cenário de caos e abandono no Interior — principalmente nas regiões Sul, Oeste e Litoral Norte.
No estudo da Esalq foram observados o desempenho de caminhões (dotados de computadores de bordo para auxiliar na coleta de dados) em rodovias com as mais diversas condições de infraestrutura. Os envolvidos no levantamento, publicado em 2006 e intitulado “Impactos econômicos e ambientais decorrentes do estado de conservação das rodovias brasileiras: um estudo de caso”, analisaram 20 viagens, observando sempre o consumo de combustível e o perfil das velocidades em duas rotas em diferentes estados de conservação: Campo Grande-MS a Santos-SP e Rondonópolis-MT a Campo Grande-MS. “Os resultados indicaram a existência de benefícios econômicos e ambientais para as rotas em melhor estado de conservação”, diz o estudo. Nas melhores pistas, houve uma redução de 7,8% no consumo médio de combustível e de 18,7% no gasto com manutenção. Já os índices de emissões de dióxido de carbono variaram entre 26,5 gramas de CO2/tonelada nas estradas melhores e 28,5 gramas de CO2/tonelada nas piores.
Modal rodoviário – Dados de 2002, também presentes na pesquisa, apontavam que o modal rodoviário no Brasil representava cerca de 60% da matriz para o transporte de cargas nacionais. Em comparação, nos Estados Unidos, que possuem 4 milhões de quilômetros de rodovias, essa participação era de 26%.
O estudo apresentado na Esalq mostra que, apesar da maior importância das rodovias para a economia brasileira, a produtividade do transporte nacional era 22% inferior à norte-americana, enquanto o consumo energético e a emissão de dióxido de carbono (em gCO/t.km) foram 29% e 2,6 vezes superiores em relação aos Estados Unidos.
“Muitas das rodovias consideradas boas no Brasil não têm a devida infraestrutura e conservação”, justifica a pesquisadora. Contribuem ainda para o fraco desempenho do modal rodoviário no Brasil a elevada idade da frota que, em média, possui quase 16 anos de uso, e uma oferta insuficiente de infraestrutura para o transporte rodoviário.
Outra abordagem da pesquisa de Daniela, sob a orientação do professor Caixeta Filho, mostra que cerca de 55% de todo o diesel consumido no Brasil em 2004, ou 21,7 bilhões de litros, foram destinados ao transporte rodoviário de carga.
Risco é rotina em via esburacada – Produtor convive com veículos na contramão e acidentes em rota agrícola. Produtor de uvas e abóboras na região de Pilar do Sul, o agricultor Dirceu Roque, de 30 anos, sofre na pele com as péssimas condições de conservação da SP-250, que naquela altura tem o nome de Nestor Fogaça. Caminhando pela pista com o chapéu que o protege do sol diariamente na lida da roça e correndo o risco de ser atropelado, já que não existe acostamento decente no local, ele comenta que aquela via é o principal elo de ligação de sua comunidade com o resto do Estado. É o caminho para a subsistência de todos ali.
“É onde escoamos toda a nossa produção para as outras cidades. Por ser a nossa principal estrada da região, ela bem que poderia estar melhor, né? É ruim andar por aqui, está cheio de buracos”, aponta o agricultor.
Enquanto anda sem pressa pela rodovia, Roque faz o que pode para melhorar as condições de passagem para os motoristas, que não pensam duas vezes antes de pegar a contramão para escapar das falhas do asfalto antigo e mal conservado. “Acabei de tirar um tronco de árvore da beirada da pista. Isso pode provocar um acidente grave aqui”, avisa.
Se com o dia seco a estrada não ajuda, quando chove a situação fica ainda pior. Os buracos ficam cheios dágua e tornam-se surpresas desagradáveis para quem passa por ali. Roque já presenciou diversos acidentes na região. A perda de um pneu ou uma roda entortada em uma dessas panelas pode significar um grande prejuízo para os produtores locais. “Enquanto não colocarem pedágio, eles não arrumam a pista. Não tem jeito”, lamenta Roque, seguindo seu caminho pela estrada.
Gastos ficam maiores em estradas ruins – Uma estrada degradada é capaz de gerar um aumento de 58% no consumo de combustível e de 38% nos gastos de manutenção dos veículos que trafegam por ela. No caso de acidentes, o risco aumenta em 50% quando o asfalto é ruim e faltam acostamentos adequados, além de sinalizações horizontais e placas em bom estado para que o motorista se oriente melhor. Quem não gosta de pegar a estrada pode se deparar com situação ainda pior: o tempo gasto para se chegar ao destino percorrendo vias com problemas pode aumentar em até 100%.
Essas informações constam no estudo apresentado pela pesquisadora Daniela Bacchi Bartholomeu e pelo professor José Vicente Caixeta Filho, da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq), sobre o impacto econômico e ambiental decorrentes do estado de conservação das rodovias. As informações são de um estudo realizado por técnicos do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER) e da Empresa Brasileira de Planejamento de Transportes (Geipot).
Antieconomia – O levantamento de Daniela e Caixeta Filho ainda indica que a má conservação das rodovias alimenta um processo identificado como “antieconomia”. O volume poupado pelos administradores das pistas – públicos ou privados – em serviços de manutenção da qualidade no momento adequado resulta em acréscimo de gastos futuros com obras de reconstrução das estruturas degradas e em custos adicionais para os usuários das vias. Fonte: Correio Popular
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