Joinville, 14.4.11 – Há mais de um mês, passar pela BR-376 tem sido um teste de paciência. Pelo menos três quilômetros estão interditados parcialmente devido a obras, causando congestionamentos para quem segue no sentido Paraná-Santa Catarina.
Os problemas foram causados pelas chuvas de março, que provocaram vários pontos de deslizamento. As entidades empresariais criticam a falta de informação por parte da Autopista Litoral Sul, que até agora não repassou uma data para o fim dos trabalhos. Cansadas de esperar uma resposta da concessionária, ligada ao Grupo OHL, entidades empresariais de Joinville resolveram se unir para cobrar um posicionamento. A iniciativa partiu da Associação dos Comerciantes de Materiais de Construção (Acomac) de Joinville. O presidente Rudi Soares fará uma reunião com vários empresários nos próximos dias.
– A gente precisa colocar a boca no trombone porque os prejuízos são grandes. Hoje, estamos com falta de cimento na cidade e um dos motivos é a dificuldade para a mercadoria chegar – afirma Soares, que também reclama da falta de informação por parte da concessionária.
– Não dá para entender por que não dão um prazo para a conclusão da obra. Pelo menos saberíamos como organizar os nossos pedidos.
Para o presidente da Associação de Joinville e Região da Pequena, Micro e Média Empresa (Ajorpeme), Diogo Otero, o fato de não comunicar os usuários já é condenável.
– Eles estão ferindo a Constituição Federal que prevê que empresas que têm concessão precisam passar informações aos usuários.
Otero afirma que alguns associados já reclamaram de prejuízos.
– Nos últimos dias, soubemos de duas situações de atraso de entrega de pedidos. Isso causa constrangimento com os clientes e pode prejudicar futuros negócios.
O presidente da Associação Empresarial de Joinville, Carlos Schneider, critica a falta esforço, tanto da concessionária quanto do governo federal, que não cobra a empresa.
– A demora no restabelecimento pleno da trafegabilidade da rodovia não corresponde à importância da mesma para o país – conclui.
O presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) de Joinville, Carlos Grendene, destaca a necessidade de um levantamento sobre as áreas de risco na rodovia.
– Pagamos o pedágio para receber melhorias nas condições do trânsito e não podemos nos manter calados.
Empresas de cargas reclamam
Um dos setores mais atingidos com a interdição de parte das pistas da BR-376 é o de transportes. A Cooperativa dos Transportadores de Joinville (Coopercargo) ainda não fez as contas, mas cita que a situação vai além dos prejuízos financeiros.
– O motorista, que geralmente passa pelo menos duas vezes por semana no trecho, também sente. Não é fácil ter que enfrentar fila, o estresse aumenta muito – comenta Eduardo Butzke, supervisor de logística.
Apesar dos problemas, a cooperativa consegue atender a demanda.
– O problema é que os custos aumentaram. Se for contar apenas uma viagem não é tanto. Mas somando tudo no fim do mês, dá um valor considerável – afirma Butzke.
O Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de Joinville (Setracajo) admite que algumas empresas já repassaram os prejuízos aos clientes, mas ainda não conseguem mensurar valores. Apesar disso, Alex Albert Breier, vice-presidente, disse que a entidade entende a demora na liberação do trânsito.
– A gente percebe que são obras de grande complexidade. E acreditamos que, se fosse o governo federal o responsável pela obra, a demora seria ainda maior – comenta.
– Não vemos nenhuma fiscalização dos órgãos (Dnit e ANTT). Eles deveriam estar mais presentes.
Engenheiro defende solução alternativa
Para o engenheiro Fernando Camacho – que participou da construção da BR-101, em 1970, e da duplicação do trecho entre Garuva e Joinville, no início dos anos 2000 –, o problema vai além das obras atuais.
– Quando se faz uma concessão, é preciso pensar em soluções alternativas para casos como este. No Paraná, por exemplo, existe um projeto de uma nova duplicação para que, quando a BR-277 ficar interrompida de novo, o trânsito ao porto de Paranaguá não fique comprometido.
Ele lembra que a região onde fica a rodovia registra um grande volume de chuvas e, por isso, está propensa à queda de barreiras constantes.
– As nuvens vêm do mar e não conseguem passar pelos morros, estacionando e provocando chuva.
Camacho também reconhece que as obras são de grande complexidade porque a região é muito montanhosa.
– Não é apenas chegar lá e tirar o barro. Pelo que percebi quando passei, estão tirando e já fazendo a contenção, usando sistemas bem conhecidos. Depois disso, o correto é ficar monitorando, para evitar novos problemas e detectar novos pontos.
Camacho critica a falta de informação por parte da concessionária.
– Poderiam investir em boletins frequentes em rádios sobre a situação da rodovia – sugere.
Autopista não fala em prazo
A Autopista Litoral Sul divulgou ontem, por meio de uma nota, que a demora na liberação total das pistas da BR-376 ocorre porque as obras realizadas são muito complexas.
A empresa também ressalta que a interdição de pistas ocorre por uma questão de segurança. Questionada sobre a definição de um prazo para a conclusão dos trabalhos na rodovia, não se manifestou.
A nota informa ainda que junto com as obras emergenciais estão sendo feitas as definitivas.
“Essas obras são compostas por procedimentos de drenagem, estabilização, implantação de barreiras de contenção e grampeamento do solo, entre outras intervenções”, diz o texto, ressaltando que o trabalho depende das condições do tempo.
A concessionária destaca que obras emergenciais começaram a ser realizadas imediatamente, assim que ocorreram as quedas de barreira, e já foram finalizadas em 35 das 39 ocorrências registradas a partir de 11 de março de 2011, data do início dos eventos.
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) informou, também via nota, que está “acompanhando de perto os eventos de escorregamento de maciços na região da serra da BR-376, entre Curitiba e Florianópolis”, mas sem dizer de que forma faz este acompanhamento.
O órgão nacional também falou sobre as dificuldades de se fazer obras naquele local:
“Os atuais deslizamentos foram de grande porte, e em alguns locais, extrapolando esses limites da faixa de domínio, gerando a necessidade de projetos e obras que extrapolam o âmbito da concessão e devem, portanto, ser objeto de acordo com proprietários de áreas e instalações”. Fonte: Diário Catarinense