São Paulo, 26.3.12 – Nos últimos cinco anos, a Prefeitura de São Paulo impôs seis grandes restrições a veículos de grande porte, como caminhões e ônibus fretados, em vias importantes da capital paulista. A última delas, no início de março, proibiu a circulação de caminhões na marginal Tietê e em outras 27 vias nos horários de pico. Apesar das proibições, a lentidão média no trânsito da cidade de São Paulo no horário de pico da manhã, das 7h às 10h, caiu só 9 km no período. O número foi tabulado pela ONG Nossa São Paulo com base em dados da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). No mesmo período, a frota de veículos da capital paulista cresceu cerca de 35% no período (de 5,3 milhões para 7,1 milhões).
De 2007 a 2011, a média de congestionamento no pico da manhã na cidade caiu de 89 km para 80 km. A Nossa São Paulo afirma que o trânsito na cidade ainda aumentou em janeiro de 2012, em comparação com o mesmo mês de 2011. No primeiro mês do ano passado, foram 70 km de lentidão no horário mais movimentado da tarde, enquanto em 2012, esse número subiu para 92 km. Já no pico da manhã, SP tinha 47 km média de lentidão; enquanto que em 2012, 56 km.
Todas as restrições impostas aos grandes veículos desde 2007 foram anunciadas pela prefeitura como formas de reduzir os congestionamentos na cidade. Naquele ano, a gestão Gilberto Kassab (PSD) estabeleceu que caminhões não deveriam mais cruzar o centro expandido de São Paulo e chamou o perímetro de restrição de ZMRC (Zona de Máxima Restrição de Circulação).
Restrição não ataca “vilões”
Na opinião de especialistas em tráfego e mobilidade urbana ouvidos pelo R7, políticas restritivas não resolvem o problema do trânsito porque não atacam os carros, principais “vilões” do congestionamento. Eles também rebatem o argumento de que a substituição dos caminhões por veículos de carga menores pode contribuir para a redução de emissão de gases e ajudar a preservar a qualidade do asfalto.
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O engenheiro de trânsito Horácio Figueiredo usa como exemplo a avenida 23 de Maio, que faz a ligação entre as regiões norte e sul de São Paulo.
– Na 23 de Maio, há mais de 20 anos, é proibido transitar caminhão nos horários de pico da manhã e tarde. E a avenida sempre para porque os automóveis rapidamente atingem toda a capacidade da via. Não é possível aceitar que 70% dos carros tenham apenas um passageiro, o motorista.
Ainda na opinião de Figueiredo, as restrições aos veículos pesados deslocaram o problema de lugar. Quem andava de transporte fretado decidiu “chutar o balde e voltar para o transporte público ou pegar o carro na garagem”. Os motoristas de caminhões proibidos de circular pela marginal Tietê agora “buscam vias menores dos bairros da zona norte para chegarem onde precisam”.
– Restringiram na marginal Pinheiros e o congestionamento voltou. A mesma coisa aconteceu com a marginal Tietê. […] Os caminhões estão fazendo estragos em bairros da zona norte [porque usam a região como alternativa].
Luiz Flora, diretor de relações institucionais e jurídicas da Associação Nacional de Trânsito de São Paulo, critica a logística adotada para substituir os caminhões pesados e manter o abastecimento de serviços.
– Para uma empresa passar com o caminhão [em um local proibido], ela é obrigada a colocar três ou quatro caminhões pequenos [no lugar dele]. Então, se você for ver, é o mesmo volume [ocupando as vias da cidade].
A CET e a Secretaria municipal de Transportes rebatem as críticas e dizem que “todas as medidas adotadas pela prefeitura para tornar o trânsito de São Paulo mais seguro, entre elas a política de restrição e ordenação de veículos pesados [caminhões], foram acertadas”.
Carro na garagem
A companhia de trânsito afirma também que, ao longo dos últimos anos, a Secretaria Municipal de Transportes investiu em melhorias no sistema de ônibus, por meio de novos corredores, ampliação da velocidade dos coletivos e de uma frota nova com maior oferta de lugares, além de colaborar com R$ 2 bilhões para a expansão do metrô.
Para Luiz Flora, porém, o investimento em transporte coletivo rápido precisa ser ainda mais maciço.
– A prefeitura tem que investir em transporte público, mas transporte de qualidade. Porque a pessoa não vai deixar o seu carro em casa para ser transportado como gado.
O engenheiro de trânsito Horácio Figueiredo estima que a marginal Tietê consiga suportar cerca 1.500 carros por hora. Se levar em conta o índice de ocupação dos veículos, seriam 21 mil pessoas transportadas neste período, ocupando totalmente as dez faixas de um só lado da via.
– Agora, se colocássemos 150 ônibus biarticulados para rodar, transportando 140 passageiros [cada], nós chegaríamos a este número de 21 mil passageiros por hora ocupando uma só faixa com ultrapassagem. Cada faixa exclusiva que a prefeitura deixa de criar, ela tem que implantar dez faixas de automóveis.
Figueiredo também sugere um plano para desestimular a circulação de carros com apenas um passageiro. Em uma via com três faixas, a administração municipal poderia estabelecer que a primeira delas serviria exclusivamente aos ônibus. A faixa do meio serviria a ultrapassagem dos ônibus, para os fretados, táxis com passageiros e carros com mais de duas pessoas. Já a terceira deveria ser destinada a quem escolher andar sozinho com o carro.
– Não precisa de pedágio urbano. O congestionamento já é o grande preço para quem anda sozinho. Eu beneficiaria de alguma forma quem está levando duas ou mais pessoas. O transporte individual tem que ser desestimulado.
Fonte: R7