Florianópolis, 5.6.12 – De casa até o ponto de ônibus, a aposentada Dorcina Pedroso Borraz não precisa caminhar muito. Mas precisa se arriscar. Ela mora na Praia de Baixo, uma localidade dentro do Balneário São Miguel, em Biguaçu, que fica à margem da mais movimentada rodovia federal do Estado, a BR-101. E é por ela que dona Dorcina, aos 82 anos, precisa atravessar a pé para poder chegar ao ponto de ônibus.
É sempre um sufoco. Ela para no acostamento, olha para os lados e corre até a mureta central, que separa as duas pistas. Lá no meio, dona Dorcina para de novo e respira fundo. São mais duas faixas para atravessar correndo, desviando de caminhões, ônibus e carros em alta velocidade. É assim duas vezes por semana, quando ela precisa ir ao mercado, ao médico ou visitar parentes. Por necessidade, deixa o medo para trás.
— Fazer o quê? Todos nós aqui já nos acostumamos — diz.
Polícia ajuda na travessia
O problema de dona Dorcina também é o de cerca de mil moradores da Praia de Baixo que dependem de ônibus para se deslocar a qualquer outro bairro de Biguaçu. O Balneário São Miguel se estende por dois quilômetros margeando a rodovia. Agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) até chegam a ajudar e às vezes param o trânsito.
— É como se estivéssemos numa ilha: para sair do bairro, só há esse caminho, pela rodovia. É um risco para todos nós. Se a gente pisca, já era — afirma o aposentado Nadir Simão, 54 anos.
Passarela já está encaminhada
Mesmo sem segurança, todo cuidado é pouco. Talvez isso explique o baixo número de atropelamentos no local nos últimos anos, de acordo com a PRF. O risco, porém, existe. A Autopista Litoral Sul diz que vai inaugurar uma passarela ainda neste ano no local.
As obras de estrutura tiveram início no ano passado, mas acabaram paralisadas devido à necessidade de remanejamento da rede elétrica, explicou a Autopista. A empresa quer inaugurá-la na primeira quinzena de agosto. O investimento é de cerca de R$ 1 milhão.
— A passarela sempre foi a opção ideal. Além de pôr fim a um risco constante, é um instrumento que valorizaria o balneário — acredita o secretário de Planejamento e Gestão, Antônio Felipe Asmuz Pereira.
Túnel e improviso
As duas passarelas mais próximas da localidade estão a quase dois quilômetros de um lado e pouco mais de cinco quilômetros de outro. Outra alternativa de travessia é por um túnel.
Quando precisa pegar ônibus, a aposentada Hilda Freiberger, 70 anos, improvisa, só vai pelo túnel. Prefere andar um pouco mais do que se arriscar a atravessar a rodovia. Para chegar até o local, ela sai do bairro e caminha pelo acostamento, quase inexistente.
— Para alcançar o túnel temos que descer uma rampa íngreme demais e sem corrimão. Tenho hérnia de disco e sinto muita dor. Sofro para andar ali. Quase ninguém usa a passagem, justamente por isso — conta dona Hilda.
A Autopista Litoral Sul, empresa que administra o trecho da rodovia, alerta que o túnel não foi projetado para a circulação de pedestres. Ele é, na verdade, uma galeria construída para a passagem de água.
Uma criança de cada vez
A auxiliar de cozinha Lilian Viviane Matt, 27 anos, atravessa a rodovia pelo menos uma vez por dia, quando volta do trabalho. E precisa fazer o mesmo trajeto quando leva os filhos ao médico.
Acostumada, ela marca consulta médica para cada um dos três filhos por vez. Assim, não arrisca a vida de todos. As crianças têm 13 anos, seis, e três meses:
— Já perdi tênis das crianças e até fralda da bolsa. Não me arrisco a voltar ou me abaixar para pegar — diz Lilian.
Fonte: Sâmia Frantz/ Hora de Santa Catarina