Florianópolis, 19.11.12 – A falta de efetivo da Polícia Rodoviária Federal no posto do alto da Serra do Mar, no Paraná, compromete a fiscalização dos veículos que trafegam pela BR-376, na divisa com SC. Segundo o chefe das unidades do posto da PRF no alto da serra, inspetor Lucio Flavio Marins, a equipe conta com três policiais por turno. Enquanto um desempenha o trabalho burocrático no posto, os outros percorrem o trecho.
A fiscalização deveria ocorrer durante uma hora pela manhã, outra à tarde e de uma a duas horas à noite, desde que não haja acidentes. Mas eles sempre ocorrem. Até outubro, 657 dos 1.569 da BR-376 ocorreram entre os km 663 e 682. Para Marins, o efetivo necessário por turno seria de cinco policiais.
A estatística pode explicar a frequência com que se encontram tacógrafos de caminhões vencidos depois de acidentes. Era a situação do veículo que matou sete pessoas no dia 9. A presença da polícia ajudaria a coibir o excesso de velocidade na descida da serra – a causa da maioria dos acidentes, avalia Marins. Sobram os registros das câmeras da Autopista Litoral Sul, que têm efeito para a investigação dos acidentes – depois que eles ocorreram.
Nos dois acidentes, a Polícia Civil paranaense foi rápida. Paulo Roberto de Oliveira Santos, 39 anos, que dirigia o caminhão desgovernado no km 674, foi preso e liberado ao pagar fiança de R$ 3 mil. Será indiciado por homicídio culposo assim que laudos forem entregues. Mas dificilmente voltará à cadeia. O crime prevê pena de dois a quatro anos de prisão – condenação em regime aberto.
Julho César Mendes, 31, que conduzia o caminhão-guincho na terça, também deve responder por homicídio culposo – sem intenção de matar. Será ouvido pelo delegado Lúcio Lugli ao deixar o hospital. Ferido, não foi preso em flagrante.
Novas melhorias na estrutura da rodovia
A concessionária que administra a BR-376 desde 2008, a Autopista Litoral Sul, informa ter investido até agora R$ 130 milhões na recuperação e em melhorias na rodovia. Entre as benfeitorias, está a reformulação da sinalização no trecho e a construção de uma área de escape de 120 metros no km 672, inaugurada em agosto de 2011 para funcionar como uma saída para motoristas que pressentem ter perdido o freio na descida da serra.
Segundo o gerente de engenharia da empresa, Fernando Araújo, a área foi construída por iniciativa da concessionária, sem apelos do governo federal nem do contrato de concessão. A ideia surgiu para reduzir o número de acidentes no trecho atribuídos a falhas nos freios. Desde que a pista foi inaugurada, 38 acidentes deixaram de ocorrer, calcula a Autopista. Mas isso significa que o recurso costuma ser utilizado apenas três vezes por mês, em média.
Para a PRF, o ideal seria que houvesse pelo menos mais duas áreas de escape na descida da Serra do Mar. A empresa, porém, afirma que a topografia acidentada dificulta a reserva de novas áreas. “Estamos estudando outro local para pelo menos mais uma área de escape”, afirma Araújo.
A área de escape é composta por cinasita e argila expandida. Diferentemente da brita, o material não é irregular e provoca atrito capaz de parar um veículo sem freio rapidamente. O temor de danificar o veículo – equivocado, segundo a concessionária – e a manobra necessária para o acesso ao escape podem explicar porque o recurso, que só tem equivalente na Rodovia Anchieta, em São Paulo, seja tão pouco usado.
O uso da área de escape é alvo de orientações por parte da PRF e da Autopista, feitas por meio de panfletagem nas praças de pedágio e palestras em sindicatos e empresas.
Consciência e civilidade
O excesso de velocidade e uso errado dos freios é a receita para tragédias como as ocorridas na descida da Serra do Mar. “O que causou o acidente de ontem (terça-feira) foi o superaquecimento dos freios. Quando ele (caminhoneiro) teve a necessidade de frear, eles não funcionaram”, diz o inspetor da PRF Lucio Flavio Marins.
Segundo o presidente da Federação das Empresas de Transportes de Cargas e Logística de SC (Fetrancesc), Pedro Lopes, cuja entidade investigou as circunstâncias do acidente que matou sete pessoas no km 674, o caminhão que tombou no km 676 – carregado de milho, causando fila – estaria em excesso de velocidade. Já o caminhão que provocou as mortes, estaria sem manutenção e viajando com excesso de carga.
Para Lopes, a lei federal 12.619, que entrou em vigor em julho e regulamenta a profissão do caminhoneiro, criou bons parâmetros para fiscalizar irregularidades. Hoje, as fiscalizações estão suspensas por resolução do Contran. Mas Lopes vê a retomada das regras com bons olhos. “Infelizmente a sociedade continua sujeita a acidentes que ocorrem pelo descontrole de jornada e falta de inspeção veicular”, avaliou.
Ele cita uma fiscalização em Biguaçu, na semana passada, quando 22 motoristas foram flagrados dirigindo há mais de 17 horas – a lei obriga o descanso a cada 11 horas.
A orientação do sindicato da categoria coincide com as do patronal e da PRF. Para o presidente do Sindicato dos Transportadores Autônomos de Itajaí e Região, Ademir de Jesus, a responsabilidade do motorista é uma causa importante. “Pode ser que a empresa esteja exigindo muito, às vezes ele não tem conhecimento, está dirigindo um caminhão novo”, ressaltou ele, que citou o excesso de confiança como um fator de risco na estrada.
Fonte: A Notícia