Centrais estão em descompasso

Centrais estão em descompasso

Florianópolis, 12.7.13 – No Dia Nacional de Lutas, algumas escolas foram fechadas, houve bloqueio em rodovias e o transporte coletivo parou por algumas horas em Santa Catarina, mas as centrais sindicais não conseguiram reproduzir os movimentos sociais de junho.
As centrais sindicais planejaram o Dia Nacional de Lutas com muita antecedência. Queriam tempo para montar uma mobilização gigantesca, capaz de superar até as multidões que participaram das surpreendentes manifestações de junho em todo o Brasil. O número de participantes em Florianópolis e em outras cidades catarinenses indicou claramente que estudantes, trabalhadores e populares rejeitaram a convocação dos sindicatos.
A decisão de fazer o ato de ontem foi tomada no dia 25 de junho, em São Paulo, em reunião dos dirigentes da CUT, CTB, UGE, CSB, CGTB e do Conlutas. A Força Sindical aderiu, mas anunciando que iria detonar a presidente Dilma Rousseff (PT) e seu governo. Acordos de última hora resultaram na retirada, pela Força, de faixas e cartazes com o “Fora Dilma”.
A estratégia das centrais sindicais era clara: pegando carona nos movimentos populares de junho, assumir a liderança dos protestos para não ficarem a reboque. Na prática, uma forma de apropriação das mobilizações estudantis e sociais. O resultado foi outro. Se em junho a população foi em massa às ruas para dizer que os partidos e os parlamentares não a representava, agora o recado da falta de sintonia foi para as centrais sindicais. Não são poucos os sindicatos que se transformaram em massa de manobra dos partidos políticos ou servem aos interesses dos dirigentes.
Se esta é uma boa explicação, há outra leitura. A principal central sindical, a CUT tem a cara e a alma do PT. Adesão às manifestações poderia significar aprovação das decisões do governo. As últimas – assembleia constituinte limitada, plebiscito, médicos importados – foram tiros nágua. Além disso, sem uma bandeira clara, que trouxesse melhorias imediatas, por que os trabalhadores e servidores iriam maciçamente às ruas? E o que médios e pequenos empresários teriam a ganhar com liberação dos empregados? Só perdas em vendas e receitas.

Poder das redes sociais diferencia movimentos

O protesto de julho teve outra evidência que abre novo vácuo nas relações entre os governantes e os cidadãos. Enquanto as ruas da Capital estiveram vazias ou com número infinitamente menor de veículos transitando durante todo o dia, as rodovias eram fechadas por grupos minoritários, prejudicando milhões de usuários e causando transtornos de toda ordem. Era mais uma comprovação do distanciamento entre ações e provocações de minorias em relação às aspirações da maioria.
Finalmente, dois fatos relevantes a diferenciar os dois movimentos: o poder das redes sociais usadas em junho pelos jovens e a demonstração de consciência política da população em julho.

Centrais estão em descompasso

Apesar de não ter alcançado em Santa Catarina o número de participantes esperados, a mobilização foi considerada positiva por lideranças sindicais. Com reivindicações diferentes, representantes de centrais estiveram ontem no Centro da Capital. Os sindicalistas destacam a força do ato unificado e rechaçam a ideia de que os sindicatos estivessem adormecidos e pego carona nas manifestações que recentemente tomaram conta das ruas do país. Já para estudiosos, há uma grande diferença entre os protestos de ontem e os que ocorreram espontaneamente em junho.

Os protestos e o povo na orfandade

O povo está órfão. Não tem mais confiança nos partidos e na representação sindical. O fracasso, em Florianópolis e várias cidades de Santa Catarina, do Dia Nacional de Lutas, revelou que as centrais estão desacreditadas. Não deu para comparar, nem de longe, as multidões nas ruas durante as manifestações de junho com o minguado protesto de 11 de julho.
O fato mais positivo destes acontecimentos surpreendentes de junho e julho de 2013: a cidadania está mais consciente, não se deixa enganar e nem manipular pelos que não têm legitimidade ou estão em total falta de sintonia com suas aspirações mais elementares. O pior: o governo federal e o Congresso Nacional não entenderam o recado das ruas. Continuam tomando decisões improvisadas e totalmente equivocadas.
A população constata que, fora da criminalidade das drogas, o sucesso financeiro pode ser obtido no Brasil de forma diagonal, dentro de regras jurídicas muito questionáveis.
Quer ganhar dinheiro? Organize um sindicato. A receita é gorda e crescente, pois decorre de cobrança obrigatória, com desconto nos salários dos trabalhadores, mesmo que não sejam sindicalizados ou não aceitem a perda financeira. E as centrais sindicais enriquecem junto.
Deseja faturar? Funde uma igreja, com qualquer tendência ou doutrina. As igrejas no Brasil, por dispositivo constitucional, gozam de “imunidade tributária”.
Pretende engordar os salários? Crie um partido político. Além do acesso ao fundo partidário os dirigentes podem vislumbrar duas operações vantajosas: fazem alianças e vendem o tempo de televisão ou enchem os bolsos com caixa dois.
Melhor do que tudo isso, só um mandato de senador.
Mesmo com pouca adesão, mobilização convocada pelas centrais sindicais fechou a BR-101 em Itajaí.

“Todo mundo tirou uma casquinha”

Doutor em Ciência Política avalia que há muitas diferenças entre as manifestações populares de junho e os atos convocados pelas centrais para ontem.

Diário Catarinense– Qual a principal diferença entre as manifestações de hoje e as que aconteceram no mês passado?

Humberto Dantas – Hoje a gente não teve uma mobilização tão grande e centrais sindicais estão falando nessa data faz alguns dias. Já as manifestações do mês passado eram muito mais rapidamente marcadas. A sensação que parte é que essa mobilização de hoje é mais semelhante ao padrão mais conhecido de mobilização, protagonizado por grandes entidades ou organizações, que têm lá suas causas e que fazem da forma como as coisas foram feitas desde sempre. E as manifestações de junho atingiram outro público, com outro perfil e outra inspiração em termos de mobilização. Parece que o inesperado está atendendo melhor às grandes massas do que o tradicional neste momento no país.

DC – A expectativa é que esse tipo de mobilização organizada pelos sindicatos tenha a mesma adesão que tiveram os protestos do mês passado?

Dantas – O grande problema é que muito provavelmente a sociedade não está mais, pelo menos nesse momento, compactuando com as maneiras e com os desejos dessas organizações. Isso pode acontecer porque a pauta que elas têm defenda, neste momento, uma questão de ordem trabalhista e não esteja entre as maiores urgências dos brasileiros, uma vez que em termos de empregabilidade ou acesso ao mercado de trabalho nós não estamos vivendo uma crise tão acentuada quanto a corrupção, o não funcionamento de políticas públicas importantes como segurança, educação, saúde, etc. A gente tem de considerar, também, que parte dessas organizações sindicais estão muito fortemente ligadas a partidos e governos, pelo menos no que diz respeito aos olhos do cidadão comum, e justamente o que a gente viu em junho foi pessoas protestando contra partidos e contra governos. Talvez isso ajude a desmobilizar.

DC– As manifestações do sindicatos devem ter a mesma repercussão junto a classe política?

Dantas – Muito provavelmente algo mais frágil. Principalmente porque as principais lideranças por trás dessas reivindicações têm interesses político-eleitorais muito claros. E a forma do governo dialogar com esse tipo de agente, principalmente diante de uma manifestação que não atingiu os números esperados, certamente é outra e completamente diferente.

DC– Há uma leitura de que os sindicatos estariam aproveitando a mobilização nacional para também colocar sua pauta em discussão.

Dantas – Eu não acusaria só os sindicatos de fazerem isto. Podem acusar os promotores públicos de terem aproveitado as manifestações de junho para fazer com que a população pressionasse algo contra a PEC 37. A discussão em torno dela é muito mais complexa. Existe uma briga no Brasil entre delegados de polícia e promotores públicos em torno de carreiras e seus poderes. O debate é muito mais denso do que ser contra ou a favor. Portanto, todo mundo tirou uma casquinha ou muitos grupos se aproveitaram daquele momento de junho para colocar nas ruas as suas causas. Agora, em um movimento que fala em corrupção, você consegue encaixar facilmente um discurso de que limitar o MP representa alargar os canais da corrupção no país. Foi isso que o Ministério Público conseguiu ou muitos promotores conseguiram.

Giro pelo país

O Dia Nacional de Lutas foi marcado por manifestações em centenas de cidades, com a paralisação de trabalhadores de fábricas, comércios e bancos, situação que se estendeu para bloqueios em rodovias de pelo menos 23 estados brasileiros.
Paralisações em fábricas, comércio e bancos, bloqueios de estradas e manifestações nas ruas de centenas de cidades marcaram o Dia Nacional de Lutas no país. Em pelo menos 23 estados ocorreram atos organizados por sindicatos e movimentos sociais, que reuniram número menor de pessoas do que as mobilizações do mês de junho. Os principais transtornos foram nas estradas, com bloqueio do tráfego em dezenas de pontos, em alguns deles por várias horas.
O impacto foi maior nas cidades nas quais o transporte público deixou de funcionar, como Belo Horizonte e Manaus. Os protestos ocorreram de forma pacífica em grande número de capitais, mas houve enfrentamento entre a polícia e manifestantes no Rio de Janeiro e em Florianópolis.
Na capital fluminense, um grupo conhecido como Black Blocs, reunindo cerca de 300 pessoas, entrou em confronto com a polícia militar. Eles provocaram os PMs que acompanhavam a passeata organizada pelas centrais sindicais na Avenida Rio Branco, na altura do Teatro Municipal.
A polícia jogou bombas de efeito moral no grupo, que revidou com morteiros, fogos de artifício e coquetéis molotov. O grupo quebrou os vidros da fachada de uma agência bancária e danificou caixas eletrônicos de outro banco. Quatro focos de incêndio foram registrados na região.

Grupo causou confronto no Rio

Houve correria e os organizadores encerraram o ato no Rio, que seguiu da Candelária à Cinelândia. Para controlar os confrontos, a PM usou blindados e caminhão-pipa para jogar jatos dágua. No início da noite, o número de pessoas detidas chegava a 12. Os manifestantes também protestaram no Palácio Guanabara,.
Mais cedo, uma confusão envolvendo o mesmo grupo já havia ocorrido antes da manifestação começar, por volta das 17h. Além disso, um conflito se iniciou após a prisão de um jovem suspeito de estar com maconha que resistiu à abordagem da polícia, foi derrubado e arrastado pelo chão. Policiais e o jovem foram cercados por outros manifestantes, que lançaram pedras e panfletos. Um policial foi atingido. A passeata reuniu cerca de 3 mil pessoas pelo centro.

Porto Alegre

A capital gaúcha ficou praticamente isolada ainda antes do amanhecer, quando a Travessia Getúlio Vargas (ponte sobre o Guaíba) foi interrompida por manifestantes às 5h. O bloqueio do vão móvel causou congestionamento. A rodoviária permaneceu vazia ao longo do dia. Além das linhas interestaduais, os ônibus urbanos de Porto Alegre, Viamão, Cachoeirinha, Gravataí, Alvorada e outras cidades deixaram de circular pela manhã. O trensurb parou durante 10 horas. As passeatas convergiram todas para o Largo Glênio Peres, onde foram reunidas entre 1,5 mil e 2 mil pessoas.

São Paulo

Cerca de 4,5 mil manifestantes fecharam os dois sentidos da Avenida Paulista no início da tarde, de onde saíram em passeata em direção ao centro. Ônibus e metrô funcionaram normalmente. Pela manhã, o trânsito ficou bem abaixo da média. Ao meio-dia, a cidade registrou 15 quilômetros de congestionamento.

Brasília

Um grupo de manifestantes protestou em frente ao Congresso Nacional, em Brasília. Eles reuniram-se no Museu Nacional e, pouco depois das 16h, começaram uma passeata pela Esplanada dos Ministérios.

Belo Horizonte

Cerca de 6 mil manifestantes ocuparam algumas das principais vias da cidade. Pela manhã, o dia prometia ser tumultuado. Ônibus e metrô não funcionaram. Parte do comércio e os bancos fecharam. No início da tarde apenas o metrô e os bancos do Centro permaneciam sem funcionar.

Fonte: Moacir Pereira/ Diário Catarinense

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