Depois, Lopes respondeu à pergunta feita pela organização do Seminário sobre a parceria entre público e privado nas soluções logísticas. Lopes disse que hoje não existe esse diálogo. Citou o projeto apresentado por um vereador de Florianópolis que pretende deixar apenas algumas horas do dia para a carga e descarga, que não ouviu nem o comércio e nem o transporte. Para o palestrante, falta diálogo para tratar da carga e descarga nos espaços urbanos. Criticou os prefeitos que assumem e mudam as regras todas, e nunca ouvem as partes que vivem essa atividade e sabem das deficiências e das necessidades. “Cada prefeito que assume muda as regras e não há um planejamento para longo prazo. Grandes empreendimentos são construídos em áreas muito urbanizadas sem nenhum programa para a chegada e parada do caminhão nesses estabelecimentos. E quando as cidades enfrentam o caos no trânsito, a primeira coisa que pensam é retirar os caminhões de circulação, cada embarque e desembarque como se a carga e descarga não fizessem parte da cadeia produtiva e do abastecimento ao consumidor final. “O bitrem, apesar de ter autorização para sua fabricação, paga impostos e tem registro no Detran e quem compra, muitas vezes assume um financiamento, é proibido de circular em alguns estados”, reclama ele.
Incentivo à compra do carro não tem em paralelo obras de infraestrutura e transporte coletivo
O presidente da Fetrancesc criticou o incentivo à venda de veículos e sem ter em paralelo ações de infraestrutura de transporte como a falta de vias para atender à demanda e de um bom sistema de transporte coletivo eficiente. Segundo Lopes, isso só tem elevado os custos do transporte, pois aumentou em muito o tempo perdido em filas de engarrafamento, sem contar o desgaste dos veículos, o consumo de combustível e muitas vezes, gera perda na qualidade dos serviços.
Citou os avanços que países da América Latina, como Peru e Colômbia, que conquistaram nos últimos anos na mobilidade, “mas o que houve lá foi o debate e o planejamento na execução dos projetos para a harmonia dos diferentes modais”, ressaltou Lopes, que conheceu os serviços desses dois países.
Contorno viário da Grande Florianópolis é desvio de foco da necessidade de ações públicas para a mobilidade da Grande Florianópolis
Lopes citou a polêmica do contorno viário da Grande Florianópolis como exemplo ruim de solução de mobilidade, porque não será a solução do caos no trânsito entre Palhoça, São José, Florianópolis e Biguaçu. Nesse trecho, milhares de pessoas se deslocam todo o dia para o trabalho, para as escolas e compromissos diversos, usando a BR-101, uma rodovia federal que tem a função de ligar estados e o Mercosul. E nada está sendo pensado para essa deficiência da rodovia federal usada como via urbana.
As duas pontes de acesso e saída da Ilha de Santa Catarina, em Florianópolis são ultrapassadas, enfatizou ele. Os prefeitos, os parlamentares e o governo do estado se concentram no contorno apenas. Na República Dominicana, onde o presidente esteve no mês passado para a Assembleia da Câmara Interamericana de Transporte, há a educação de boa convivência no trânsito desde os primeiros anos escolares.
Após a palestra, houve o debate entre Lopes, o presidente do Setcesp, Manoel Souza Lima Júnior, o fundador e diretor do Grupo Imam, José Maurício Banzato e o Diretor executivo da Associação Nacional dos Transportadores Ferroviários (ANFT), Rodrigo Vilaça, com mediação de Mário Latifi.
São Paulo é um exemplo de decisão tomada de cima para baixo na mobilidade
Manoel Souza Lima Júnior relatou os problemas enfrentados pelo transporte com a proibição de transitar e fazer a carga e descarga em São Paulo, com a decisão do ex-prefeito Kassab em não permitir a circulação dos veículos de carga e que mesmo uma proposta de fazer o serviço à noite para grandes estabelecimentos comerciais não foi aceita pelo poder público. “Depois das 17 horas, os caminhões ficam parados, o nosso pessoal não pode descarregar os caminhões e depois das 20 horas (quando o serviço é permitido novamente) precisamos trocar o motorista. Nossos motoristas ficam sem segurança, com problemas para jantar e o Ministério Público cobrando do setor uma solução para esta situação”, lamentou ele.
“Queremos que tenham pessoas que solucionem essas questões, uma equipe que tenha profissionais que entendam a atividade. Nós entendemos que quando uma lei vai ser feita, as autoridades devem nos consultar, porque nós sabemos onde e quais são os problemas”, defendeu Souza Lima Junior. Ele lembrou que o prefeito de Londres chamou os transportadores para discutir e definir ações para a mobilidade nas Olímpiadas e Paraolimpíadas, realizadas no ano passado. “Em São Paulo estão tratando da Copa do Mundo de 2014, mas não nos chamaram para tratar disso.”
Vilaça reforçou que falta planejamento para a mobilidade. E que agora com o projeto de ferrovias no Brasil, nada se falou em ou se incluiu, nada de armazenagem e mecanização tão importantes quanto os trilhos.
Sem representantes do poder público é a mostra do descaso?
José Banzato perguntou sem tinha algum vereador, algum prefeito, algum deputado, algum governador e até a presidente da República no Seminário Indústria do transporte no Desenvolvimento do Brasil. Nenhum, concluiu ele. Para ele, isso mostrava o desinteresse do setor público em conhecer o debate e as necessidades da população no quesito mobilidade e infraestrutura de transporte e logística. E fez outra pergunta, por que as autoridades não se espelham nos melhores e não incentivam os melhores a encontrar soluções de mobilidade? Sugeriu então que a organização do evento fizesse a Carta de Caxias para que as autoridades possam conhecer o que foi o Seminário.
Os debatedores também falaram da desoneração setor, com algumas exceções, não há nada de redução da carga tributária. Só foi citada a troca de recolher os 20% para o INSS pelo 1% ou 2% sobre o faturamento das empresas de transporte a partir de janeiro de 2014, concessão feita pelo governo após a mobilização do segmento, porque o governo federal só havia feito essa desoneração para alguns setores da indústria e comércio.
O presidente da Fetrancesc, Pedro Lopes, encerrou falando do Plano Nacional de Logística de Transporte (PNLT) que foi elaborado pelo governo federal, mas não executado. Lopes disse que esse Plano ninguém entende. E da demora em executar as obras necessárias. “As autoridades precisam parar de comemorar lançamento projeto como se fosse inicio da obra. Vivemos de manchete de jornal”, disse ele sobre a precária infraestrutura. Para ele, o verdadeiro plano como solução para as deficiências na área é o Plano CNT de Logística e Transporte. “Era só colocar em prática”, finalizou ele.
Fonte:JP/ Imprensa Fetrancesc
Fotos: Juraci Perboni