Rio de Janeiro, 19.8.13 – Presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro diz que o déficit comercial de US$ 2 bilhões previsto para 2013 é responsabilidade do país. Mesmo com a atual economia mundial, afirma, seria possível fechar o ano com superávit se a quantidade de petróleo exportada fosse a mesma de 2012. Para Castro, o dólar pode ultrapassar o patamar de R$ 2,45 até o fim do ano. No Encontro Nacional de Comércio Exterior (Enaex), que será realizado nos dias 22 e 23 de agosto, a discussão será sobre logística, que é hoje o principal gargalo do comércio exterior, segundo Castro.
A previsão da AEB é que o país terá o primeiro déficit comercial desde 2000. Quais são as razões?
O déficit que esperamos para 2013 é culpa exclusiva do Brasil. É provocado pela queda na quantidade exportada de petróleo. A Petrobras retardou a manutenção das plataformas, provocando queda na produção, o que afetou as exportações. Além disso, usou o petróleo para aumentar a produção de derivados e evitar a importação. Isso afetou as exportações. Se a quantidade exportada de petróleo fosse a mesma de 2012, teríamos superávit entre US$ 7 bilhões e US$ 10 bilhões.
Como vê o cenário da economia mundial?
Vemos algumas luzes se acendendo, como Alemanha e França. Os Estados Unidos estão com crescimento pequeno, mas aparentemente consistente. Para o Brasil, a recuperação americana não significa necessariamente melhora porque eles são nossos concorrentes em commodities. O que existe é um receio de que a retirada dos estímulos do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) provoque queda ainda maior no preço de commodities. Para 2014, a previsão é que o preço da soja seja 20% mais baixo que em 2013.
O dólar deve continuar subindo?
Nossa expectativa é que o dólar continue a subir para perto dos R$ 2,40, R$ 2,45, mas pode até passar disso. Isso é puxado pela retirada dos estímulos dos Estados Unidos, mas nosso déficit em conta corrente também está aumentando muito. E não vemos atração de capital estrangeiro apesar da retirada do IOF e do aumento da Selic. Mas ainda não dá para dizer se é uma alta consistente. A gente olha com ótimos olhos, mas há muita cautela. Não haverá impacto na balança este ano, mas se o patamar se mantiver vai ajudar em 2014.
Qual é a importância da logística, tema do Enaex?
A logística é o grande gargalo para o comércio exterior hoje. O tema será “Propostas para uma logística integrada e competitiva”. Vamos discutir como melhorar nossa logística. A exportação de commodities, mesmo com as deficiências de logística, consegue superar custos. Mas as vendas de manufaturados são como voo de galinha, só alcançam a América do Sul.
Qual é o custo disso?
Estima-se que o custo da logística nos Estados Unidos corresponda a 8% do preço do produto. No Brasil, está em torno de 18%. Isso significa 10% a mais. Além disso, o chamado custo Brasil é estimado em 30%. A MP dos Portos criou uma expectativa de redução dos custos de logística. Se isso vai ser atingido, é outra coisa. Esses investimentos têm prazo de maturação mínimo de dois anos, e só depois será possível avaliar algo. Já em relação às rodovias e ferrovias, está tudo atrasado. Esse é o problema. Anuncia, cria expectativa, mas nada acontece. Esse adiamento do trem-bala, por exemplo, não foi bom. Se a coroa da Corte está assim, o que vai acontecer com os outros?
Fonte: O Globo (edição de sábado 17/08)