Florianópolis, 24.10.13 – Dionir Valério, motorista de ônibus, perdeu a vida para salvar os 27 passageiros e o motorista auxiliar do coletivo que conduzia desde Florianópolis ao colidir contra carreta no problemático Km 235 da BR-101 no Morro dos Cavalos, em Palhoça – trecho considerado perigoso devido a um desnível na pista e que contabiliza 110 acidentes em 2013.
Ao chegar em Florianópolis, após horas na estrada, o motorista Dionir Valério, 48 anos, pegou o volante do ônibus que fazia o trajeto São Paulo – Araranguá enquanto o companheiro de jornada Pedro José de Oliveira iniciaria o descanso. Um procedimento de rotina, mas que selou o destino de Dionir. Cerca de 30 minutos depois, no Km 235 da BR-101 no Morro dos Cavalos – trecho considerado perigoso por causa de um desnível na pista e que contabiliza 110 acidentes apenas em 2013 – o condutor de uma carreta, Fabrício Mafei, perdeu o controle do veículo e invadiu a pista contrária. Neste instante, Dionir tomou a decisão que lhe custou a vida, mas salvou 28 pessoas.
– A carreta virou em L na pista. O motorista deve ter perdido o controle no desnível da pista. O meu companheiro que estava com o caminhão na frente do ônibus tentou desviar e tombou. Foi quando o motorista do ônibus foi um herói. Ele poderia ter saído da rodovia para salvar a vida dele, mas colocaria em risco os passageiros. Ele manteve o ônibus na rodovia para evitar uma tragédia maior – narra William Hessielparth, motorista que trafegava atrás do ônibus e amigo de Luiz Carlos Nascimento, condutor do caminhão que tombou fora da rodovia.
Chovia fraco, ventava e a pista estava escorregadia, condições adversas que influenciaram na ocorrência do acidente. Visto como herói por testemunhas do acidente, por ter se sacrificado em benefício dos passageiros do ônibus, Dionir é admirado também pelo sobrinho Cléber Valério, motorista de 35 anos. Mesmo abalado, com os olhos marejados, ele fez questão de falar sobre o tio, com quem aprendeu a dirigir.
– Disseram que ele tentou salvar, que ele viu o caminhão vindo pra cima dele. Dizem que ele foi tirando o máximo que deu, que salvou os outros e morreu. Ele era uma pessoa excelente – contou, entre lágrimas.
Dionir era casado com Tânia, com quem tinha um filho, Renan. A mãe Docelíria mora no mesmo bloco que a família de Dionir em Criciúma, Sul do Estado, e o esperava para o almoço ontem. No lugar, recebeu más notícias e, em choque, foi atendida pelo Samu.
Acidente é relatado por passageiros
Passava das 8h, Alexandre Gimenes e a mãe Loide Gimenes olhavam a rodovia pelos enormes vidros dos primeiros lugares do ônibus. Os dois saíram de São Paulo às 20h15min com destino a Içara. Estavam sentados praticamente em cima da cabine do motorista, com vista privilegiada. Em frente, um caminhão seguia pela pista.
Tudo parecia normal, mas Alexandre e a mãe contam que avistaram uma carreta na direção contrária. Em segundos, a parte traseira invadiu a pista em que estava o ônibus e o veículo se tornou um L. Com o movimento nervoso das mãos, Alexandre tenta reproduzir os acontecimentos. Diz que viu o momento em que o motorista do caminhão da frente desviou para o acostamento, caindo em um barranco. Os dois ouviram então um som forte. Era a colisão.
Uma operação foi montada com equipes de resgate e dois helicópteros para encaminhar as vítimas para hospitais na Grande Florianópolis. A empresa Pluma informou que prestará assistência aos 27 passageiros que estavam no veículo.
Depoimentos de passageiros:
ÍCARO HENRIQUE PEREIRA, embarcou em Curitiba às 3h20min com destino a Içara, no Sul do Estado
“Foi um susto. Com o impacto meu cinto de segurança abriu e eu fui lançado para o corredor, em cima de uma mulher. Ela entrou em choque, estava com um corte na cabeça e sangrava muito. Da parte de cima vinham os gritos. Todo mundo apavorado.”
RAFAEL RODRIGO MÜLLER, embarcou em Curitiba com destino para Criciúma
“O motorista morreu para preservar todo mundo. Se ele joga para o barranco, ia ser bem pior.”
ALEXANDRE DOS SANTOS GIMENES, embarcou em São Paulo com destino a Içara
“O motorista não quis jogar para o lado. Bateu na carreta. Mas eu acho, do fundo do meu coração, que ele fez isso para salvar os passageiros. Deu a vida para evitar uma tragédia maior.”
Acidente expõe problema no Km 235 da BR-101
De janeiro a setembro 110 colisões ocorreram no local e oito pessoas perderam a vida no trecho.
A morte de mais uma pessoa em acidente no Morro dos Cavalos, em Palhoça, chama atenção pela frequência. Em dias de chuva, além das estatísticas, aumentam as suspeitas de que um defeito na pista, aliado à imprudência dos motoristas, possa contribuir para o grande número de acidentes no trecho da Grande Florianópolis.
Dados da Polícia Rodoviária Federal apontam que de janeiro a setembro deste ano, oito pessoas perderam a vida no Km 235, da BR-101. Ainda em 2013 já foram contabilizados 110 acidentes no local. A maioria das colisões são traseiras e frontais ocasionadas por excesso de velocidade ou imprudência.
Devido à frequência de ocorrências a PRF solicitou reparos na adequação da pista com o trecho duplicado. Segundo policiais da PRF, os acidentes acontecem no sentido sul-norte, cerca de 30 metros após a ponte, onde a pista duplicada passa a ser pista simples sem acostamento seguida de curva à esquerda. No local, há aproximadamente dois meses, a Construtora Sul Catarinense, por meio de um contrato com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), realizou os reparos de adequação na pista simples junto à duplicada.
A Autopista Litoral Sul, concessionária responsável pela rodovia, informa que desde junho deste ano o trecho do Km 220 ao 244 foi incorporado ao contrato de concessão, mas a responsabilidade da empresa é apenas realizar a conservação e atendimento no trecho. Obras de ampliação, túneis e investimentos como barreiras de concreto não estão contempladas no contrato.
Concessionária e DNIT divergem sobre trecho
O diretor superintendente da Autopista, Paulo Castro, reforça que a responsabilidade da concessionária no trecho é referente à manutenção e sinalização, não se estendendo à obras estruturais necessárias para a solução do problema no local.
– O caso ali é uma adequação no encaixe da duplicação da pista. O DNIT tem que refazer o encaixe que não ficou adequado. A declividade da pista, a curva e o excesso de velocidade dos motoristas, resultam nos acidentes – avalia
O DNIT, por meio de assessoria, informa que após a concessão para a Autopista não tem mais jurisdição para qualquer intervenção ou melhoria do trecho e que a reponsabilidade da obra em questão é inteiramente da concessionária.
Contatada pela reportagem a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) não se manifestou até o fechamento da edição.
Túnel seria a solução no Morro dos Cavalos
As obras no Morro dos Cavalos, que incluem a construção dos túneis, são uma das mais complexas e por isso constituem as últimas etapas a serem concluídas no pacote de duplicação da BR-101. Tanto PRF quanto concessionária e DNIT concordam que a obra seria a solução para reduzir o número de acidentes no local. Segundo o DNIT, as licenças prévias foram emitidas pelo Ibama no fim do mês de agosto. A estatal trabalha na elaboração do edital e a expectativa é que a licitação para as obras seja lançada até o fim desde ano. De acordo com o projeto, a previsão de execução das obras é de quatro anos.
“Já mexeram, mas não resolveu”
Há 19 anos no posto de Palhoça, o policial rodoviário costuma atender ocorrências no trecho em que aconteceu o acidente da manhã de ontem e a experiência mostra que a pista deve apresentar problemas na saída da ponte.
DC – O senhor trabalha há 19 anos no posto em Palhoça, o que tem observado nos acidentes que ocorrem no quilômetro 235, da BR-101?
Rulyan Almeida – Pela experiência que a gente tem é possível afirmar que a pista tem um problema. Assim que se sai da ponte tem uma pequena depressão e toda a vez que o carro se perde ali vai para o lado contrário.
DC – Como geralmente ocorrem os acidentes?
Almeida – Sempre no mesmo sentido, do sul para o norte, no início da subida, saindo da ponte cerca de 30 metros, os motoristas se perdem na emenda do asfalto.
DC – O que poderia ser feito para amenizar o problema?
Almeida – A Autopista já foi informada do problema, já mexeram, mas não resolveram. Uma medida paliativa seria a construção de uma mureta central, que já evitaria algumas mortes.
Fonte: Mônica Foltran/ Diário Catarinense