Florianópolis, 30.9.13 – Não é preciso ser um profeta para imaginar o nó górdio que tornará intransitável o caminho das praias daqui a dois ou três verões. O que espanta gregos e goianos é que esta perspectiva não assusta as autoridades.
As montadoras estão superando a crise e vendendo bem os seus carrinhos. Aparentemente todos estão felizes: o Detran e a Secretaria da Fazenda, que capitalizam o IPVA. E os animados proprietários de “borrachas novas”, que imaginam ter ganho uma eficiente carruagem para rodar pelas estradas da Ilha.
Não dou dois anos para que um engarrafamento-monstro se instale num mês de janeiro na SC-401. E que registre em apenas uma hora dois partos, cinco acidentes fatais, três resgates de helicópteros do SAR e um pedido de refúgio ao Alto Comissariado da ONU contra o abandono em autoestradas, ao frigir do sol…
Acordamos tarde, depois que as 30 montadoras de veículos existentes no país instalaram o verdadeiro labirinto urbano. Fôssemos uma cidade com planejamento e uma pitada – mínima – de “vontade política”, já teríamos o rodoanel para retirar o trânsito pesado das vias do acesso citadino. E corredores urbanos para o BRT, o autêntico “ônibus-metrô”. Mais um transporte marítimo de massa e pelo menos mais umas duas pontes e uns três túneis: um ligando o centro à Universidade, “tatuzando” o Morro do Antão; outro “furando” o Morro do Padre Doutor e ligando o Itacorubi à Lagoa da Conceição; e um terceiro, submarino, ao lado das pontes, como os túneis que ligam Kowloon a Hong Kong e Nova York a Nova Jersey.
Mais: teríamos uma mobilidade “alternativa”. Com um projeto sério de ciclovias e de estímulo à utilização do transporte coletivo de qualidade – desde que houvesse um, é claro. E um centro inacessível aos automóveis, quatro rodas a serviço de uma única pessoa egoísta.
Se ainda precisamos conviver com os automóveis, que, na ilha, já dão em árvore, necessitamos de duas coisas. 1) Limites. 2) Ordenamento na ocupação do solo. “Com o inchamento da zona continental e a caotização da Ilha”, diagnosticou o falecido arquiteto Luiz Felipe da Gama dEça, “criou-se um grande desequilíbrio, que estimula os conflitos de uso e a desordem, ampliando o atrito urbano”.
Ao invés da regulação de um Plano Diretor, o que vimos nos últimos anos foi uma “força-tarefa” na Câmara Municipal modificando zoneamentos e ampliando gabaritos de edifícios.
Ou seja: um caos cuidadosamente cultivado e devidamente “contratado” para o futuro.
Fonte: Sérgio da Costa Ramos/ Diário Catarinense (edição de ontem 29/09)