Florianópolis, 23.10.15 – A chuva constante que cai em Santa Catarina desde 8 de outubro ainda acumula estragos por todo o Estado. Ontem a situação se agravou com o transbordamento das barragens de Taió e Ituporanga, no Vale do Itajaí, o que deixou Blumenau, Timbó Grande, Rio do Sul, Botuverá, Brusque e Ituporanga em situação crítica, com vários bairros debaixo d´água. Somente ontem, 8.844 pessoas foram afetadas pela chuva, 2.225 casas foram danificadas e cinco municípios decretaram situação de emergência.
Ontem, o governador Raimundo Colombo (PSB) esteve em Brasília e entregou um relatório sobre os problemas à presidente Dilma Rousseff (PT), que disse pretender visitar neste fim de semana as áreas afetadas em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.
A previsão é que a instabilidade permaneça em SC hoje, com aberturas de sol e chuva fraca a moderada apenas em algumas regiões do Estado no fim de semana. Porém, o alerta para o tempo, conforme informações da Central de Meteorologia da RBS, continua pelo menos até o fim de novembro, já que a influência do El Niño deve trazer muita chuva nas próximas semanas.
A chuva prevista coloca a Defesa Civil de SC em alerta, já que os rios ainda estão cheios e o solo encharcado, com pouco tempo de recuperação depois da pequena trégua entre as enxurradas, aumentando o risco de deslizamentos.
Mais de 18 mil pessoas atingidas – Com os estragos causados ontem, o número de pessoas afetadas desde a primeira chuvarada, em 8 de outubro, chega a 18.725, com três mortos e um ferido, conforme os dados divulgados pela Defesa Civil até as 20h de ontem. No total, 88 municípios foram atingidos de alguma forma – 31 com mais de um evento no período – sendo que em 66 deles os moradores foram prejudicados diretamente, com pelo menos 997 desalojados e 868 desabrigados.
Lebon Régis, Papanduva, Itajaí, Ituporanga, Quilombo, Agronômica, São Cristóvão do Sul e Angelina decretaram situação de emergência, os últimos cinco ontem. O pedido precisa ser homologado pelos governos estadual e federal para agilizar o acesso a recursos e serviços.
Levantamento da Defesa Civil de SC mostra que em alguns pontos o volume de chuva registrado nos últimos 30 dias no Estado supera em quase cinco vezes o esperado para todo o mês. Em Alfredo Wagner, na Grande Florianópolis, choveu 743 milímetros, sendo que o normal do mês é 150 milímetros. Em Rio do Campo, no Alto vale do Itajaí, o índice foi de 609 milímetros. Rio das Antas registrou 592 milímetros e Rio do Sul 591.
Em relação à elevação dos rios, a região mais afetada foi o Alto Vale do Itajaí, onde o Itajaí-Açu alcançava 10,2 metros no início da noite em Rio do Sul. Com a intensidade da chuva diminuindo, a maior preocupação de hoje é com inundações no Alto Vale e no Litoral Norte, para onde essas águas escorrem.
Agenda de Dilma prevê visita a SC – O governo do Estado foi informado ontem de que a presidente da República, Dilma Rousseff, pode vir a SC no fim de semana para ver de perto os problemas da chuva. O destino dela deve ser o Vale do Itajaí, onde se concentram a maioria dos problemas. A confirmação da agenda ainda deve ser feita hoje.
Se for ao Vale do Itajaí, a presidente deve ver uma região bem afetada principalmente no Alto Vale. Além de Rio do Sul, cidades como Taió, Rio do Oeste e Laurentino tiveram problemas ontem. Segundo o secretário de Defesa Civil de Santa Catarina, Milton Hobus,a tendência é que hoje a situação melhore. Mas segue a preocupação com o Planalto Norte, que hoje deve ter chuva.
– A chuva está dando uma trégua. Mas no Planalto Norte, na divisa com o Paraná, as águas continuam subindo e ainda deve chover– explicou.
Nas cidades do Vale, ocorreram deslizamentos pontuais e inundações. Não foram registrados ferimentos e mortes.
Medo constante em Rio do Sul – A mobilização tomou conta das ruas de Rio do Sul. Santa Catarina mais prejudicadas pela chuva que atinge o Estado neste mês de outubro iniciou ontem a preparação para enfrentar a enchente que passou a inundar as principais ruas do município e a desabrigar pessoas. Até ontem à noite, 560 moradores haviam deixados suas casas para ocupar 13 abrigos municipais.
Com o nível do rio em 10,45 metros às 21h, a preocupação aumentava ao passo que as barragens de Ituporanga e Taió, estruturas de contenção da água antes de Rio do Sul, estavam vertendo ainda mais. Mesmo que a chuva tenha parado perto das 10h, a Defesa Civil do município alertou a população para a importância de buscar a informação. O diretor do órgão, Teodoro da Silva, destacou que o fato de a chuva ter parado poderia ter causado uma falsa sensação nas pessoas. Por isso a importância de manter o alerta.
A previsão é de que na manhã de hoje o Rio Itajaí-Açu, que corta a cidade, chegasse à sua cota máxima. A Defesa Civil estabeleceu o nível de segurança em 12 metros. Caso a água chegue a essa altura, será muito próximo aos 12,96 metros registrados em 2011, quando a cidade teve uma cheia histórica. Apesar de a previsão do tempo apontar uma melhora hoje a amanhã, os órgãos de segurança estão preocupados com o começo da próxima semana, quando uma nova frente fria chega a Santa Catarina.
Centro mobilizado e vitrines vazias – Ontem, para fugir dos possíveis efeitos da água, o dia foi de trabalho em Rio do Sul. No Centro da cidade, a mobilização era intensa no fim da tarde. As vitrines estavam vazias e caminhões entravam e saíam a todo instantes carregados de produtos.
– Tiramos tudo. É um dia para tirar e uma semana para colocar tudo no lugar. Erguemos as coisas em 2011 e entrou um 1,20 metro. Dessa vez erguemos no mesmo nível de 2011 – conta Susilene Jurascek, dona de uma loja no Centro de Rio do Sul.
Em intensidade maior ainda trabalhou o Corpo de Bombeiros. Profissionais de Lages, São Joaquim, Videira, Porto União, Curitibanos e Rio do Sul integraram uma força-tarefa que deve receber hoje o helicóptero Arcanjo. A Polícia Civil também deslocou um helicóptero para dar apoio no Alto Vale.
– Estamos com todo o efetivo de Rio do Sul em ação e mais o apoio da força-tarefa. Desde o final de setembro, é a quarta vez que acionamos esse apoio para atuar nos alagamentos – relatou o capitão do Corpo de Bombeiros de Rio do Sul, capitão Davi de Souza.
Moradores atentos ao nível do Itajaí-Açu – O dia de ontem foi de trabalho intenso para os moradores da rua 1o de Janeiro, no bairro Itoupava Norte, uma das primeiras vias de Blumenau a ser atingida quando o nível do Itajaí-Açu ultrapassa os oito metros. Correndo contra o tempo, famílias se uniram para retirar móveis e pertences das casas.
Osmar Zanini, 53 anos, era um desses moradores. A casa mista de dois andares na qual mora ele, a esposa, quatro filhos, genros e a sogra ficou submersa na enchente de 2011. Preocupado, ele se antecipou e retirou os pertences da sogra, que mora na parte inferior da residência.
Como a família de Osmar, centenas de moradores da cidade do Vale do Itajaí tiveram que ficar atentos em regiões de risco. Até a noite de ontem, a Defesa Civil contabilizou 104 ocorrências, a maior parte delas de deslizamentos de terra.
A chuva também fez serviços e atendimentos serem suspensos no município. Aulas foram canceladas em escolas das redes municipal, estadual e privada. Furb, Universidade Federal de Santa Catarina, Uniasselvi, Ibes, Ceja, Senac e Senai tiveram que dispensar os alunos.
Atendimentos nos hospitais Santo Antônio, Santa Isabel e Misericórdia foram cancelados. Somente emergências estão sendo atendidas. Os ambulatórios gerais nos bairros operaram em horário diferenciado ontem, e hoje atenderão conforme a demanda. Os medicamentos controlados serão entregues somente nos AGs da Velha e do Centro. A Policlínica estará fechada hoje, assim como todas as 66 Unidades de Estratégia de Saúde da Família (ESF).
Na iminência da descida das águas
Itajaí anoiteceu, ontem, sob a expectativa de uma nova enchente. A elevação rápida do rio Itajaí-Mirim, em Brusque, aliada ao alto volume de água no Itajaí-Açu, no Vale, e à dificuldade de escoamento causada por uma maré mais alta do que o esperado colocaram a Defesa Civil em alerta e provocaram mobilização de órgãos públicos na tentativa de minimizar prejuízos. A prefeitura chegou a decretar situação de emergência quarta-feira.
Até ontem, às 20h, havia ainda muita água para descer para a foz. O maior volume era esperado até a manhã de hoje.
– Por enquanto, nenhuma possibilidade é descartada. Nem de enchente – diz o coordenador da Defesa Civil de Itajaí, Everlei Pereira.
Ontem, o transbordamento do Itajaí-Mirim provocou estragos e deixou pelo menos 20 famílias desalojadas. A água chegou rápido. Logo no início da madrugada ela invadiu as casas e tirou o sono de muita gente, que passou a noite levantando móveis. O bairro Limoeiro, no limite entre Itajaí e Brusque, foi o mais atingido pela cheia com pelo menos 13 casas afetadas. Depois de algumas pessoas se recusarem a sair do local, a Defesa Civil de Brusque conseguiu encaminhar para o abrigo do Sesi 17 moradores, a maioria mulheres e crianças. Outras sete pessoas ficaram desalojadas após a enchente atingir a Rua Ananias Caetano da Silva, no bairro Murta. Elas foram conduzidas ao abrigo da Igreja São Cristóvão, no Cordeiros. A Defesa Civil de Itajaí também registrou cinco deslizamentos de terra ontem.
Ontem de manhã, a Marinha emitiu comunicado e voltou a fechar totalmente, por tempo indeterminado, o canal de acesso aos portos de Itajaí e Navegantes. O motivo é o aumento no nível do Itajaí-Açu em Blumenau, que elevou a correnteza na zona de praticagem – onde ocorrem as manobras – acima de três nós. De acordo com o site da superintendência do Porto de Itajaí, ontem havia três navios atracados nos terminais locais e dois ao largo, esperando para entrar.
Três horas que equivalem a 10 dias – Joinville amanheceu ontem debaixo de tanta água que cada estimativa dos prejuízos era logo superada pela confirmação de novos estragos. Foi como se a cidade do Norte do Estado tivesse sido castigada por 10 dias de chuva em apenas três horas. Isso porque a precipitação registrada no intervalo de 180 minutos alcançou 50 milímetros, praticamente um terço da média esperada para outubro inteiro.
O terminal central de ônibus parecia uma ilha entre a manhã e o começo da tarde. Passageiros tiveram de ser resgatados de barco pelos bombeiros e o vaivém de parte das linhas foi desviado para áreas não atingidas. Alguns lojistas preferiram nem abrir as portas, enquanto outros corriam para impedir a entrada da água ou já trabalhavam na limpeza do que foi atingido. Ruas do Centro formaram um labirinto entre áreas caminháveis e inundadas.
Quase todo o poder público sentiu o abalo do temporal: escolas municipais e estaduais de Joinville dispensaram os alunos, unidades de saúde suspenderam os atendimentos, museus não abriram e o expediente no Fórum teve de ser cancelado.
Funcionários do posto de saúde do Floresta, na região Sul da cidade, ergueram os móveis, enquanto os médicos sequer conseguiram ir trabalhar. Casos parecidos se repetiram em outros postinhos. Por toda a cidade, pelo menos 13,5 mil unidades consumidoras ficaram sem energia elétrica pela manhã – a maior parte normalizada durante a tarde.
Cinco pessoas tiveram que ser resgatadas – Deslizamentos, alagamentos quedas de muros e de árvores dividiram a atenção da Defesa Civil ao longo do dia. A atuação do órgão recebeu apoio das secretarias municipais de Infraestrutura e do Meio Ambiente.
Na Estrada dos Portugueses, no bairro Vila Nova, no Norte, uma pessoa ilhada dentro de casa teve de ser retirada pelos bombeiros, mas não houve registro de feridos. Durante todo o dia, outras quatro pessoas foram resgatadas.
À tarde, o tempo deu uma trégua e o aguaceiro baixou na maior parte da cidade do Norte do Estado. As paisagens do Centro voltavam quase à normalidade.
Alagamentos e desalojados – O forte temporal que começou na madrugada e continuou durante todo o dia ontem causou transtornos nas cidades do Vale do Itapocu, no Norte catarinense. Jaraguá do Sul registrou mais de 200 ocorrências, com 13 famílias desalojadas e uma desabrigada. Guaramirim e Corupá também tiveram um dia difícil, com alagamentos e deslizamentos.
Durante o dia, a BR-280 ficou interditada no quilômetro 95,3, na Serra de Corupá, por causa de um deslizamento de encosta. Ao todo, cerca de 100 metros de pista foram atingidos. À noite o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) liberou o trânsito em meia pista.
Ainda em Corupá, três famílias foram retiradas de suas casas e levadas para abrigos por prevenção. Foram registradas pequenas quedas de barreiras na localidade de 15 de Novembro. Os rios Novo e Humboldt atingiram 4 metros acima do nível normal.
Em Jaraguá do Sul, o cenário não foi diferente. A Defesa Civil registrou mais de 15 pontos de alagamento, cinco deslizamentos e três quedas de árvore. Os bairros mais atingidos foram Rio Cerro, Rio da Luz, Barra do Rio Cerro, Garibaldi, Vila Nova, Ilha da Figueira e Centro. O rio Itapocu chegou a atingir 4,90 metros acima do nível normal.
A família de Vitório Amaral, no bairro Barra do Rio Cerro, lutava para salvar os pertences antes que a água subisse mais. No meio da confusão, ele teve que salvar Lilica, a cadela de estimação, que estava perdida no meio da água.
– A água veio rápido, não entrou na casa, mas por segurança tiramos as coisas – conta.
Em Guaramirim, a Defesa Civil informou que 10 famílias estavam desalojadas e duas desabrigadas. Houve mais de 10 pontos de alagamentos e ocorreram deslizamentos em cinco bairros.
Schroeder também enfrentou alagamentos, mas os
rios que cortam o município não transbordaram. No entanto, uma família está isolada na comunidade do Itoupava-açu. Na cidade de Massaranduba, a Defesa Civil informou que houve atendimentos isolados, mas nada grave.
Volume bem acima da média preocupa – A chuva que atinge Santa Catarina nas últimas semanas é algo sem precedentes, segundo o secretário da Defesa Civil do Estado, Milton Hobus. Ele acrescenta que em algumas regiões já choveu mais de 740 milímetros, ultrapassando cinco vezes a média esperada para outubro.
– Estamos tentando fazer um comparativo aqui, mas nas grandes tragédias não tivemos um volume de chuva em todo o Estado como tivemos nos últimos 30 dias.
O secretário pede para que os moradores de regiões castigadas pelos temporais sigam a orientação dos alertas emitidos pelas defesas civis municipais.
As chuvas continuam sem dar trégua, ocasionando inundações em várias cidades do Estado.
– Tivemos a volta da chuva nesta madrugada com granizo, temporais e vendaval. Tudo de ruim está acontecendo em várias regiões do Estado. Prestem atenção a qualquer movimento estranho. Chame a Defesa Civil para que a gente evite tragédias maiores – diz o secretário.
A Defesa Civil orienta para que a população, principalmente quem mora perto das áreas atingidas, mantenha-se informada pelos órgãos oficiais. A Defesa Civil está atualizando de hora em hora o nível do Rio Itajaí-Açu pelo site www.defesacivil.sc.gov.br.
Tempo fica mais seco, mas novembro será chuvoso – A chuva que cai desde o começo do mês sobre Santa Catarina deve diminuir bastante a partir de hoje. Embora o dia ainda deva começar com tempo chuvoso na maior parte do Estado, o fim de semana terá o céu nublado, com algumas aberturas de sol no sábado, e pouca chuva, principalmente no Oeste do Estado. A previsão é dos meteorologistas Laura Rodrigues, da Epagri-Ciram, e Leandro Puchalski, do Grupo RBS.
– A maior parte da chuva prevista para essa semana já passou. Porém, a semana que vem ainda será com muitas nuvens. Condição nada favorável para secar os solos aumentando a chance de deslizamentos – diz Puchalski.
A abertura no céu deve começar já durante a tarde de hoje e se estender até pelo menos a segunda-feira. De acordo com Laura Rodrigues, a previsão indica um pequeno período sem grandes volumes de chuva até o começo de novembro.
– É uma boa notícia, mas que não deve durar tanto, já que o próximo mês deve ter tanta chuva quanto outubro – diz a meteorologista.
Volumes além da normalidade – As grandes quantidades de chuva esperadas para novembro são causadas pelo El Niño, sistema que provoca a elevação da temperatura das águas do Oceano Pacífico e causa muita chuva na região Sul do Brasil.
Ainda segundo a meteorologista, a previsão para novembro indica que os volumes devem ficar acima da média em todas as regiões do Estado. Essa condição já era esperada pela Defesa Civil estadual, que mantém contato direto com os órgãos municipais.
Segundo o diretor de prevenção da Defesa Civil, major Fabiano de Souza, o principal trabalho é manter diálogo permanente com a sociedade para evitar mais prejuízos.
– Deixamos tudo pronto para quando acontecem as ocorrências com os materiais de ajuda previamente licitados e pessoal de prontidão e em comunicação 24 horas – diz Souza. (Fonte: Diário Catarinense)
Sobram recursos e empenho, falta gestão antes da crise
A cada nova enchente com desabrigados e desabamentos, o modelo da Defesa Civil catarinense volta ao debate. Um ponto inquestionável é que nunca se investiu tanto como o governo Colombo na compra de equipamentos (radares) e na construção de barragens. Mas surge a pergunta inevitável: por que, afinal, os problemas se repetem todos os anos e nos mesmos lugares?
Dois especialistas ouvidos pela coluna são categóricos: temos recursos e equipes bem preparadas, mas falta gestão antes da crise. É preciso entender que a informação sobre o fenômeno climático é importante, mas não é sinônimo de prevenção.
Afinal, os catarinenses sabiam desde o início do ano que Estado seria atingido fortemente pelo El Niño. Pura informação. Mas quais orientações foram divulgadas para a população sobre como proceder nesses casos? E quantos rios foram desassoreados desde então nos principais municípios atingidos? Isso seria prevenção de fato. Barata e eficiente.
O planejamento destas operações é algo complexo. Santa Catarina aprendeu a lidar com os problemas na dor. Desenvolvemos uma capacidade ímpar de pronta resposta, que hoje é referência, mas somente depois que a água literalmente leva tudo o que tem pela frente. É inadmissível, por exemplo, que um sistema de quatro barragens ainda esteja em fase de licitação, com previsão (por enquanto promessa) de conclusão em 2018. Ou seja, 10 anos depois da maior tragédia climática que assolou o Estado, e que teve o morro do Baú como símbolo de tanta tristeza, será possível dispor de estrutura completa de operação das barragens. Por enquanto, entra governo e sai governo, a Secretaria da Defesa Civil continua na cota dos cargos por interesses políticos. E para um Estado com as peculiaridades climáticas de Santa Catarina, isso pode ser visto como omissão.
Casa de ferreiro – A Defesa Civil está sob o comando do secretário Milton Hobus, só por coincidência ex-prefeito de Rio do Sul, um dos municípios mais atingidos nos últimos anos a cada chuva mais forte.
Falta não justificada – O Fórum Parlamentar Catarinense, formado pelos 16 deputados federais e pelos três senadores, cancelou a reunião que faria hoje em Blumenau por causa das chuvas. A simples decisão, num momento tão crítico, demonstra falta de sintonia com as demandas da população. Poderiam fazer o encontro em outra cidade, ou não?
Fique atento – Evite circular por locais alagados ou que já estiveram submersos recentemente. Em 2011, esta foi a maior causa de morte durante os alagamentos.
#euajudo – Num momento em que o nosso Estado volta a sofrer com fenômenos climáticos, veículos do Grupo RBS em Santa Catarina estimulam posturas solidárias e preventivas, como as sugestões da Defesa Civil publicadas na página 19 desta edição.
Pedalada – O governador Raimundo Colombo sancionou a lei que institui a Semana da Pedalada Ecológica, a ser comemorada na terceira semana do mês de setembro. (Fonte: Diário Catarinense – Visor/Rafael Martini)
Nós, os sapos
Com este tempo esquizofrênico, algumas expressões foram remetidas para os porões do esquecimento: “Bota pra corar!”
Quem é que recomendaria, nos dias de hoje, pendurar roupa no varal para, ao sol, secá-la com maior rapidez? Em compensação, algumas expressões parecem ter sido reabilitadas, como o dito folclórico “Chuva e sol, casamento de espanhol!”
Outra: “Circo na cidade, chuva e tempestade!” O velho adágio se provava encharcadamente válido nos tempos em que a meteorologia não era assim tão evoluída. A chuva de antigamente já deveria ser obra do El Niño, mas, como não se sabia da existência desse facínora, colocava-se a culpa na chegada do circo, coitado. Incrível, mas era batata: muita nebulosidade, circo na cidade.
Sem circo, mas com o Menino Mau, pergunta-se: será que esse El Niño nunca sacia a sua sede?
Já estou me sentindo um girino, meio gente, meio sapo. E como seria a nossa vida de sapo, adaptado aos novos tempos? Aposto que muito melhor do que a vida de um humano. Muito mais úmida, é certo, mas, em compensação, muito mais ética e asseada do que a vida de um desses bípedes azedos que não deram certo.
Pelo menos na vida dos sapos não há partidos políticos volúveis, roubalheira, crime organizado, mensalão ou petrolão. E com esse tempo “glorioso” que anda fazendo, muito melhor ser sapo do que ser homem. Quando se tem fome, é só esticar a língua bífida – e pronto: a cesta básica de insetos está garantida.
Sobre os humanos, nós, sapos, teríamos a vantagem de já possuir uma pele impermeável. E enquanto os humanos apenas falam, nós coaxamos, engrolamos, gargarejamos, grasnamos e rouquejamos.
Vivemos felizes à beira dágua, saltando pra dentro dela ao menor sinal de mau tempo – o que, pra nós, é o chamado “céu de brigadeiro”.
Podem dizer de nós, sapos, o que quiserem: que vivemos uma vida larvar, aquática e imunda. Que só existimos para os homens em fábulas ou em canções de ninar, como a do sapo-cururu. E que as mulheres têm arrepios na espinha diante da simples visão de nossas formas acocoradas, o gogó subindo e descendo, o vaivém da língua. Pois não sabem o que estão perdendo, se não admitem dar um beijo de língua num sapo.
A única coisa que nos incomoda é o sol. Sua simples aparição nos deixa tão deprimidos quanto um vampiro ao meio-dia. Quando isso acontece, costumamos pular para o espelho dágua do Congresso Nacional.
Alguém conhece pântano mais natural? (Fonte: Diário Catarinense – Sérgio da Costa Ramos)
As barragens
O programa de contenção de enchentes no Vale do Itajaí prevê o aumento do nível das barragens de Ituporanga e Taió e a construção de mais sete pequenas contenções. Três delas estão com projetos prontos e editais concluídos. Uma foi impugnada pelo ICMBio. Outras quatro ficam em Agrolândia e Pouso Redondo. Estimulada por questões políticas a população ficou contra. Agrolândia ficou debaixo dágua esta semana. E o prefeito, que vetou a obra, veio pedir ajuda ao governo. Pode? (Fonte: Diário Catarinense – Moacir Pereira)
Perdas agrícolas chegam até a 20%
Apreensão é o sentimento que predomina entre os agricultores catarinenses diante de chuvas, ganizo e outros problemas climáticos no Estado, causados pelo El Niño. Ontem, o Alto Vale do Itajaí registrou intensas chuvas e o Meio-Oeste e a serra enfrentaram granizo. Luiz Hessmann, presidente da Epagri, Empresa de Pesquisa Agrícola e Extensão Rural do Estado, estimou que as perdas de produção podem chegar até a 20% nas áreas afetadas. No Vale, os danos são para as culturas de cebola, em fase de colheita, e arroz irrigado. Nas outras regiões, maçã e uva sofrem mais. O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Maçãs (ABPM), Pierre Nícolas Pérès, afirma que haverá perda na produção, mas ainda não dá para estimar quanto. Segundo ele, a queda de granizo assusta. Em alguns locais, chega a ter pedras do tamanho de um ovo de galinha. O diretor executivo da ABPM, Moisés Albuquerque observa que os danos no Planalto Serrano preocupam mais porque lá está a maior produção de maçã do país. Só São Joaquim produz 13 mil hectares. De acordo com o presidente da Epagri, os municípios de Alfredo Wagner, Ituporanga, Petrolândia e Imbuia respondem por 60% da produção catarinense de cebola. Da oferta brasileira, 34% é catarinense por isso os danos das chuvas podem impactar nos preços que hoje estão abaixo do custo de produção. Lvouras de arroz estão submersas. Se as águas ficarem altas por 48 horas, háverá perdas, diz Hessmann.
Torneiras fechadas – Em reunião com o grupo de especialistas da Secretaria da Fazenda e com o titular da pasta, Antonio Gavazzoni, o governador disse que, apesar de o Estado estar conseguindo manter o equilíbrio fiscal, é hora de “fechar as torneiras”. Isto porque a economia nacional continua em recessão.
Aquisições – O dólar alto tornou empresas brasileiras mais atrativas para grupos estrangeiros. Isso facilita o negócio da Maeri Consulting, de São Paulo, fundada pelo suíço Antonio Mariconda, especializada na venda de empresas. A filial da Maeri em SC, na qual atuam Bernardo Prisco Paraíso e Raphael Schmbeck Luz, negocia a venda de duas empresas do Estado para grupos europeus. A Maeri foca companhias com receita bruta entre R$ 30 milhões e R$ 350 milhões.
Energia limpa em alta – Entre as poucas empresas que crescem de vento em popa nesta fase de crise está a Quantum Engenharia, de Florianópolis. A companhia, presidida pelo engenheiro Gilberto Viera Filho, deve fechar 2015 com receita 60% maior frente a 2014. Entre os projetos realizados pela empresa estão as centrais fotovoltaicas Fontes I e II, no município de Tacaratu, no sertão de Pernambuco, que serão inauguradas este mês. Elas integram o Complexo Fontes, que também tem o parque eólico Fonte dos Ventos. O Complexo gera 340 GW/hora/ano, o suficiente para atender 250 mil residências. A Quantum acaba de completar 25 anos. Em SC, instalou as iluminações das pontes Anita Garibaldi, de Laguna, e Colombo Salles e Pedro Ivo, em Florianópolis. (Fonte: Diário Catarinense – Estela Benetti)
Impeachment para Cunha
O novo pedido de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, sem provas convincentes de que teria cometido crime de responsabilidade, evidencia uma contradição inaceitável da oposição: a documentação foi entregue a um parlamentar que sequer deveria estar no cargo de presidente da Câmara. Se a presidente ainda pode contar com o benefício da dúvida, já não é mais preciso comprovação de que o deputado Eduardo Cunha incorreu em falta de decoro parlamentar ao mentir para seus pares na CPI da Petrobras dizendo que não tem dinheiro depositado no Exterior.
Essa é a questão mais elementar, baseada em normas da Casa. Mas há ainda o próprio fat
que a provoca – a existência de contas secretas, que configuram crime contra o Fisco. Há contra o deputado farta documentação do Ministério Público da Suíça de que ele e seus familiares são donos de pelo menos US$ 2,4 milhões mantidos ilegalmente naquele país. Além disso, o parlamentar é submetido a investigações em dois inquéritos autorizados pelo Supremo, por envolvimento na Lava-Jato e, agora, pelas contas localizadas na Europa.
Esse homem, sim, merece o impeachment, depois de submetido ao rito previsto no Conselho de Ética da Câmara. E o eventual processo de impedimento da presidente da República, que depende de deliberação do Congresso, não pode ter seus primeiros atos sob o comando desse que é, no momento, o mais complicado de todos os integrantes do Legislativo. A manutenção do senhor Eduardo Cunha no poder é desrespeitosa não só com a política, mas com a democracia e os brasileiros. (Fonte: Diário Catarinense – Editorial)
Cazuza e o Brasil
A realidade é a Operação Lava-Jato, iniciada pela Polícia Federal e continuada pelo Ministério Público e pelo juiz Moro. Ela colocou gente de vários naipes na cadeia. Grandes empresários, operadores de moeda estrangeira, ex-políticos e ex-ministros. Ao Supremo Tribunal Federal, por causa do foro privilegiado, encaminhou as denúncias que envolvem políticos no exercício do mandato.
A ficção é o relatório aprovado na madrugada pela CPI da Petrobras na Câmara dos Deputados, onde todos os políticos são considerados inocentes. E isenta de qualquer responsabilidade Lula, Dilma, Graça Foster e Sérgio Gabrielli.
Mais uma vez, a culpa é do mordomo… Mais uma vez, a culpa é do mordomo…
É verdade – Parece mentira, mas é a mais pura verdade. Rio do Sul, considerada a Capital do Alto Vale, por ser a cidade-polo de uma região com 30 municípios, é facilmente atingida por enchentes. Sabe-se disso desde que foi fundada. No entanto, todavia, porém, contudo, o quartel do Corpo de Bombeiros, ao qual cabe 90% do trabalho de atendimento da população em casos de cheias, fica situado sabe onde? Na área que é a primeira a ser atingida pelas águas. A cada enchente, os bombeiros são obrigados a transferir todo o seu aparato para o pátio do Hospital Regional, fora do alcance do rio Itajaí-Açu.
Boa notícia – Uma boa notícia para os motoristas que vêm sofrendo com a buraqueira nas ruas e avenidas de Florianópolis em tempos de chuva forte, praticamente todos os dias: o Ministério das Cidades confirmou à prefeitura que na próxima semana faz o repasse de R$ 36 milhões para melhorias no sistema viário.
O valor é uma primeira parcela de um montante de R$ 211 milhões já aprovados para a cidade dentro do projeto de implantação do primeiro anel viário da Capital. Segundo a prefeitura, as máquinas começam tão logo o tempo ajude. (Fonte: Diário Catarinense – Cacau Menezes)
A mobilidade e a responsabilidade de cada um
Florianópolis lançou ontem o seu Plano municipal de Mobilidade Urbana, prevendo inúmeras ações que visam corrigir gargalos e reduzir a utilização do transporte individual. Serão realizadas oficinas setoriais, com ampla participação da sociedade. O resultado desses encontros, supervisionados por técnicos especializados, deverá indicar os melhores caminhos, embora nós já saibamos que, essencialmente, melhorar o transporte coletivo, implantar o transporte marítimo e ampliar a malha cicloviária, são medidas que independem de longas discussões e elucubrações teóricas. O sujeito para abandonar o automóvel precisa dispor de alternativas práticas e eficientes, que amenizem as situações cotidianas de
engarrafamentos – a tranqueira geral que faz com que muitos moradores da região metropolitana percam até três horas por dia no trânsito. Necessitamos de soluções para ontem, porque o caos já se instalou e vivemos uma verdadeira catástrofe urbana quando se trata de mobilidade. E é fato também que os motoristas precisam ajudar. Alguns, até aprendendo a dirigir melhor, desenvolvendo a velocidade correta – nas pistas certas das avenidas, por exemplo -, evitando trancar cruzamentos, furar filas, estacionar em locais proibidos (nas pistas da direita das avenidas mauro ramos e rio Branco, por exemplo), entre outras medidas fáceis e civilizadas. (Fonte: Notícias do Dia – Ponto Final/Carlos Damião)
Estragos
Da tribuna da Assembleia, o deputado Neodi Saretta (PT), ao se solidarizar com a vítimas das chuvas torrenciais que atingem Santa Catarina, também alertou para a situação precária das rodovias, principalmente no Oeste e Meio-Oeste. Muitas precisam de manutenção, e algumas delas não estão nem no projeto de recuperação. Tem casos que o trabalho de tapa-buraco não é suficiente, exigindo uma recapagem total. Seria conveniente também avaliar o asfalto utilizado, que em períodos de chuva revela baixa qualidade e durabilidade menor ainda. Na SC-401 em Florianópolis o trabalho de recuperação nem terminou e os buracos já estão aparecendo. (Fonte: Notícias do Dia – A vida segue/Paulo Alceu)

