Florianópolis, 13.5.16 – Ela veio pra unir quem há séculos estava separado, a chegada foi comemorada com uma festa jamais vista até então e era tão querida que seu pai, sabendo que tinha pouco tempo de vida, até celebrou seu nascimento antes do tempo para poder sentir o gostinho, ainda que simbólico, de vê-la de pé. Noventa anos depois, completados hoje, a ponte Hercílio Luz continua como a imponente dama de ferro de Santa Catarina, embora associa-lá a polêmicas seja natural diante dos mais de 30 anos de interrupções no tráfego, obras, promessas e atrasos.
Mas disso vamos falar mais abaixo, porque antes é preciso lembrar que, mais do que construções entre porções de terra sobre a água, pontes são também tudo aquilo que serve de ligação entre pessoas. Nada as une mais do que suas histórias, e com a Hercílio Luz não é diferente. Ferro, estacas e parafusos se misturam às vivências de quem ajudou e ajuda a dar alma a um monumento que mudou e moldou o Estado à forma que ele tem hoje.
Uma das maiores pontes pênseis do mundo, a “Velha Senhora” foi construída entre 1922 e 1926, durante a administração do governador que deu nome à obra. Ele não chegou a ver o sonho realizado porque morreu em 1924, apenas 12 dias depois de inaugurar uma réplica de madeira, construída na Praça XV especialmente para o ato simbólico. Antes da inauguração da ponte, os 40 mil habitantes de Florianópolis dependiam de balsas precárias para fazer a travessia entre Ilha e continente. A ponte também consolidou a cidade como capital, já que ela tinha acesso difícil e corria o risco de perder o posto para Lages.
Para os céticos quanto ao valor cultural da Hercílio Luz, existe até pesquisa mostrando que, mesmo com tantos impasses, a ponte ainda é o principal símbolo que remete as pessoas a SC. O levantamento é do Instituto Mapa, de março de 2016, que aponta que 40,2% dos entrevistados fazem essa associação de cartão-postal mais marcante, bem à frente das praias de Florianópolis (5,3% das menções) e da Serra do Rio do Rastro (4,5%). (Fonte: Diário Catarinense – Victor Pereira/Felipe Lenhart/Felipe Reis/Gabriela Machado)
Interditada em 1982, ponte já tinha trânsito sobrecarregado nas décadas de 60 e 70
A principal polêmica envolvendo a ponte Hercílio Luz, e que perdura até hoje, tem seu ápice em 1982. Em janeiro daquele ano, a estrutura foi totalmente interditada para o tráfego pelas condições precárias, com a deterioração das barras de olhal. O problema, porém, tinha começado antes. Edições de jornais dos anos 1960 e 1970 mostram que a ponte estava sobrecarregada já naquela época, absorvendo muito mais fluxo do que se projetava quando ela foi inaugurada.
Depois do primeiro fechamento, em março de 1988, a Hercílio Luz foi reaberta somente ao tráfego de pedestres, bicicletas, motocicletas e veículos de tração animal. Em julho de 1991, contudo, a ponte foi novamente interditada a qualquer tipo de trânsito e o piso asfáltico do vão central foi retirado, resultando num alívio de peso da ordem de 400 toneladas. Desde então, não houve nova abertura.
Todas as interdições foram marcadas também por promessas e execução de obras, mas muitas delas não se confirmaram e o restauro total para que veículos voltem a cruzar a Hercílio Luz agora é esperado para o segundo semestre de 2018. Nas tentativas anteriores, se falava até em a estrutura abrigar um metrô e em um tempo total de recuperação que não passava dos dois ou três anos — em muitos casos sequer iniciaram.
O temor de uma queda também sempre esteve presente, e na década de 1980 por mais de uma vez os jornais noticiaram esse risco ou mesmo os relatos de moradores que sentiram tremores perto da estrutura. Também engenheiros e arquitetos dos Estados Unidos vieram a Florianópolis nessa época e chegaram a dizer que a ponte sobreviveria mais 30 anos, desde que os reparos fossem feitos.
Os valores desembolsados ao longo de mais de 30 anos de obras são um capítulo à parte. Em 2015 o Ministério Público de Contas (MPTC) até mensurou esses gastos: teriam sido R$ 563 milhões em recursos públicos de 16 contratos, o que foi contestado pela atual gestão do governo do Estado.
Previsão de 2 anos para reabrir ao tráfego: Construtora Portuguesa Teixeira Duarte tem até outubro de 2018 para entregar a estrutura restaurada – Há duas semanas, o governo do Estado apresentou um resumo das etapas que estão sendo executadas na última fase da restauração da ponte Hercílio Luz à comissão que acompanhará o andamento das obras, formada por representantes do Deinfra, do Crea, da Associação Catarinense de Engenheiros, Acif, Associação Catarinense de Consultores de Obras Públicas (Accop) e Fundação Catarinense de Cultura.
O trabalho de restauração está a cargo da empresa Empa, do grupo português Teixeira Duarte. O trabalho está orçado em R$ 262,9 milhões, com prazo de execução previsto em 30 meses – ou outubro de 2018. O contrato foi assinado em março, e a ordem de serviço foi entregue no dia 18 de abril.
De acordo com o consultor executivo de infraestrutura do Deinfra, o engenheiro Claiton Bortoluzzi, das diversas etapas previstas (veja lista ao lado), os operários estão fazendo a mobilização e instalação do canteiro de obras, tanto no continente quanto na ilha, além da retirada de peças não estruturais da ponte, num total de 270 toneladas consideradas peso morto pelos técnicos.
– São estruturas de aço, enferrujadas, que estavam sobre o pavimento antigo, cuja retirada já estava prevista mas que não foi incluída no contrato emergencial do ano passado. Agora, o próximo passo dessa etapa é a instalação de seis grandes gruas que serão utilizadas na obra e serão montadas ao longo do mês de junho – afirma o engenheiro.
O momento mais crítico de toda a operação, de acordo com Bortoluzzi, está previsto para ocorrer entre janeiro e fevereiro de 2017, quando toda a estrutura que dá sustentação à ponte será suspensa para que seja iniciada a troca das peças e do pavimento. A manobra será feita por meio de elevação com 54 macacos hidráulicos sincronizados. Haverá uma empresa para fazer o monitoramento específico dessa etapa. O engenheiro reconhece o risco, mas está seguro.
– Toda obra de engenharia envolve riscos. Ainda mais numa reforma, que é mais complexa do que a construção de uma estrutura nova como aquela ali.
População poderá visitar a obra – Uma das novidades da última fase de restauração da ponte será a instalação de uma estrutura, no canteiro de obras, para recepcionar e orientar visitas agendadas. Ainda não há previsão para o início dessa atividade, mas Bortoluzzi estima que em julho já será possível. Técnicos de segurança da empresa e do Deinfra receberão os visitantes.
– Queremos que pelo menos uma vez por semana uma casa no canteiro de obras receba visitantes para que conheçam mais sobre a obra e vejam fotos e documentos históricos relacionados à ponte. Isso para que a população possa visitar o local – não circular, mas chegar perto e saber o que está sendo feito, já que a ponte é um patrimônio nosso. (Fonte: Diário Catarinense)
“A empresa é a responsável por quaisquer danos à ponte”
Entrevista com Claiton Bortoluzzi. Engenheiro, consultor executivo de infraestrutura do Deinfra
Que garantias a Empa deu ao governo do Estado de que vai conseguir cumprir o prazo de 30 meses?
A nossa maior segurança quanto ao andamento agora foi o andamento dos trabalhos do contrato anterior, que chamamos de “Ponte Segura”, quando a contratada conseguiu cumprir o prazo até com folga de tempo. Isso nos deixa um pouco mais seguros de que o cronograma será cumprido. Claro que podem ocorrer interferências, como condições climáticas, mas a empresa se apresenta bem firme em cumprir os prazo.
Dessas etapas, qual é a mais crítica?
Toda obra de engenharia envolve riscos. Ainda mais numa reforma, que é mais complexa do que a construção de uma estrutura nova como aquela ali. Mas o ponto mais crítico será em janeiro e fevereiro de 2017, que é quando toda a estrutura de sustentação da ponte – muitos cabos ainda serão construídos, segurando as torres, por exemplo – vai ser suspensa, por meio de elevação com 54 macacos hidráulicos sincronizados. Haverá uma empresa para fazer o monitoramento específico dessa etapa.
Alguns engenheiros, de Santa Catarina e de fora do Estado, questionam a forma como está sendo feita a reforma, dizendo, por exemplo, que a ponte deveria ser suspensa por cima, em vez de pela base. Como se definiu a forma atual dos trabalhos?
Na verdade, havia vários projetos e várias ideias sobre como a ponte deveria ser suspensa. Como é uma ponte única no mundo, na época a projetista contratada e os técnicos do Deinfra avaliaram que essa (suspender por baixo) é a condição mais favorável, até para se alinhar com o que já tinha sido executado na ponte até então. Então a maneira concebida foi essa, e nós acreditamos que ela é segura e dará condições para fazermos a substituição de todas as peças.
Que tipo de compromisso a Empa assumiu se algo der errado?
A empresa é a responsável técnica e existe também a questão do seguro que ela tem. Então, além do compromisso técnico, tem também o financeiro. Eles são responsáveis por quaisquer danos. Além disso, temos a questão da segurança, que vai ser tratada com a empresa ao longo de toda a execução, principalmente nessa parte mais crítica da elevação – se vai ocorrer algum plano de contingência na área em volta. Isso tudo será definido em conjunto com a empresa de supervisão e monitoramento que será contratada nas próximas semanas.
Está previsto que o tráfego de veículos seja liberado com a reabertura da ponte. Como ela será utilizada no planejamento da mobilidade urbana?
Temos algumas alternativas que estão em fase de estudo. Ela vai estar liberada para o tipo de tráfego normal, que passa pelas pontes Colombo Salles e Pedro Ivo – caminhões, ônibus etc. Mas ainda estamos estudando isso, porque temos ainda o debate sobre a questão do Plamus – plano de mobilidade que prevê a criação de faixas exclusivas para ônibus na Grande Florianópolis –, então queremos discutir o assunto mais um pouco. Porque o Plamus já considera a ponte como um ponto de travessia de veículos, mas temos de avançar um pouco mais: se vai para todo tipo de veículo, se o fluxo vai ser só de entrada na Ilha pela manhã e saída à tarde, ou só para ônibus. A prefeitura também participa das conversas porque pretende incluir a região do Parque da Luz nesse contexto. (Fonte: Diário Catarinense)
As duas senhoras
Passo quase que diariamente pela ponte Hercílio Luz e todas as vezes penso a mesma coisa: esse monumento tão bonito, que completa 90 anos hoje, tinha que ter vida. Se não suporta mais a passagem de veículos, pelo menos que pudesse ser desfrutado pela população. Que legal seria se as pessoas pudessem caminhar por ela, se as crianças e jovens tivessem aquele espaço tão nobre para andar de bike, de patins, se a ponte realmente fizesse parte da vida da cidade. Mas não. Entra ano, sai ano, só temos promessas. Será que alguém sabe quanto já foi gasto até hoje em projetos para a revitalização da Hercílio Luz e quanto foi investido nas pequenas obras de reparos, só para não deixar a estrutura ruim de vez? Acho que já perderam a conta. Mas é muita grana, com certeza.
Hoje, a ponte embeleza a paisagem, isso é inegável. Basta ver a quantidade de turistas que param nas imediações da ponte para fazer fotos e vídeos do nosso principal cartão-postal. Mas será que vale a pena gastar tanto dinheiro com ela, sem que lhe deem alguma utilidade? Desculpem a minha falta de nostalgia e romantismo, mas eu sou realmente uma pessoa prática. Acredito que este dinheiro da ponte (se custar mesmo os olhos da cara) seria melhor empregado na construção de uma nova travessia rodoviária entre o Continente e a Ilha. Isso sim é imprescindível e urgente. Não consigo imaginar como será esta cidade daqui a uns 10, 15 anos, se nada for feito no sentido de desafogar o trânsito. Já é insuportável hoje. O que nos espera no futuro?
Já escrevi demais sobre a viagem a Portugal, mas me permitam uma última comparação. As cidades do Porto e Vila Nova de Gaia, no Norte do país, são separadas pelo Rio Douro. Segundo o Censo de 2012, Porto tem 230 mil habitantes. Já Gaia tem cerca de 186 mil. Ou seja, as duas cidades juntas têm praticamente a mesma população de Florianópolis. O trânsito por lá também é complicado, até porque boa parte da população de Gaia trabalha ou estuda no Porto. Mas há uma vital e gritante diferença: lá, há pelo menos quatro pontes rodoviárias e uma ferroviária ligando as duas cidades sobre o rio. E não são pontes pequenas. A mais famosa, presente em praticamente todos os álbuns de viagens de turistas que vão ao Porto, é a Ponte Luis I, lindíssima, toda trabalhada no ferro, construída em dois pavimentos, dando passagem a veículos leves, ônibus, metrôs e também a pedestres e ciclistas.
A ponte foi inaugurada em 1886, está em perfeito estado de conservação e, no ano passado, foi anunciada a construção de dois passeios de 2 metros
o lado de fora do tabuleiro inferior, para o desfrute da população e dos turistas. A obra custará 600 mil euros e deve começar em breve. Não dá uma pontinha de inveja? (Fonte: Diário Catarinense – Viviane Bevilacqua)
90 anos da Hercílio Luz, por Robson Galvão*
Estima-se que o custo total para a construção da ponte Hercílio Luz tenha sido o equivalente a duas vezes a arrecadação anual de Santa Catarina naquela época. O dinheiro foi obtido pelo governo mediante empréstimos junto a bancos norte-americanos. O pagamento desses créditos só foi concluído mais de 50 anos depois, em 1978, pouco tempo antes de a ponte ser fechada.
Além do custo financeiro direto para a sua construção, a ponte gerou grandes impactos econômicos e culturais. A atividade portuária em Florianópolis, um dos pontos da rota Rio de Janeiro-Buenos Aires, foi muito relevante para a economia local no século 19. Além disso, o sistema viário-marítimo existente entre a Ilha de SC e os portos vizinhos de São José, Palhoça e Biguaçu, bem como os estaleiros para reparos das embarcações, complementavam a relevância da atividade marítima, o que impulsionava o comércio local.
O surgimento de embarcações cada vez maiores foi tornando obsoleto o pouco profundo porto da Ilha. De outra via, a ponte extinguiu rapidamente o sistema viário-marítimo entre a ilha e as cidades vizinhas.
Além de ter contribuído para a decadência da atividade marítima, a inauguração da ponte facilitou a entrada de diversos produtos dos vales catarinenses e de outros Estados, levando ao declínio da agricultura local.
A ponte Hercílio Luz, assim, teve papel muito relevante na mudança da vocação original da cidade. A partir de 1926, encerra-se o modo de vida ilhéu”, iniciando-se a era da modernização, com o momento administrativo e, depois, o da construção civil, na década de 1960. Finalmente, a partir de 1981, com a inauguração de Jurerê Internacional, iniciou-se o ciclo turístico, que perdura até hoje.
Transcorridos 90 anos da ponte Hercílio Luz, cabe sopesar os impactos econômicos e culturais que poderiam ser gerados com a sua reinauguração diante dos elevadíssimos custos para a conclusão das obras. A reinauguração da ponte precisa ser um bom negócio para a sociedade catarinense, e não apenas para aqueles que comercializam cartões postais. O preço já pago e a pagar parecem altos demais.
*Advogado criminalista (Fonte: Diário Catarinense – Artigos)
Observatório da mobilidade urbana na região metropolitana de Florianópolis
No dia 16 de maio será lançado o Observatório da Mobilidade Urbana da UFSC, que tem o objetivo de promover melhores práticas em mobilidade urbana na Região Metropolitana de Florianópolis com a interação entre sociedade civil, gestores públicos, institutos e grupos de pesquisa, e organizações não governamentais. O lançamento será seguido do Seminário NeoTrans – Integração Metropolitana do Transporte Coletivo: Oportunidades e Desafios na Grande Florianópolis, com apresentações e debate sobre Transporte Aquaviário. As atividades se estendem durante o dia seguinte, com oficinas de trabalho sobre a nova rede de transporte público coletivo, no auditório do Espaço Físico Integrado (EFI), na UFSC. (Fonte: Diário Catarinense – Ana Paula Bittencourt)
Temer quer governo de programas sociais
Estreante no cargo de presidente interino, Michel Temer fez da sua primeira manifestação pública uma tentativa de abraçar os principais setores implicados com a sua ascensão ao poder e a queda do PT. Pregou a união do país, apontou a retomada do crescimento econômico como objetivo e os investimentos privados como meio, louvou a Operação Lava-Jato, que investiga membros do seu governo. Mas avançou: ainda que genericamente, procurou não deixar perguntas ou acusações sem resposta, emitindo uma série de recados políticos ao PT de Dilma Rousseff, afastada ontem temporariamente da Presidência por decisão do Senado.
– É urgente pacificar a nação e unificar o Brasil. É urgente fazermos um governo de salvação nacional – afirmou o presidente interino, que sofreu com a rouquidão em diversos momentos dos 28 minutos de discurso no Palácio do Planalto, quando empossou os ministros da sua gestão.
Para a área econômica, que será comandada por Henrique Meirelles, Temer afirmou que perseguirá a redução dos patamares de “11 milhões de desempregados” e “inflação de dois dígitos”. Deixou claro que, como remédio para a crise, apostará em concessões, privatizações e busca por investimentos externos.
– Queremos incentivar de maneira significativa as PPPs (parcerias público-privadas). É um instrumento que poderá gerar emprego no país. Sabemos que o Estado não pode tudo fazer. Ao Estado compete, e vou dizer o óbvio, cuidar da saúde, segurança e educação – afirmou Temer, fincando pé em uma área em que sofrerá ataques de seus antecessores no Planalto.
O equilíbrio das finanças e a redução da dívida e de custos foram citados. O enxugamento de ministérios de 32 para 23 foi apontado como amostra inicial. Um estudo para a diminuição dos cargos comissionados do governo foi contratado. Medidas populares ante o pensamento médio da população. Iniciativas econômicas mais estruturais deverão ser anunciadas por Meirelles nos próximos dias.
Presidente manda recado aos petistas – Na área social, o presidente interino mandou um de seus recados aos petistas, que o acusam de pretender exterminar com a agenda de distribuição de renda, maior cartaz dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Temer assegurou que manterá programas sociais, citou nominalmente Bolsa Família, Pronatec, Fies, Prouni e Minha Casa, Minha Vida. Disse que os bancará e afirmou que é necessário abandonar a cultura da política brasileira de pisotear as políticas de sucesso dos antecessores.
– Sabemos que o Brasil, lamentavelmente, ainda é um país pobre. Reafirmo, e o faço em letras garrafais, que vamos manter os programas sociais – discursou no salão lotado.
Em outra mensagem aos adversários, declarou “respeito institucional” a Dilma. Mas, apesar do gesto, citou a “liturgia”. Também falou diversas vezes na Constituição: resposta aos petistas que o acusam de ser golpista e de estar ilegitimamente no cargo. No final da manifestação, avaliou que a expressão “ordem é progresso”, retirada da bandeira brasileira para o slogan do seu governo, “não poderia ser mais atual”.
– Foram recados claros e diretos. Ao falar em ordem, respeito às instituições e liturgia, ele disse ao PT: Me respeitem e não façam bagunça – analisou um prócer do PSDB, lembrando a ameaça de protestos virulentos da esquerda.
Mantendo o estilo de conciliador, tentou transmitir ideia de pacificação mesmo nos temas mais espinhosos, como a reforma da previdência – já contestada por alguns aliados – e trabalhista. Ambas foram mencionadas de forma superficial. Mas, somente a citação em um discurso inaugural de gestão, é motivo para arrepios nos setores sindicais, sobretudo a CUT, que fará oposição feroz ao seu governo.
– Nenhuma dessas reformas alterará os direitos adquiridos dos cidadãos brasileiros – disse Temer, indicando que as propostas serão fruto de negociação entre a classe política, empregadores e trabalhadores.
Outros dois pontos que fustigaram o governo do PT obtiveram atenção no discurso de Temer. A relação com o Congresso, a governabilidade e o respeito ao Legislativo foram lembranças recorrentes. A articulação política foi, desde o início, um dos maiores defeitos do governo Dilma. E a operação Lava-Jato, responsável por desmoralizar o PT e também o PMDB, ambos contemplados por abundantes recursos desviados da Petrobras. Aliados importantes de Temer, como o ministro do Planejamento, Romero Jucá, são investigados.
– A moral pública será permanentemente buscada pelos instrumentos de controle e apuração de desvios. A Lava-jato se tornou referência e, como tal, deverá ter prosseguimento e proteção – assegurou Temer, que teve o senador Aécio Neves (PSDB-MG), citado nas investigações, ao seu lado na maior parte da cerimônia.
Notificação foi entregue pelo primeiro-secretário – Antes do ato no Palácio do Planalto, Temer atravessou um longo dia que começou ainda na quarta-feira, com a votação do afastamento de Dilma no Senado. A sessão invadiu a madrugada de ontem, e as negociações para a formação do primeiro escalão do seu governo também. Os titulares dos ministérios da Integração Nacional e de Minas e Energia foram definidos poucas horas antes da cerimônia de posse.
Passava das 11h de ontem quando o primeiro- secretário da Mesa do Senado, Vicentinho Alves (PR-TO), desembarcou no Palácio do Jaburu, residência oficial de Temer, para lhe entregar a notificação do impeachment de Dilma. Carregava consigo uma pastinha de couro, em azul escuro, com o brasão do Senado. Ali dentro, um ofício assinado por Renan Calheiros (PMDB-AL) o declarava presidente interino da República.
– Vocês sabem que ele é sempre muito contido – comentou Vicentinho, questionado sobre a reação de Temer ao receber e assinar o documento, rodeado de aliados políticos.
Mais cedo, Eliseu Padilha, da Casa Civil, havia passado pelo pórtico do Jaburu, antes da chegada de Vicentinho. Com um sorriso modesto no canto dos lábios, mas indisfarçável, disse que já podia ser chamado de ministro. (Fonte: Diário Catarinense – Carlos Rollsing)
Mais incertezas do que respostas
Quem viu as imagens da notificação de que Michel Temer (ainda pela manhã) deveria assumir como presidente interino pode ter se surpreendido com a sobriedade do ato. A celebração foi quase franciscana. Mas por trás desta aparente economia gestual, sem bateção de panelas ou foguetório nas ruas, está o temor de que o novo governo também tenha vida curta por conta da Lava-Jato. O alerta partiu do criminalista Gastão da Rosa Filho, que se debruçou sobre as 73 páginas da recente decisão do ministro Teori Zavascki que afastou Eduardo Cunha da presidência da Câmara. O advogado identifica um cenário com alto grau de imprevisibilidade.
Vamos aos autos, digo, aos fatos: o argumento apresentado por Zavascki diz que “os ocupantes de cargos integrantes da linha sucessória da Presidência da República jamais poderão exercer o encargo de substituição caso estejam respondendo a processos penais”.
Na hipótese de vir a ser denunciado no âmbito da Lava-Jato, Michel Temer também seria atingido pela mesma dinâmica de “suspensão funcional imediata” que sustentou o afastamento de Cunha. Nesse caso, seu governo teria a duração de um voo de galinha.
Já o presidente da Câmara, Waldir Maranhão, não pode assumir em definitivo o governo na falta de Temer, porque não está na linha sucessória, uma vez que exerce a chefia do Legislativo em caráter temporário. O presidente do Senado, Renan Calheiros, por sua vez, encontra-se em situação similar à de Cunha, visto que também responde a ações penais no Supremo Tribunal Federal.
Impedidos os presidentes das casas legislativas, a linha de sucessão natural apontará na direção do presidente do STF, cargo hoje ocupado por Ricardo Lewandowski, cujo mandato termina em setembro. Em seu lugar, por um período de dois anos, assumirá a ministra Cármen Lúcia. Ou seja, é possível, veja só, caso Sérgio Moro mantenha a campanha de combate à corrupção, que o Brasil chegue a 2018 com uma mulher na Presidência da República. Hoje pode ser apenas um exercício de futurologia, mas quem sabe como será o amanhã? Responda quem puder. (Fonte: Diário Catarinense – Rafael Martini)
O tempo é relativo
Um dos dias mais longos da história da República durou 24 horas e 58 minutos. Esse foi o tempo necessário para o Senado ouvir 71 parlamentares em discursos de até 15 minutos, mais o relator Antonio Anastasia (PSDB-MG) e o defensor José Eduardo Cardozo (PT-SP), aprovar por 55 votos a 22 a abertura de um processo de impeachment e levar até Dilma Rousseff (PT) o ofício que a transformou em uma presidente com votos, mas sem caneta, faixa e poder de mando. Não foi pouca coisa que mudou entre as 10h01min de quarta-feira e as 10h59min de ontem. De súbito, teve fim ao menos temporário o ciclo petista de 13 anos no poder sob gestão de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma. De imediato, o vice-presidente Michel Temer (PMDB) herdou o poder com a disposição de dar uma guinada tão significativa nos rumos do governo que inclui o convite ao PSDB, antagonista do PT nas últimas seis eleições presidenciais, para subir novamente a rampa do Palácio do Planalto como convidado de honra. Claro que uma mudança dessa natureza não se opera em algumas horas de muitos discursos, atos simbólicos, gestos políticos e muito pouco sono. O embrião desse longo dia já estava nas eleições de 2014, quando um cenário de dificuldades econômicas camufladas e uma radical e marqueteira polarização do eleitorado criaram as condições para uma crise política permanente. O impeachment ou o golpe, na guerra de versões, está concretizado. É muito difícil que o PT e seus aliados consigam reverter a maioria consolidada no Senado para o julgamento do impeachment, a ser realizado em até 180 dias tempo em que o Michel Temer tentará consolidar um governo pro
isório mais radical nas mudanças prometidas que o de muito presidente eleito. Os petistas levam do Planalto um discurso, o do injustiçado, mas precisam reorganizar suas bases, reconquistar a esquerda desencantada pelo pragmatismo e fortalecer um nome eleitoral o próprio Lula ou alguma novidade. Aos tucanos, Temer ofereceu espaço para governar e a própria imolação: promete não ser candidato a reeleição. Assim, o PSDB poderá curar as próprias feridas e acertar-se entre seus inúmeros presidenciáveis já abatidos por petistas nas urnas: Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra, este ministro do novo governo. Outros atores e partidos, à esquerda e à direita, vão tentar aproveitar a fragilidade dos polos da política nacional para ganhar algum protagonismo. É isso mesmo. Em meio a um país em crise econômica e política, com um governo provisório e outro sendo julgado pelo Senado, começou 2018: um dos anos mais longos da história da República.
Escapuliu – Enquanto Dilma fala em resistir e reverter o processo de impeachment, alguns petistas já defendem – assim como quem não quer nada – a tese de convocação de novas eleições. Minutos depois da votação no Senado, ainda na entrada do plenário, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) dizia que “as pessoas vão começar a pedir eleições diretas” como uma das reações ao governo Temer assim que forem sentidos os efeitos do prometido ajuste fiscal.
Faltou tato – A ausência de mulheres no ministério formado por Michel Temer torna-se muito mais forte simbolicamente justamente por ele ascender ao Planalto com o afastamento da primeira presidente eleita do país. Faltou, no mínimo, sensibilidade política. Além disso, deu munição a quem vê machismo entre os ingredientes que levaram à erosão da popularidade de Dilma e a seu processo de impeachment.
Preocupação – Por coincidência, acontecia em Brasília a 4a Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres. A delegação catarinense no evento enviou uma nota em que manifesta preocupação diante da ausência de representação feminina no governo Temer. O temor, sem trocadilho, é a descontinuidade das ações do governo voltadas ao atendimento das mulheres. A própria Secretaria de Política para as Mulheres vai ser absorvida pelo Ministério da Justiça.
Na foto sem ministério – Santa Catarina não emplacou nenhum ministério no governo de Michel Temer (PMDB), mas tinha seu representantes na apresentação do primeiro escalão ontem à tarde. O senador Paulo Bauer (foto) acompanhou os ministros, assim como o deputado federal Jorginho Mello (PR).
Collor em alta – O discurso do senador Fernando Collor (PTC-AL) foi um dos momentos mais comentados da sessão que discutiu e votou o afastamento de Dilma Rousseff da presidência. Primeiro presidente brasileiro a sofrer impeachment, ele teve seu momento de revanche ao tecer críticas ao governo petista do qual se serviu e endossar o impeachment que apeia do poder o partido que mobilizou as ruas para afastá-lo em 1992. Eloquência nunca faltou a Collor, este personagem que os brasileiros conhecem tão bem e o ministério público federal mais ainda.
Mesmo discurso, alvos diferentes – Assim que recebeu a notificação de que estava afastada da Presidência da República, Dilma Rousseff (PT) fez um pronunciamento aos jornalistas no Palácio da Alvorada. Em cerca de 15 minutos, voltou a dizer que é vítima de um golpe e que as chamadas pedaladas fiscais e decretos questionados no processo de impeachment eram atos de governo legais. Rapidamente, desceu com ministros, assessores e parlamentares para a frente do palácio, onde era aguardada pelo ex-presidente Lula e centenas de militantes. Com um ou outro improviso, praticamente repetiu o discurso feito minutos antes.
Fica a dica – Aliás, ao receber as pastas de Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos, o Ministério da Justiça ganha o adendo “e Cidadania” ao nome. Curiosamente, fica igual à nomenclatura da Secretaria Estadual de Justiça e Cidadania. O PMDB de SC bem que poderia ter sugerido a secretária Ada de Luca para a vaga. (Fonte: Diário Catarinense – Upiara Boschi)
“As condições do novo presidente são melhores”, diz Colombo
Governador de Santa Catarina – Além de defender a votação de reformas com urgência no Congresso, o governador Raimundo Colombo também comentou ontem como ficam os rumos do governo do Estado com a nova presidência. Ele acredita que Temer tem melhores condições de enfrentar a crise econômica. O governador também aposta em um acordo na renegociação da dívida com a União.
Melhores condições
“Não se trata apenas de trocar pessoas, nem tampouco siglas partidárias. Acho que a crise no Brasil é uma crise sistêmica, crise do modelo. Ela vem desde a condução da Constituição de 1988, que colocou uma série de situações insustentáveis. E o modelo público no Brasil ruiu. Acho que as condições do novo presidente são muito melhores para que a gente possa, de fato, enfrentar com melhor resultado esta situação que está à frente.”
Torcer e ajudar
“Acho que tem que convocar o Congresso de forma extraordinária em julho. Fazer todas essas mudanças, a mais importante delas é a da Previdência, e aprovar tudo em julho. Senão, esta confiança, este crédito que o governo recebe agora, se esvai muito rapidamente. Porque a crise econômica é muito profunda, nós não temos condições, o serviço público vai entrar em colapso. E a economia do Brasil nunca, desde 1900, teve três anos de recessão. E o que está pintando são quatro, cinco, seis… Então não é possível. É muito importante a gente torcer e ajudar que o novo governo dê certo, mesmo nessa transição. Porque precisa dar certo, a situação é muito grave.”
Contratos mantidos
“Todos os nossos contratos estão sendo cumpridos. São financiamentos com bancos, BNDES, Banco do Brasil. Isto tudo está em curso, nossas contas estão equilibradas. Nós precisamos ter, realmente, um bom resultado na renegociação da dívida. A situação dos outros Estados, na maioria deles, é muito mais grave do que a de Santa Catarina. Eles optaram por aumentar impostos, sacar dinheiro de depósitos judiciais, que acho que não é o caminho. Nós estamos conseguindo manter isso. A arrecadação de abril de 2016 foi menor que abril de 2015. A inflação reajusta contratos: os custos dos serviços, os custos dos remédios, tudo isto subiu. Se você tiver uma arrecadação menor e uma despesa maior, em algum momento vai entrar em colapso. É exatamente esta crise que a gente vive agora.”
Entendimento
“Acredito em um acordo (na renegociação da dívida com a União), estamos lutando por ele. Já estive com o (Henrique) Meirelles, o novo ministro da Fazenda, alguns dias atrás, também expus isto ao vice-presidente Michel Temer e a gente ficou aguardando esse desenlace político para voltar a conversar, o que vai ocorrer na semana que vem. E nesse prazo de 60 dias é importante que a gente consiga construir um entendimento. Isto vai ser bom para o governo federal também. ” (Fonte: Diário Catarinense)
O derradeiro discurso de Dilma
Em dois atos, um no segundo andar do Planalto e outro ao pé da rampa do palácio, a presidente Dilma Rousseff se despediu do poder e partiu para o período de limbo político. Antes de sair, insistiu que não cometeu crime de responsabilidade, reforçou que é vítima de um “golpe”, atacou a legitimidade de Michel Temer e prometeu seguir a luta pelo mandato.
– Não existe injustiça mais devastadora do que condenar um inocente.
Dilma acompanhou do seu gabinete, no início da manhã, o Senado aprovar a abertura do seu processo de impeachment, que marcou a interrupção de 13 anos da gestão petista no país. Por volta das 9h45min, chegou ao Planalto, onde aguardou a informação oficial do afastamento aprovado pouco mais de três horas antes no Senado. Recebeu a intimação do senador Vicentinho Alves (PR-TO) e, afastada por 180 dias do mandato, foi ao salão leste do palácio para um pronunciamento.
Ex-ministros da presidente afastada, exonerados pela manhã, entraram na frente. Militantes presentes gritavam “golpistas, fascistas, não passarão”. Deputados e senadores do PT e de partidos contrários ao impeachment também aguardaram a chegada de Dilma. De blazer branco, encarou o microfone e as câmeras.
Emocionada, a presidente lembrou que foi eleita por 54 milhões de brasileiros, destacou avanços dos governos petistas. Cercada por mulheres, negou que os decretos de créditos suplementares, editados sem o aval do Congresso, sejam crime de responsabilidade e disse confiar que vencerá o julgamento final no Senado, que deve ocorrer em até seis meses.
– Posso ter cometidos erros, mas não cometi crimes. Não tenho contas no exterior, nunca recebi propina, jamais compactuei com a corrupção.
A presidente afastada reclamou de sofrer “sabotagem” no seu governo, com objetivo de “tomar à força” um mandato conquistado nas urnas. Comparou a dor sentida de ter o mandato suspenso com o suplício físico sofrido nos cárceres da ditadura e na aflição da batalha que travou contra um câncer, em 2009, antes de ser eleita presidente pela primeira vez.
– Já sofri a dor invisível da tortura, aflitiva da doença e, agora, sofro mais uma vez a dor inominável da injustiça. O que mais dói nesse momento é a injustiça, é perceber que estou sendo vítima de uma farsa jurídica e política.
Dilma pregou união na luta contra o “golpe” e destacou ter orgulho de ser a primeira mulher a presidir o Brasil, tom repetido em um pronunciamento divulgado nas redes sociais.
– Vou lutar com todos os instrumentos legais de que disponho para exercer meu mandato até o fim, até o dia 31 de dezembro de 2018.
Encontro com Lula após pronunciamento – Encerrado o pronunciamento, Dilma saiu pela entrada administrativa do Planalto, abaixo da rampa, para se encontrar com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Diante de militantes e movimentos sociais, repetiu parte do discurso e atacou Eduardo Cunha (PMDB-RJ), afastado do comando da Câmara. Voltou a dizer que ele agiu por vingança diante da negativa de lhe garantir a impunidade no processo por quebra de decoro no Conselho de Ética da Câmara.
Sobre o vice Michel Temer, já considerado presidente em exercício àquela altura, negou a legitimidade de um governo sem votos e voltou a lhe lançar o rótulo de conspirador. (Fonte: Diário Catarinense – Guilherme Mazui)